Um silêncio perturbador; Por Walter Pinto Filho

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“É o que pensamos saber que nos impede, muitas vezes, de aprender.”
Claude Bernard (1813–1878), médico e fisiologista francês.

No ano passado publiquei o artigo Quando a Dúvida Foi Enterrada. Naquele texto, sustentei que, durante a pandemia (COVID-19), questionar deixou de ser um exercício natural da ciência para se transformar, para muitos, em um ato de rebeldia. A dúvida foi sufocada por “dogmas”, e quem ousava divergir era frequentemente tratado como negacionista ou inimigo do conhecimento. Reconhecer a gravidade da doença e o sofrimento que ela causou jamais exigiu renunciar ao direito de questionar.

A simples passagem do tempo ensina muito. As paixões arrefecem, o entusiasmo perde força e as certezas começam a ruir. As perguntas, porém, permanecem. E não podem ser enterradas sem respostas, sobretudo quando se trata de um vírus cuja origem era desconhecida e cercada, desde o início, por dúvidas, versões conflitantes e inúmeras especulações.

Recentemente, o médico Anthony Fauci, principal rosto da política sanitária dos EUA durante a pandemia, compareceu ao Senado e invocou repetidamente a Quinta Emenda da Constituição, exercendo o direito constitucional de permanecer em silêncio. Trata-se de uma garantia legal, assegurada a qualquer cidadão. Ainda assim, o contraste é inquietante. Quem durante anos falou como um cardeal da verdade absoluta preferiu se calar quando submetido ao escrutínio público.

Foram tempos dolorosos. Familiares entraram em hospitais e necrotérios para receber o corpo de alguém que amavam, vítima de um inimigo ainda oculto e pouco compreendido. Despedidas foram negadas, abraços interrompidos, vidas desfeitas. Depois de tudo isso, não é demasiado exigir respostas. Nós as merecemos. Talvez algumas venham somente daqui a muitos anos. Mas que venham. Os mortos, suas famílias e todos os que atravessaram aqueles dias merecem saber, tanto quanto for possível, o que realmente aconteceu.

Talvez seja necessário, como ensinava Nietzsche, adquirir a coragem de olhar novamente para aquilo que um dia julgamos definitivamente compreendido. O tempo não apenas afasta as paixões; também nos obriga a rever certezas.

A ciência nunca foi construída sobre unanimidades. Ela avança pela dúvida, pela revisão permanente e pelo confronto honesto de ideias. Transformar cientistas em figuras infalíveis foi um dos maiores equívocos daquele período. Nenhuma autoridade, por mais respeitada que seja, está acima do exame crítico.

O dever de prestar contas à sociedade, sobretudo quando se ocupou posição de enorme influência durante uma crise mundial, não é uma escolha: é um imperativo da responsabilidade pública.

Por isso, diante de tantas questões ainda sem respostas, considero o silêncio de Fauci um ato de covardia. Quando a alma é devorada pelo medo, não nos resta mais nada.

 

Walter Pinto Filho
Promotor de Justiça em Fortaleza
Autor dos livros “CINEMA – A Lâmina que Corta” e “O Caso Cesare Battisti – a confissão do terrorista”. www.filmesparasempre.com.br

 

 

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