“Escravos de Jó jogavam caxangá”. Caso a letra se refira ao Jó bíblico, aquele que perdeu, perdeu, e depois ganhou na queda de braço entre Deus e o Diabo na terra de Uz, o tal “jogo de caxangá” – como quer que se manifestasse, já que as regras são até hoje desconhecidas – só poderia ter acontecido antes de Jó ser desprovido da inteira totalidade dos seus bens, entre eles os animais, os familiares próximos e os trabalhadores.
O que, pela lógica, remete a um tempo no qual os escravos (ou escravizados) da imensa propriedade de Jó dispunham de tempo para o lazer, para bater palmas, para pôr, tirar, deixar ficar e, inclusive, para louvar guerreiros fazendo zigue-zigue-zá com outros guerreiros. Fatos antigos, que em nada interferem nos nossos cuidados presentes.
“Terezinha de Jesus deu uma queda e foi ao chão.” A frase está mal colocada. Terezinha teria dado uma queda ou levado uma queda? Ao que se sabe, a forma correta seria “levou uma queda”, por se tratar de um fato do qual ela foi vítima, tendo assim levado e não dado coisa alguma.
Mais preocupante é a suspeita colocação seguinte, de que o primeiro teria sido seu pai, o segundo seu irmão, e sóóóó depois o cavalheiro, pessoa alheia à família, a quem ela deu a mão (a desconfiança se deve à referência sutil, porém perceptível, ao motivo para o “tanto sangue derramado dentro do meu coração”). Merece trabalho investigativo mais aprofundado de causas e consequências.
“Nessa rua tem um bosque que se chama solidão”. Fato raro, essa suposta existência de um bosque em uma das nossas ruas. Mais ainda de um bosque com nome de batismo – Solidão –, no qual “mora um Anjo que roubou meu coração.” Dupla incoerência: se lá reside alguém, ainda que seja um suposto “Anjo”, entre árvores, pássaros e animais semisselvagens, pode-se deduzir que o dito bosque perde o direito de se chamar Solidão.
Entretanto, o declarado roubo do coração é evidência explícita de crime, grave acusação rebatida de pronto pelo acusado: “Se eu roubei teu coração, tu roubaste o meu também”. O Anjo não se contentou em inverter os papéis. Ao tratar seu acusador (ou acusadora) com a informalidade do “tu”, a forma ostensiva do tratamento mais familiar, passou a denotar um vínculo próximo entre ambos, capaz de ser utilizado caso se faça necessária uma defesa.
E o acusador inicial que se prepare: ao declarar que “se essa rua fosse minha eu mandava ladrilhar com pedrinhas de brilhantes para meu amor passar”, percebe-se a indisfarçável tentativa de mudar de assunto, ao mesmo tempo que se abre uma outra frente para acusação, qual seja, a prática de um ato político administrativo onde está exposto o crime de peculato, aquele em que uma ação de interesse público convive com um desejo declaradamente privado.
O menino gago que atirou o pau no gato-to é mais um a ser observado com atenção. Não está claro se a gagueira é uma condição neurológica e passageira da infância, ou se decorre do nervosismo dele pelo reconhecimento da grave agressão a um felino indefeso. Ele confessa ter “atirado o pau no gato-to”, porém “o gato não morreu-rreu-rreu”, o que pode ser uma atenuante a seu favor.
Ainda assim, é preocupante o descaso com que o menino descreve o atentado contra o gato, o que se observa no detalhamento da admiração (ou susto) de Dona Chica-ca pelo berro que o gato deu, um MIAUUUUU!!! que fala por si.
Quanto à briga do cravo com a rosa, embaixo da sacada, foram registrados danos físicos em ambos os protagonistas da confusão, sem que se conheça o motivo. Consta que chegaram às vias de fato, causando lesões corporais mútuas. O cravo saiu ferido e a rosa despedaçada, pétalas para todo lado.
Ao que parece havia um precedente, evidenciado na frase: “O anel que tu me deste era vidro e se quebrou”. A briga pode ter se dado pela oferta de um objeto falsificado, causando talvez o triste fim de uma florida amizade.
Há indícios de que tudo é possível quando a realidade impera.
Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.







