Composto orgânico produzido pela Marquise Ambiental, em Caucaia, já atende agricultores da Serra da Ibiapaba e de Paraipaba. Produto tem registro no Ministério da Agricultura e surge como alternativa complementar para melhorar o solo e diversificar os insumos disponíveis no Estado

O que aconteceu: o Ceará passou a contar com um composto orgânico produzido localmente para uso agrícola. Fabricado no EcoHub Fortaleza, da Marquise Ambiental, em Caucaia, o insumo tem registro no Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) e já é comercializado para produtores rurais da Serra da Ibiapaba e de Paraipaba, no Litoral Oeste.
Por que importa: a iniciativa conecta duas atividades estratégicas para o desenvolvimento cearense — a gestão de resíduos e a produção agrícola. Em vez de destinar toda a matéria orgânica tratada ao descarte, parte desse material pode retornar à cadeia produtiva como insumo para o campo.
1. Oportunidade para o agro cearense
A produção local ganha relevância em um Estado que possui polos agrícolas importantes e depende da aquisição de fertilizantes e adubos para atender às necessidades do setor.
A Serra da Ibiapaba, um dos principais polos produtores de hortaliças do Nordeste, abastece mercados do Ceará, incluindo a Região Metropolitana de Fortaleza. Segundo os dados citados pela Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará (Faec), a região concentra cerca de 30% da produção agrícola estadual.
É nesse mercado que o composto da Marquise Ambiental já encontra aplicação. A empresa informa que atende pequenos e médios produtores da Ibiapaba e comercializa o produto também para uso em Paraipaba.
O potencial está na possibilidade de oferecer aos agricultores uma fonte adicional de matéria orgânica, com produção no próprio território cearense. A expansão, porém, dependerá da capacidade de fornecimento, da adequação do produto às diferentes culturas, dos custos logísticos e dos resultados obtidos nas propriedades rurais.
2. Fertilizante importado continua no centro da equação
O novo composto não substitui a adubação mineral nem pretende atender sozinho à demanda estadual por fertilizantes. Seu papel é complementar: contribuir para a melhoria das condições do solo e ampliar as alternativas disponíveis aos produtores.
O contexto econômico ajuda a explicar a oportunidade. Em 2025, o Ceará importou US$ 55,6 milhões em adubos e fertilizantes, alta de 43,7% em relação ao ano anterior, segundo dados divulgados pela Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec).
Esse número demonstra a dimensão das compras externas do setor, mas não deve ser interpretado isoladamente como medida da dependência total do agro cearense. Para dimensionar o mercado potencial do composto, seria necessário conhecer o consumo estadual de fertilizantes, a participação dos diferentes tipos de insumos e o custo por unidade de nutriente fornecido.
A vantagem econômica do produto também não pode ser presumida apenas por sua origem local. Ela dependerá do preço, do frete, da composição agronômica e da resposta obtida em cada cultura.
3. Como o composto é produzido
O insumo é fabricado no EcoHub Fortaleza, estrutura instalada em Caucaia que reúne atividades de tratamento, recuperação, transformação e valorização de resíduos.
Segundo a Marquise Ambiental, o processo utiliza resíduos orgânicos selecionados e envolve controle de temperatura, umidade e aeração, além de revolvimentos mecânicos e análises agronômicas. Após a estabilização, o material é destinado ao uso agrícola.
O registro no MAPA é um elemento importante para sua comercialização como insumo agrícola. Para avaliar integralmente o produto, entretanto, é necessário consultar a documentação técnica correspondente, incluindo composição, garantias agronômicas e recomendações de aplicação.
Na prática, compostos orgânicos podem contribuir para aumentar o teor de matéria orgânica do solo, melhorar sua estrutura, favorecer a aeração e ampliar a capacidade de retenção de água. Os resultados variam conforme as características do material, o solo, o clima, a cultura e o manejo adotado.
O ponto técnico: o composto deve ser entendido como parte de um programa de manejo do solo, com aplicação orientada pelas necessidades da lavoura e, sempre que possível, por análises de solo e do próprio produto.
4. Economia circular que sai do discurso
O projeto materializa uma lógica conhecida como economia circular: recuperar materiais que ainda possuem utilidade e devolvê-los à atividade econômica.
No modelo da Marquise Ambiental, a compostagem é uma das rotas de valorização dos resíduos orgânicos. O material tratado retorna ao campo como insumo, conectando a operação ambiental às necessidades da agricultura.
O EcoHub Fortaleza mantém ainda um viveiro de mudas nativas no qual o próprio composto é utilizado no desenvolvimento de plantas destinadas a ações de plantio e recuperação ambiental.
A integração dessas atividades amplia as possibilidades de aproveitamento da matéria orgânica e mostra como uma operação de gestão de resíduos pode gerar produtos destinados a diferentes usos.
A efetividade ambiental do modelo, contudo, depende também da qualidade dos resíduos de origem, do controle do processo, da segurança do composto e dos resultados obtidos ao longo do ciclo produtivo.
5. O que dizem os executivos
Durante reunião semanal do Encontro do Agro Cearense, promovido pelo Grupo do Agronegócio do Estado do Ceará (GAEC), em setembro, o diretor-presidente da Marquise Ambiental, Hugo Nery, apresentou o composto como exemplo da circularidade praticada na unidade.
“Quando transformamos matéria orgânica em um insumo que volta para o campo, fechamos uma parte importante desse ciclo”, afirmou. Para o executivo, a iniciativa representa uma mudança na maneira de tratar os resíduos, reconhecendo seu potencial de transformação em recursos para a atividade produtiva.
O diretor operacional da empresa, Paulo Studart, destacou o controle das etapas de produção e a possibilidade de ampliar o atendimento aos agricultores cearenses.
A companhia afirma que a produção atual permite atender pequenos e médios produtores e que há capacidade para expandir a comercialização no mercado interno estadual. Para dimensionar essa oportunidade, ainda são necessários dados sobre volume produzido, capacidade instalada, vendas, preços e metas de expansão.
6. A dimensão empresarial
A iniciativa integra a estratégia da Marquise Ambiental, empresa do Grupo Marquise que atua em diferentes etapas da cadeia de resíduos, da coleta e logística ao tratamento, à recuperação e à valorização de materiais, incluindo a produção de energia renovável.
A companhia informa atender aproximadamente 22 milhões de pessoas e ter mais de quatro décadas de atuação. O Grupo Marquise, por sua vez, completa 52 anos e mantém negócios em infraestrutura, serviços ambientais, incorporações imobiliárias e hotelaria.
O composto agrícola acrescenta uma frente de aproveitamento de resíduos à operação ambiental da empresa. O desafio é transformar a iniciativa em uma cadeia comercial consistente, capaz de conciliar qualidade, escala, competitividade e benefícios ambientais mensuráveis.
Por que isso importa para o Ceará
- Para o agro: amplia a oferta de insumos orgânicos produzidos no Estado e cria uma alternativa complementar para o manejo do solo.
- Para a indústria ambiental: demonstra uma possibilidade de transformar parte dos resíduos em produtos comercializáveis.
- Para a economia circular: aproxima a gestão de resíduos da produção agrícola, reduzindo a lógica de descarte como destino único.
- Para a competitividade: abre espaço para avaliar custos, logística e desempenho agronômico de um insumo produzido localmente.
Vá mais fundo
A principal questão agora é saber até onde essa experiência pode chegar. O Ceará reúne produção agrícola relevante, demanda por fertilizantes e operações de tratamento de resíduos que podem gerar materiais aproveitáveis. A convergência desses fatores cria uma oportunidade, mas não garante, por si só, competitividade econômica ou ganhos agronômicos em todas as culturas.
Para medir o alcance do projeto, quatro indicadores merecem acompanhamento: volume anual de composto produzido e vendido; preço por tonelada entregue ao agricultor; resultados de testes agronômicos em culturas da Ibiapaba; e quantidade de matéria orgânica efetivamente recuperada e reinserida na cadeia produtiva.
A notícia vai além do lançamento de um produto: trata da possibilidade de aproximar a política de gestão de resíduos das necessidades do agro cearense. Se houver qualidade comprovada, escala e competitividade, a compostagem poderá deixar de ser apenas uma etapa do tratamento ambiental para se consolidar também como atividade econômica conectada à produção rural.






