Combate ao mercado clandestino de apostas é fundamental para o Desenrola 2.0; Por André Gelfi

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André Gelfi é diretor, conselheiro e um dos fundadores do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR). Foto: Edu Viana

O Brasil atravessa mais um momento decisivo na gestão do endividamento das famílias. Com o lançamento do Desenrola 2.0, o Governo Federal tenta renovar o fôlego de milhões de brasileiros que buscam reabilitar seu poder de consumo e dignidade financeira. É legítima e necessária a preocupação da sociedade com o endividamento das famílias e com padrões de consumo problemáticos. Contudo, para que essa política pública não seja apenas um paliativo, mas uma solução estrutural, é fundamental separar o mercado regulamentado das estruturas clandestinas que operam à margem da lei e sem qualquer compromisso com a proteção do consumidor.

É um equívoco comum, muitas vezes alimentado por narrativas apressadas e politizadas, apontar o setor regulamentado de apostas como o principal vilão do orçamento doméstico. Os dados da LCA Consultoria mostram uma realidade distinta: em 2025, as apostas em plataformas licenciadas representaram apenas 0,46% do consumo das famílias. O verdadeiro entrave à saúde financeira do brasileiro continua sendo o alto custo do crédito e os juros bancários. Ao mesmo tempo, cresce silenciosamente um problema que merece atenção prioritária do poder público: o avanço das bets clandestinas.

Diferentemente do mercado ilegal, operadores autorizados estão submetidos a regras rigorosas de identificação de usuários, rastreabilidade financeira, prevenção à lavagem de dinheiro, monitoramento de comportamento de risco e mecanismos de Jogo Responsável. Trata-se de um ambiente supervisionado, auditável e integrado às obrigações regulatórias impostas pelo Estado brasileiro.

O crescimento das plataformas ilegais, sem fiscalização e sem qualquer compromisso com a proteção do usuário, é acompanhado com preocupação pelas operadoras sérias e pelas autoridades públicas. Estima-se que esse mercado paralelo já movimente cerca de R$ 40 bilhões por ano. Quando não existe uma ofensiva proporcional contra a clandestinidade, cria-se um ambiente propício para a migração do consumidor vulnerável para operadores sem licença, frequentemente associados a estruturas internacionais opacas e até ao crime organizado.

A migração para a clandestinidade não representa apenas uma perda de proteção ao indivíduo, mas também uma ferida aberta na economia formal e nos cofres públicos. Projeções indicam que o deslocamento do consumo para o mercado ilegal pode causar perdas de até R$ 10,8 bilhões em arrecadação. Recursos que deixam de financiar saúde, educação, segurança pública e programas sociais.

A proximidade de grandes eventos, como a Copa do Mundo de 2026, torna o tema ainda mais sensível. O aumento natural do interesse pelas apostas esportivas cria uma oportunidade relevante para que plataformas ilegais ampliem sua atuação, justamente por operarem sem mecanismos mínimos de controle, sem integração com políticas públicas de proteção financeira e sem qualquer responsabilidade institucional perante o consumidor brasileiro.

Para que o Brasil consolide um ambiente saudável e sustentável, a estratégia precisa combinar educação financeira transversal, fortalecimento do mercado regulado e uma ofensiva coordenada entre Ministério da Fazenda, Banco Central, Polícia Federal e demais órgãos competentes para asfixiar financeiramente operadores sem licença.

O êxito do Desenrola 2.0, no contexto das apostas, depende de uma visão pragmática e equilibrada. O desafio não está apenas em criar mecanismos de renegociação de dívidas, mas também em impedir que estruturas clandestinas drenem recursos da economia formal sem qualquer supervisão do Estado.

O futuro exige um pacto de transparência e responsabilidade. Precisamos garantir que o brasileiro que escolha apostar o faça em um ambiente em que as regras sejam claras, com tributos recolhidos e que coloque a proteção ao consumidor como prioridade absoluta. Quando o Estado perde capacidade de controlar quem opera, quem arrecada e quem protege o consumidor, perde também a capacidade de proteger as famílias brasileiras.

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