O divórcio da direita; Por Ricardo Alcântara

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A imprensa, hoje e por mais alguns dias, deverá refletir sobre a pesquisa levantada pelo grupo Genial/Quest (veja tabela na imagem) e publicada nesta segunda-feira, que aponta uma queda acentuada no prestígio social das forças armadas no primeiro semestre deste ano.

Seria natural supor que a causa principal fora o envolvimento de altos oficiais com assuntos civis durante o governo do ex-presidente Bolsonaro e o apoio expresso que esses elementos ofereceram às posições retrógradas de sua gestão, liderada com traços evidentes de psicopatia.

Sim, o fato alterou negativamente a imagem dos militares entre os eleitores de Lula, já refratários ao poder armado, que no Brasil sempre esteve associado a uma aspiração corporativa de se portar como uma espécie de “poder moderador” (principalmente quando a “moderação” se destinava a conter avanços sociais).

No entanto, esse não foi o motivo principal. Surpreendentemente, eis o dado mais interessante revelado pela pesquisa, é que a queda maior do prestígio da instituição se deu justamente entre os eleitores de Bolsonaro: nas regiões Sul e Centro-Oeste e entre os de confissão evangélica.

Mas logo eles, os que mais glorificaram os valores patrióticos e as virtudes da ordem inspirados pela tradição militar? Sim. O motivo: decepção com a recusa da instituição em assumir a liderança de um golpe de Estado contra o governo recém eleito de centro esquerda. Isto é, Lula.

Enfim, com sua dubiedade – “concordamos, mas façam vocês aí primeiro” – generais, almirantes e brigadeiros em comando de decisão confirmaram as suspeitas e ressentimentos históricos da esquerda e ganharam novos desafetos na extrema direita que passou quatro anos expondo cartazes na rua com o clamor de vê-los novamente ocupando os poderes da República.

Por tudo que já foi esclarecido até aqui, o que se viu foi a cúpula militar dividida entre uma minoria de exaltados, que flertaram com o abismo, e uma maioria moderada que se fixou na retenção da força nos limites de sua missão institucional. Não é, vejam bem, uma divisão ideológica, que separa convicções fascistas e democráticas, mas uma divergência de avaliação das condições objetivas da empreitada intervencionista.

Prevaleceu a percepção de que já não vivemos no mundo bipolar dos tempos sombrios da Guerra Fria e que, por conseguinte, as pressões internacionais inviabilizariam qualquer tentativa de garantir estabilidade a um regime de exceção. O Brasil não é uma Venezuela. É o maior produtor de gêneros primários – proteína e grãos – do mundo. Os interesses objetivos decorrentes das relações interdependentes do capitalismo globalizado seriam afetados.

Por outro lado, no front interno, a esquerda, liderada pelo PT, adquiriu expressão de massa, formou milhares de quadros e ofereceria uma reação organizada que a ditadura militar (64/85) não teve o desprazer de enfrentar. Tempos de internet, onde o controle da informação é um enorme desafio, sem falar do fator aleatório do crime organizado e sua permeabilidade na periferia das grandes cidades – como reagiriam a uma tentativa de controle ostensiva? Pois é.

Enfim, prevaleceu o bom senso: as invasões de 8/1 na praça dos três poderes não provocaram adesão articulada nenhuma nos quartéis, mas a participação promíscua de muitos oficiais nas tretas de um presidente desqualificado – sob qualquer aspecto que se queira abordar – esmaeceu o gesto democrático da decisão final do alto comando das forças armadas como instituição, de não assumir a liderança explícita de um golpe.

De tudo isso, resultou um divórcio, por quebra de confiança, entre os celerados de extrema direita e o poder militar, que flertou, namorou e não casou com ela. Mas não se iludam: a cadela do fascismo está viva e, segundo as lições da História, sempre no cio. O que recomenda amplo apoio da sociedade ao esforço empreendido hoje de apurar os fatos e punir os responsáveis.

Ricardo Alcântara é publicitário, escritor e colaborador do Focus.

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