
“No princípio, criou Deus os céus e a terra. E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo.” — (Gênesis 1:1–2)
No princípio, era Tasso.
E o Ceará era ainda uma terra sem forma definida, marcada por velhas estruturas, por pactos antigos e por uma política que já não respondia às exigências do seu tempo. Havia, sobre o poder, uma espécie de penumbra — não de ausência, mas de esgotamento.
Então Tasso veio e mudou, rupatura estrutural. E Tasso criou Ciro.
Não como quem simplesmente indica um nome, mas como quem forja uma geração, molda uma linguagem, inaugura um método. Ciro nasce dessa matriz: técnico, racional, gestor, herdeiro direto de uma concepção moderna de governo, baseada em planejamento, números, metas, eficiência.
Então Tasso criou Lúcio.
Criou-o como quem convoca o pensamento, chama o diálogo, ergue a palavra como instrumento de transformação. Lúcio surge como o intelectual da travessia, o formulador do projeto civilizatório, o homem da conciliação elevada, capaz de ligar tradição e modernidade, política e cultura, razão e sensibilidade.
Lúcio trouxe ao governo o verbo, o conceito, a ideia, o sentido público da ação. Onde havia apenas administração, ele introduziu reflexão. Onde havia técnica, ele acrescentou humanidade. Onde havia força, ele trouxe equilíbrio.
E Ciro criou Cid.
Cid surge como síntese e expansão. Herdou o rigor técnico, mas acrescentou carisma, proximidade, comunicação direta com as massas. Onde Ciro era cálculo, Cid foi presença. Onde Ciro era projeto, Cid foi execução política em larga escala. Cid não agradou Lúcio devido a ações atrasadas de clientelismo.
E Cid criou Camilo.
Camilo representa o desdobramento final dessa linhagem: o gestor sensível, o político de trato fino, o construtor silencioso de consensos. Se em Tasso havia ruptura, em Ciro havia racionalidade, em Cid havia energia, em Camilo há método, equilíbrio, permanência e conveniências.
E assim se estabeleceu uma genealogia do poder no Ceará, uma sucessão que não se deu apenas por eleições, mas por transmissão simbólica, técnica e política. Uma cadeia de criação, como no Gênesis: cada etapa preparando a seguinte, cada líder moldando o seu sucessor.
No princípio, era Tasso. E de Tasso veio Ciro e Lúcio. De Ciro, veio Cid. De Cid, veio Camilo.
E dessa linhagem nasceu um ciclo histórico que redefiniu o Ceará.
Mas como em toda criação, veio também o tempo da ruptura. E aqueles que haviam sido criados, formados e ungidos voltaram-se contra o criador. E trairam Tasso.
Não de súbito, nem em gesto único, mas num processo silencioso, gradual, quase imperceptível no início. A fidelidade foi sendo substituída pela autonomia, a gratidão pelo cálculo, o projeto coletivo pela ambição individual.
O filho político desejou tornar-se pai de si mesmo. O discípulo passou a negar o mestre. A obra começou a rejeitar sua origem.
E assim, aquele que havia fundado a nova ordem política do Ceará foi sendo lentamente empurrado para fora do centro do poder que ele próprio edificara.
A traição não foi apenas pessoal. Foi estrutural. Porque, ao romper com Tasso, rompeu-se também com o espírito fundador: o pacto de modernização, a ética do planejamento, o compromisso com a transformação profunda do Estado. O projeto sobreviveu — mas separado de sua fonte.
Tasso tornava-se, então, uma presença incômoda. Seu passado era grande demais para caber no presente dos que agora governavam. Sua autoridade moral constrangia. Sua história pesava. Sua voz precisava ser silenciada. E assim, o criador foi afastado da criação. Como no Gênesis às avessas, o homem passou a expulsar Deus do próprio paraíso.
E então, Tasso ficou só.
Não uma solidão física — porque ainda havia gente, compromissos, convites, homenagens. Mas uma solidão mais profunda e mais dura: a solidão política, aquela que nasce quando o poder já não obedece, quando os discípulos já não escutam, quando a obra passa a negar o seu autor.
Era uma solidão povoada de memórias.
Tasso caminhava entre prédios que ajudara a erguer, programas que idealizara, estruturas que organizara, e percebia que tudo permanecia — menos ele. O Estado seguia funcionando, os projetos continuavam, as políticas públicas avançavam, mas o espírito fundador havia sido deslocado para as margens.
A sua presença tornou-se constrangimento.
Sua história, grande demais, passou a ser um incômodo. Seu passado, luminoso, passou a projetar sombras sobre os novos donos do poder. Era preciso, portanto, que Tasso estivesse longe — não por ódio, mas por necessidade política.
A gratidão não sobrevive muito tempo quando começa a disputar espaço com a ambição.
E assim, Tasso entrou num exílio simbólico.
Não deixou o Ceará. Não abandonou a vida pública. Mas foi sendo empurrado para fora do centro nervoso das decisões, afastado do núcleo onde se definia o destino político do Estado que ele próprio reinventara.
A solidão de Tasso foi silenciosa.
Não houve discursos de ruptura. Não houve rompantes públicos. Houve apenas o afastamento progressivo, o esvaziamento dos telefonemas, o cessar dos convites, o sumiço das consultas.
O criador já não era consultado sobre sua criação. Restava-lhe a dignidade.
Tasso recolheu-se sem alarde, sustentado apenas por sua biografia e por uma consciência histórica rara: a de saber que certos ciclos, para se completarem, exigem também o sacrifício de seus fundadores.
Como Moisés, que conduz o povo à terra prometida, mas não entra nela. Como o patriarca bíblico, que gera as tribos, mas não governa seus reinos. Solidão sem amargura, com grandeza. Altiva, silenciosa, quase estoica — de quem compreendeu que, no teatro do poder, há momentos em que sair de cena é o último gesto de autoridade.
Enquanto Tasso se recolhia ao silêncio, o poder avançava sem ele. Era um paradoxo quase cruel: quanto mais sólida se tornava a obra, mais distante ficava o seu criador. O Estado que Tasso ajudara a refundar entrava numa fase de expansão política, estabilidade administrativa e continuidade institucional — mas já não carregava sua assinatura visível. Cid ascendia. Sua presença era vigorosa, direta, magnética. Governava com intensidade, ocupava os espaços, dominava a cena política com carisma, energia e capacidade de mobilização. Onde Tasso fora estratégia, Cid era movimento. Onde Tasso fora arquitetura, Cid era ocupação. Seu governo crescia, sua liderança se consolidava, sua influência se espalhava por todo o território político do Ceará.
A máquina girava com potência máxima. E nesse ambiente de plenitude, não havia mais espaço para o fundador. Não por rejeição explícita, mas porque o novo poder precisava afirmar sua própria centralidade. A história ensinava: nenhum herdeiro governa confortavelmente à sombra de um patriarca vivo.
Camilo, por sua vez, surgia como continuidade refinada. Criado por Cid e Ciro, filhos de Tasso. Menos espetáculo, mais método. Menos impacto, mais permanência. Sua ascensão não foi ruidosa — foi constante, progressiva, silenciosa. Camilo construiu poder como quem constrói pontes: devagar, com cálculo, paciência e precisão. Tornou-se o governador da estabilidade, do equilíbrio institucional, da administração minuciosa.
E enquanto Cid e Camilo ocupavam plenamente o centro da cena, Tasso se afastava para as bordas da história que ele próprio inaugurara. Não houve ruptura formal. Não houve declaração pública de separação. Houve apenas o gesto mais duro da política: o esquecimento estratégico. Tasso passou a ser tratado como passado.
Seu nome evocava fundação, mas já não orientava o presente. Sua história era celebrada, mas sua voz não era mais consultada. Tornou-se monumento em vida — e isso, para um político de ação, é uma forma sofisticada de exílio.
Era a solidão do fundador.
Uma solidão feita não de ausência de pessoas, mas de ausência de influência. Uma solidão em que os corredores do poder continuam cheios, mas já não se abrem quando ele se aproxima. Uma solidão em que os telefones já não tocam, e as decisões já não pedem sua bênção.
E assim se completava o ciclo:
Tasso criou a nova ordem.
A nova ordem prosperou.
E, ao prosperar, dispensou seu criador.
Essa contraposição — entre a grandeza solitária de Tasso e a plenitude política de Cid e Camilo — revela uma das leis mais duras do poder: a criação não tolera por muito tempo a presença de quem a criou.
O fundador precisa desaparecer para que o projeto possa se autonomizar.
E Tasso, com sua dignidade silenciosa, aceitou esse destino
Toda grande construção política carrega, em seu interior, a semente da ruptura. Não por desvio moral, mas por necessidade histórica. O poder, quando amadurece, exige autonomia. E a autonomia, quase sempre, cobra o preço da ingratidão.
A traição, nesse sentido, não nasce do ódio — nasce da ambição de existir por conta própria.
Os herdeiros de Tasso não desejavam destruí-lo. Desejavam emancipar-se dele. Queriam ser autores, não apenas continuadores. Queriam deixar de ser capítulos para se tornarem livros. E essa passagem, em política, raramente se faz sem violência simbólica.
Tasso é grande demais.
Sua biografia, sua obra, sua autoridade moral ocupavam um espaço que impedia o florescimento pleno das novas lideranças. Enquanto ele estivesse ali, ativo, lúcido, ninguém governaria sem medir seus próprios passos em relação aos dele.
Era preciso, portanto, afastá-lo. Não por ressentimento, mas por estratégia.
O poder não tolera a presença de seus fundadores. Eles lembram, o tempo todo, que aquilo que parece natural foi, um dia, criação. E o poder prefere se apresentar como destino, não como obra humana.
Há também um componente psicológico profundo. Todo discípulo, ao atingir a maturidade, precisa simbolicamente matar o pai. Não no sentido literal, claro, mas no sentido freudiano, arquetípico: libertar-se da tutela para afirmar sua própria identidade.
Na política, esse processo assume a forma da ruptura. O discípulo precisa negar o mestre. O herdeiro precisa diminuir o patriarca. O sucessor precisa deslocar o fundador. Não porque o odeie — mas porque precisa ocupar o centro da cena.
Assim, a traição não é um gesto isolado, nem uma decisão pontual. É um movimento histórico, quase inevitável, inscrito na lógica da sucessão política.
O projeto cresceu. E ao crescer, passou a exigir que sua origem fosse empurrada para trás, para que o presente pudesse brilhar sem sombras. Nesse processo, Tasso tornou-se uma espécie de pai incômodo: respeitado, homenageado, reverenciado — mas politicamente neutralizado.
Transformado em passado.
A estratégia foi sutil. Nada de ataques frontais. Nada de confrontos públicos. Nada de discursos de rompimento. Apenas o silêncio progressivo, o afastamento cuidadoso, a substituição discreta, o esquecimento administrado. Uma engenharia fina da exclusão. E assim, o fundador foi sendo deslocado para o lugar dos monumentos: todos olham, todos admiram, ninguém consulta.
A traição perfeita não é a que fere — é a que apaga. Mas há, nessa história, uma ironia profunda. Ao trair Tasso, seus herdeiros não o destruíram. Pelo contrário: o eternizaram. Porque o retiraram do desgaste cotidiano da política e o elevaram à condição rara de fundador incontestado. A traição, nesse sentido, foi também um ato involuntário de consagração.
Não é derrota. É coroação.







