Wagner, o exército de um homem só

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Wagner de Souza é um personagem singular. O deputado construiu-se como referência política conservadora a partir de um ativismo corporativo agressivo, mais adequado às tradições de esquerda, ao liderar um movimento, ilegalmente “sindical”, de policiais militares que provocou na população um sentimento misto, de pânico e solidariedade.

Com origem numa família assalariada, Wagner causa identificação imediata com os estratos mais pobres, que o têm como um exemplo motivador para suas aspirações de superação. Toda sua exposição pública está vinculada à sua ação política como um representante operativo. No plano privado, se apresenta como pai de família dedicado.

Portanto, sua vida é sua principal bandeira e toda a força que acumulou até o momento decorreu da construção de um enredo individual marcante. Ao apoio que sempre recebeu de sua corporação, os policiais militares, acrescentou, ao se aproximar cada vez mais dos movimentos conservadores de direita, uma legião de simpatizantes de confissão evangélica.

Chega à campanha para governador agregando a esses aspectos um novo fator de potencialidade: pela primeira vez, entra numa disputa majoritária com base partidária ampla e recursos materiais necessários para uma campanha com estrutura correspondente à sua capacidade de captar votos. Está mais forte. Mais maduro e melhor orientado, agora.

Porém, sua candidatura tem dois problemas. O primeiro é a associação de seu nome a Bolsonaro, a quem apoiou na sua eleição e em seu governo, um presidenciável com elevada taxa de rejeição no Ceará que Wagner deseja governar. Por mais que se esforce em ocultá-lo, os registros estão por toda parte: fotos, áudios, vídeos e anais da Câmara Federal.

O outro problema de sua candidatura é mais complexo. Wagner construiu sua narrativa política como opositor declarado do grupo político-familiar dos Ferreira Gomes, ao qual sempre denunciou como uma “oligarquia” que participa do condomínio do poder no estado há 37 anos — os 16 últimos como protagonistas exclusivos.

Com o racha entre PDT e PT, seu discurso opositivo perde força: há, agora, outro candidato, Elmano de Freitas, rebelado contra decisões autocráticas. Apesar das ambiguidades do rompimento, não é tarefa fácil colar num candidato de Lula o carimbo oligárquico. Logo, o eleitorado incomodado com a continuidade do mando familiar se dividirá.

O outro entrave ao discurso de mudança de Wagner é a elevada popularidade do governo Camilo-Izolda. Quase sempre — e no Nordeste mais ainda — governos bem avaliados conseguem fazer seu sucessor. Não há, no grosso da população, contingente suficiente para promover uma reação em massa contra a continuidade.

Para concluir, Wagner é um candidato que, à conjuntura que lhe é desfavorável, opõe a construção de sua personalidade carismática, que acena com um repertório simbólico amplo não apenas na direção do eleitorado conservador, mas também para o sentimento — difuso, porém poderoso — de reação popular aos agentes tradicionais da política em geral.

É tipo assim “ele contra todos” — o que indica desafios, mas também oportunidades.

Ricardo Alcântara é escritor e publicitário

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