Ultimamente, reparei que tenho tomado conhecimento de um número maior de cerimônias de sepultamento do que de festas de batizado. Com preocupante frequência recebo pelas redes sociais o convite enterro de alguém sobre quem ouvi falar, alguém que conheço de vista, ou que conheci pessoalmente em priscas eras.
As mensagens digitalizadas vieram substituir os antigos santinhos, dobrados ao meio, impressos em preto e branco, entregues nas cerimônias religiosas de despedida, permitindo uma vantagem extra: o comunicado digital, preservado na leveza de um sopro de ar, põe fim ao dilema quanto ao destino digno a ser dado aos ditos santinhos, removendo o peso na consciência dos que os recebiam.
Mas não é sobre a morte que quero tratar. O que me inquieta é como tem sido muito, mas muito raro, receber comunicados de nascimento.
Por onde andam esses avisos? Por que não entram no meu celular imagens mostrando o sorriso esplendoroso dos pais com o bebê ao colo? Por que não é exibido na tela o orgulho ostensivo dos avós, enfim recompensados pelo investimento feito durante décadas? Por que as mensagens que chegam não explicitam a satisfação dos parentes, celebrando a chegada de mais um ser que dará continuidade ao sobrenome familiar?
O que foi feito das festas de batizado, com padrinhos e madrinhas escolhidos pelo afeto, a família reunida nas igrejas para testemunhar o choro dos bebês ao provarem o sal, ao serem ungidos pelos santos óleos, ao ouvirem pela primeira vez, com seus ouvidos virgens, o prenome que carregarão ao longo de uma vida inteira?
Andei consultando algumas pessoas, em pesquisas informais, sem definição percentual para margens de erro, e a amostragem proporcionou alguns resultados curiosos. O primeiro deles, claro, é a redução voluntária do número de rebentos. Não mais as famílias com sete, oito, ou dez filhos, mostrando-se os números acima de três como sinal de notável coragem.
E mais: assim como os 60 e os 70 anos podem ser configurados como “os novos 50”, a pesquisa apontou que os bebês também se encontram em processo de mudança. Estão chegando às residências recobertos de pelos, em cores e tamanhos bem diversos, trazendo orelhas pontudas ou caídas, exibindo focinhos achatados ou de longo alcance, e manifestando-se através de latidos enquanto saltitam pelos espaços domésticos sobre suas quatro patas.
Os bebês que estão substituindo os bebês humanos recebem o nome genérico de “Pets” e chegam determinados a conquistar o Universo.
Basta observar a quantidade de lojas que despontam dedicadas a animais domésticos, com destaque especial para cães e gatos: felinos e caninos encontram-se sem dúvida no comando da tropa invasora. Vitrines amplas e iluminadas exibem aos passantes o necessário para a vida deles, superando-se em oferecer o que é claramente desnecessário.
Os animais que entraram aos pares na Arca de Noé, antes do desabar diluviano, não usavam roupinhas esportivas, nem saiotes rodados, muito menos vestuário temático. Nenhum deles, ao que se saiba, embarcou com laçarotes sobre a testa ou no pescoço, nem engravatado como um ocupado executivo, muito menos ostentando fraldas e chapéus, como já cheguei a ver.
São tratados como se filhos fossem, convocados a dormir na cama de seus “tutores” (a palavra “dono” foi banida do vocabulário), saboreiam alimentos exclusivos, usufruem do mesmo direito nosso de submissão a exames de Raio-X, a ultrassons, ao consumo de vitaminas e minerais, a exercícios físicos em esteiras, ao uso de antidepressivos.
Não me levem a mal os amantes dos cães e gatos. Possuo (se posso usar o verbo sem riscos), há mais de duas décadas, um exemplar de cada. Duas criaturas imortalizadas em meu altar de preocupações, que me permitiram conhecer seus defeitos perdoáveis e suas amorosas qualidades. E se ainda não chegou a mim nenhuma mensagem digital comunicando o ingresso de um pet na formação de uma família, suspeito que, muito em breve, vamos começar a receber comunicados da passagem para outro plano desses novos “bebês”.
Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.







