Manhãs de domingo. Por Angela Barros Leal

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Seria muito especial se eu pudesse começar com uma inspiradora intenção, escrevendo algo como: Os dedos dela voavam sobre o teclado do piano. Seria uma agradável situação se pudesse eu afirmar, entre suspiros de emoção: A sinfonia que ela tocava nos transportava às mais elevadas esferas do pensamento, do sentimento e da imaginação.

Uma pena que nada disso eu pudesse afirmar, sem ferir o tão machucado coração da Verdade.

Explico. Minha irmã resolveu aprender a tocar piano. Ou melhor: reaprender a tocar. Perto de completar sete décadas, veio ao pensamento dela a ideia de contratar um professor, que trouxesse de volta a habilidade de seus dedos e o reaprendizado no domínio das teclas. Nunca é tarde etc.,etc.

Contratou então um mestre para auxiliar na recuperar do que aprendera ao longo de seis anos de diligentes lições, inicialmente impostas por nossa mãe e, mais adiante, continuadas por vontade própria.

Nesse tempo que costuma voar, entre a juventude e a maturidade, dera-se o afastamento, o rompimento forçado da relação entre ela e o piano. As obrigações de trabalho, a chegada dos filhos, a vinda dos netos, a costura intrincada dos deveres de cada dia –, um dia a empilhar seu peso sobre outro dia, forçaram a separação.

Ficava o piano, desde quando era possível lembrar, em um canto escuro na sala da casa da nossa mãe. Que perto dos 90 anos de idade, nos domingos de manhã, ocasionalmente ainda sentava no banquinho redondo, erguia a tampa sobre o teclado, retirava a faixa de feltro vermelho que protegia as teclas, fechava os olhos e tocava La Cumparcita, sua peça predileta.

Ou talvez nem fosse a predileta, e sim a única que conseguia recordar por inteiro.

O piano, da marca Essenfelder, pertencera antes à nossa avó. Era a prova concreta dos costumes exigidos por uma geração na qual o domínio de um instrumento, o conhecimento das linhas e pontos dos bordados, o cultivo das boas maneiras em sociedade, e a familiaridade com as artes culinárias, compunham o pacote de qualidades das mulheres para as quais os pais aspiravam aquela situação mitológica denominada: Um Bom Casamento.

Quando nossa mãe partiu, o piano ficou com minha irmã, a única entre todas nós que poderia fazer bom uso dele. Mas vieram as obrigações de trabalho, filhos, netos, e o piano emudeceu por mais de uma década, até o dia em que ela resolveu contratar o professor e reaprender o que esquecera.

Aproveitei um domingo para visitar o piano, agora com vida nova. As teclas estão iguais a como eram no tempo da nossa mãe. Continuam as mesmas, de marfim amarelado, com tonalidade escurecida nas pontas, deixando pistas de onde se fazia mais frequente o toque dos dedos. As teclas pretas, encarapitadas entre as amarelas, mantém-se perfeitas em seu brilho.

De todas elas minha irmã extrai as notas naturais, do mais grave ao si agudo, e as notas alteradas dos sustenidos e bemóis. A partitura recomendada pelo professor segue um método mais inovador do que as partituras com as quais ela era familiarizada, simplificando o reaprendizado.

Ela passeia devagar pelas escalas e pelas peças sugeridas, decifrando com segurança o código musical que para nós, os leigos, se assemelha a agrupamentos de pássaros pousados nas linhas de eletricidade, organizados em pauta pronta para ganhar os céus.

Os dedos dela não voam ainda pelo piano. Ainda não alcançou o ponto de tocar sinfonias que nos transportem para longe, que provoquem a elevação sagrada permitida pela música. Tropeça cá e lá, plena de boas intenções, e não se preocupa. Executa com calma o que a partitura pede em relação a crescendo, diminuendo, oitavas, investe no staccato, arrisca um forte, um piano, e segue adiante no aprendizado.

Brinco com ela: Se você não toca como quer, pelo menos lustra as teclas, exercita os dedos, move as articulações, espanta artrites e artroses. Confia na memória do tato, na lembrança sonora impressa nas digitais. Mais dia, menos dia, ela estará dominando as artes pianísticas, capaz de tocar – quem sabe – La Cumparsita, para trazer de volta, nas manhãs de domingo, a presença da nossa mãe.


Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.

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