
Por Sérgio Jaborandy
Quem teve o privilégio de conhecer Mattos Dourado sabe de quem estou falando. Eu e meus sete irmãos tivemos uma condição ainda mais especial: tivemos nele não apenas um pai, mas também um amigo — leal e verdadeiro.
Francisco Maurício de Mattos Dourado nasceu em Fortaleza, em 13 de maio de 1926. Ao longo de sua vida, construiu uma trajetória que atravessou diferentes campos de atuação, mas que teve na educação, na comunicação e na cultura seus capítulos mais expressivos.
Em 1946, ingressou na Aeronáutica. Foi ali que começou a revelar uma característica que o acompanharia por toda a existência: a capacidade de reunir pessoas, estimular talentos e transformar ideias em iniciativas. A carreira militar, entretanto, seria apenas uma das etapas de uma trajetória muito mais ampla.
Sua personalidade comunicativa logo encontraria outros palcos.
Em 1965, Mattos Dourado chegou ao teatro. Participou de “A Valsa Proibida”, montagem que se transformaria em um verdadeiro fenômeno de público no Ceará. No papel do irreverente General Cynão, brilhou diante das plateias e revelou uma faceta até então menos conhecida de sua personalidade.
A peça permaneceu durante meses em cartaz, batendo sucessivos recordes de bilheteria e atraindo cerca de 50 mil espectadores — número extraordinário para a época. O sucesso transformou A Valsa Proibida em uma das produções mais marcantes da história do teatro cearense.
Mattos Dourado não demoraria a voltar aos palcos.
Em 1967, participou de “O Casamento da Peraldiana”, dirigida por B. de Paiva, ao lado de um elenco que reunia alguns dos grandes nomes da comédia cearense. Dessa vez, interpretou o Coronel Puxavante, em outra atuação que ficou marcada na memória de quem acompanhou a cena teatral daquele período.
O teatro, porém, era apenas uma das expressões de um talento que parecia não caber em uma única atividade.
Homem de curiosidade intelectual permanente, formou-se em Ciências Contábeis. Mas o conhecimento, para ele, nunca parecia suficiente. Movido por uma vocação que se revelaria cada vez mais forte, cursou também Pedagogia na Universidade Estadual do Ceará.
A educação acabaria ocupando um lugar central em sua vida.
Foi diretor do Colégio Jenny Gomes, lecionou no Instituto de Educação do Ceará e permaneceu ligado ao magistério da Universidade Estadual do Ceará (UECE) até os últimos anos de sua vida.
Mas seria no rádio que sua voz começaria a se tornar conhecida por milhares de cearenses.
Na década de 1950, a Rádio Iracema tornou-se seu grande palco. Seus programas de auditório eram conduzidos com simpatia, espontaneidade e um marcante caráter educativo. Sua voz alcançava não apenas Fortaleza, mas ouvintes de todo o Ceará e de estados vizinhos.
Entre os programas que permaneceram na memória de várias gerações estavam “O Carrossel da Alegria” e “O Clube do Bom Companheiro”.
Também participou de radionovelas, demonstrando a versatilidade de quem parecia transitar naturalmente por diferentes formas de comunicação. Mais tarde, transferiu-se para a Rádio Assunção, levando consigo a experiência e o estilo que haviam marcado sua passagem pela Rádio Iracema.
O rádio lhe dera popularidade. A televisão ampliaria ainda mais seu público.
Quando a televisão chegou ao Ceará, encontrou um novo território para exercer sua vocação de comunicador.
Na TV Ceará, Canal 2, levou para a tela a experiência acumulada no rádio e no teatro. Seu trabalho foi reconhecido com diversas Jangadas de Prata, troféus que alcançavam grande prestígio junto ao público cearense.
Com a inauguração da TV Verdes Mares, Canal 10, recebeu novo convite. Foi ali que lançou “O Clube de Heróis”, programa infantil ao vivo que reunia crianças, famílias e seus personagens admirados.
O programa tinha muito dele: comunicação, educação, entretenimento e, sobretudo, a capacidade de aproximar gerações.
A televisão apenas ampliava uma vocação que ele já exercia como professor.
A ligação de Mattos Dourado com o universo infantil não se restringia à televisão.
Casado com Dona Jaborandy, mais conhecida como Dona Didy, professora reconhecida nos meios educacionais cearenses, e pai de oito filhos, tinha verdadeira predileção pelas crianças.
Durante anos, dedicou a elas uma página semanal nos jornais Unitário, Tribuna do Ceará e O Povo.
Era uma característica coerente com sua maneira de enxergar a comunicação. Mattos Dourado parecia acreditar que falar com as crianças era também uma maneira de ajudar a construir o futuro.
Teatro, rádio, televisão, jornal e escola eram, para ele, instrumentos diferentes de uma mesma vocação: comunicar, ensinar e aproximar pessoas.
A cultura ocupando a cidade
Na década de 1970, sua trajetória tomaria novo rumo.
Em 1971, durante o governo de César Cals e a administração municipal de Vicente Fialho, recebeu o desafio de estruturar, em Fortaleza, um novo modelo de aproximação entre o poder público e as comunidades.
Nascia o Centro Comunitário Governador César Cals, primeiro Centro Comunitário de Fortaleza, iniciativa que posteriormente se relacionaria à experiência dos Centros Sociais Urbanos.
Mattos Dourado aceitou o desafio.
A experiência seria o ponto de partida para uma das fases mais marcantes de sua vida pública.
Durante a administração do prefeito Evandro Aires de Moura, assumiu a direção do Departamento de Cultura e Turismo do Município, onde permaneceria por 12 anos consecutivos.
Foi nesse período que sua presença se tornou particularmente visível na vida cultural de Fortaleza.
Mattos Dourado acreditava que a cultura não deveria permanecer confinada aos teatros ou aos espaços frequentados por poucos. Era preciso levá-la às ruas, às praças e aos bairros.
Foi assim que surgiram ou ganharam impulso iniciativas como as Feirinhas dos Bairros, realizadas em locais como a Praça Portugal, a Praça da 13 de Maio e a pracinha em frente ao jornal O Povo. Vieram também as Ruas de Recreio, os Festivais de Quadrilhas e iniciativas destinadas à valorização das flores e das tradições cearenses, como o Festival das Flores de Guaramiranga.
Ainda no governo César Cals, idealizou a Feira dos Municípios, iniciativa que aproximava Fortaleza das demais cidades do Ceará e valorizava a diversidade cultural do Estado. O evento permaneceria por muitos anos na agenda cultural da cidade.
Era a cultura saindo dos espaços fechados e ocupando a cidade.
Sua atuação alcançou também o Carnaval de rua de Fortaleza.
Ele prestou grande apoio à realização e à ornamentação dos tradicionais Carnavais da Saudade e da Feira das Nações, eventos que tinham no Náutico Atlético Cearense um de seus espaços de realização.
Para muitos que acompanharam aquele período, as mudanças promovidas na organização das festividades foram tão significativas que o Carnaval de Fortaleza passou a ser lembrado como um período anterior e outro posterior à chegada de Mattos Dourado ao Departamento de Cultura e Turismo.
Sua atuação não se limitou às festas tradicionais.
Teve papel preponderante na realização do Projeto Pixinguinha e das Gincanas Verdes Mares, atividades que marcaram época e movimentavam a juventude de Fortaleza.
Sua voz também se tornou conhecida nos grandes acontecimentos cívicos da cidade. Durante anos, foi o locutor oficial dos desfiles de 7 de Setembro, realizados em importantes avenidas de Fortaleza, entre elas a Duque de Caxias, a Desembargador Moreira e a Beira-Mar.
A cidade, mais uma vez, era seu palco.
O mar, os jangadeiros e o Dragão do Mar
Entre as iniciativas que tiveram sua participação esteve ainda a Regata de Jangadas Dragão do Mar, realizada em Fortaleza a partir de 1971.
O evento nasceu para celebrar o trabalho e a resistência dos jangadeiros, homenageando a memória de Francisco José do Nascimento, o Chico da Matilde, personagem que entraria para a história com o nome de Dragão do Mar.
Mattos Dourado teve participação efetiva na organização da regata, inclusive na articulação junto à Marinha do Brasil.
A iniciativa atravessaria aproximadamente três décadas. Durante esse período, a regata se incorporou ao calendário de manifestações ligadas à memória marítima do Ceará e à figura dos jangadeiros.
Era um verdadeiro cartão-postal ver aquelas jangadas alinhadas diante da orla de Fortaleza, com suas velas coloridas abertas ao vento. Era uma cena que ficaria gravada na memória de quem teve a oportunidade de presenciá-la.
Em 2001, depois de cerca de 30 anos de realização, o evento seria interrompido por falta de apoio e liderança.
A regata desapareceria do calendário. A lembrança, porém, permaneceria.
Um legado que permanece
Foram 26 anos dedicados ao serviço público e à comunidade de Fortaleza.
Mas reduzir Mattos Dourado aos cargos que ocupou seria diminuir a dimensão de sua trajetória.
Havia algo que atravessava todas as suas atividades: a crença de que educação, comunicação e cultura poderiam aproximar as pessoas e fortalecer a comunidade.
Ele não enxergava a cultura como algo distante, reservado aos grandes palcos. Para ele, ela também estava nas escolas, nas praças, nas festas populares, nas feiras, nas crianças, nos desfiles e nas tradições que ajudavam a construir a identidade de Fortaleza.
Talvez por isso tenha conseguido transitar com tanta naturalidade entre mundos tão diferentes. E, em todos esses lugares, parecia fazer a mesma coisa: juntar pessoas.
Em 29 de dezembro de 1989, aos 63 anos, seu enorme coração parou de bater.
Para aqueles que trabalharam ao seu lado, ficou a lembrança do homem público que transformava ideias em iniciativas.
Para nós, seus oito filhos, ficou algo que nenhuma biografia é capaz de traduzir inteiramente: a enorme saudade do pai e do amigo.
Para Fortaleza, ficou um legado feito menos de monumentos e mais de experiências: crianças que tiveram acesso à cultura, comunidades que ganharam espaços de convivência, artistas que encontraram oportunidades, festas que foram revitalizadas e tradições que receberam novo impulso.
Décadas depois, permanece uma pergunta: quantos cearenses ainda conhecem a história de Mattos Dourado?
Talvez seja justamente por isso que seu nome mereça ser lembrado.
Porque existem pessoas cuja presença termina quando a vida chega ao fim. E existem aquelas que continuam vivendo nas obras que deixaram, nas iniciativas que criaram e, sobretudo, nas pessoas que ajudaram a formar.
Mattos Dourado pertence a essa segunda categoria.
E, para quem teve o privilégio de conviver com ele, resta uma imagem que talvez traduza melhor do que qualquer outra o tamanho de sua presença:
depois que ele chegou lá em cima, seguramente o céu nunca mais foi o mesmo.








