
Sou tão útil quanto invisível; tão decisivo quanto esquecido. Falto em beleza e estética. Ninguém desacelera o passo para me contemplar. Escuto o fluxo dos passantes, que só falam de dinheiro, mas ninguém pronuncia meu nome. Fico quieto, calado, à espera do refluxo. A boêmia da Praia de Iracema abraça a todos, mas a mim não sobra nada. Dizem que sou vinculado a um tal de “Interceptor Oceânico”. Nome pomposo, que nunca limpou meu cheiro. Recolho os rejeitos da cidade às custas do meu próprio silêncio.
Um dia, sem qualquer aviso, ergueram dois prédios gigantescos sobre as minhas costas. Negócio bom para todos: dinheiro, fama, vaidade. A ambição urbana foi atendida; para mim, sobrou apenas o excesso de peso. Nem checaram se minha estrutura suportaria a carga.
Mais tarde, do lado direito, um espigão de pedras me sufocou, tirando-me o ar. Do lado esquerdo, sobre o antigo paredão rochoso, ergue-se outra colossal obra de engenharia. Rasgaram a rocha viva para cimentar aço e concreto em proporções nunca vistas.
Aço afiado, grades vistosas, nada de verde, nada de vida. O concreto se impõe. Restaurantes afiam as garras para exibir cardápios inacessíveis. Teremos píer! A comadrio vai aumentar, o fuxico vai correr solto, mas ninguém lembrará de quem carrega a sujeira por baixo.
Meu trabalho multiplica; minha relevância, jamais.
Sou o Geni do litoral, o esgoto do espigão do Boteco na Beira-Mar, aguardando um colapso ou uma invasão que me transforme no improvável salvador de Fortaleza.
Na canção de Chico, a redenção da Geni veio com o Zeppelin e seu comandante.
Vejamos o que o destino reserva para mim.
Aguardemos.








