Obtuario: Sônia Pinheiro, a Soninha, marcou época na era de ouro do colunismo social cearense

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Ao lado de Lúcio Brasileiro, José Rangel, Regina Marshall, Marcondes Viana, Cláudio Cabral, Lázaro Medeiros e outros nomes de sua geração, jornalista ajudou a construir uma das tradições mais peculiares da imprensa do Ceará. Com um estilo próprio, levou a política e a economia para o centro da coluna social e, muitas vezes, antecipou informações relevantes

Foto: Reprodução

A imprensa cearense se despede de Sônia Pinheiro, a Soninha, personagem de uma época em que o colunismo social ocupava espaços generosos nos jornais e exercia influência muito além dos salões. Sua trajetória atravessou décadas, acompanhando as transformações de Fortaleza e as relações entre os mundos social, empresarial, político e cultural.

Sônia morreu na noite de quinta-feira, 15 de outubro de 2026. O velório está marcado para esta sexta-feira, dia 16, no Jardim Metropolitano, em Fortaleza, com missa às 10h e sepultamento às 10h30.

Sua partida encerra uma trajetória ligada a um período especialmente marcante do jornalismo cearense. Ao lado de Lúcio Brasileiro, José Rangel, Regina Marshall, Marcondes Viana, Cláudio Cabral e Lázaro Medeiros, entre outros profissionais, Sônia integrou uma geração que transformou o colunismo social em um dos espaços mais reconhecidos da imprensa local.

O Ceará desenvolveu uma relação particularmente forte com esse gênero jornalístico. Durante décadas, os jornais reservaram amplo espaço às colunas sociais, que funcionavam como vitrines da sociedade e pontos de encontro entre informação, comportamento, prestígio e poder. Os colunistas eram observadores privilegiados de uma realidade em que as relações pessoais frequentemente se cruzavam com os negócios e a política.

Mas não havia um único modelo de colunismo. Cada profissional imprimia sua personalidade à página, selecionava seus personagens e estabelecia uma maneira própria de interpretar a sociedade. Foi nesse ambiente de forte presença jornalística e concorrência por informação que Sônia Pinheiro construiu sua identidade.

Uma coluna social com faro político

A principal marca de Sônia foi ampliar o território da coluna social. Especialmente em O POVO, ela deu peso crescente aos acontecimentos políticos e econômicos, aproximando o noticiário sobre a sociedade dos movimentos que influenciavam os destinos do Ceará.

Em suas mãos, a coluna não se limitava a registrar festas, recepções, viagens, homenagens ou encontros de personalidades. Também abria espaço para articulações políticas, decisões empresariais e informações de bastidores. Muitas vezes, publicava furos — notícias antecipadas em relação a outros veículos —, demonstrando que a proximidade com personagens e ambientes estratégicos podia ser convertida em informação jornalística.

Essa característica merece atenção porque ajuda a compreender a especificidade de sua contribuição. O colunismo social tradicional sempre dependeu de acesso, circulação e relacionamento. Sônia soube explorar esse capital de contatos também para obter informações de interesse público.

A fronteira entre a coluna social e o noticiário político e econômico tornava-se, assim, mais permeável. Uma conversa, um encontro ou uma movimentação aparentemente restrita a determinado círculo podia conter sinais de mudanças mais amplas. O desafio estava em identificar o que merecia ser publicado e reconhecer, antes dos demais, a relevância de uma informação.

Foi nesse terreno que Sônia desenvolveu uma característica própria. Seu trabalho ajuda a mostrar que o colunismo social cearense não pode ser compreendido apenas como registro de festas e de personagens de destaque. Em determinados momentos, foi também um espaço de circulação de informações políticas, econômicas e empresariais.

O Ceará visto pelas colunas

O peso que a imprensa local concedeu ao colunismo social não era um detalhe editorial. Refletia a própria organização da vida pública cearense, na qual relações familiares, atividade empresarial, política, cultura e prestígio social frequentemente se encontravam.

As colunas registravam a chegada de novos protagonistas, a permanência de famílias tradicionais, a movimentação dos empresários e os acontecimentos que definiam o calendário social de Fortaleza. Ao mesmo tempo, guardavam informações sobre costumes, lugares e formas de convivência que mudaram profundamente ao longo das décadas.

Lúcio Brasileiro, José Rangel, Regina Marshall, Marcondes Viana, Cláudio Cabral, Lázaro Medeiros e Sônia Pinheiro, cada um com sua personalidade e seu estilo, fazem parte da memória dessa tradição. Suas trajetórias ajudam a compreender por que o colunismo conquistou tanto espaço nos jornais cearenses e como esse gênero se tornou uma linguagem própria da imprensa local.

A história desse grupo também é a história de um jornalismo em que a presença física, a conversa e o relacionamento pessoal tinham enorme importância para a obtenção de informações. Antes da comunicação instantânea e das redes sociais, o acesso aos protagonistas e a capacidade de reconhecer os movimentos dos bastidores podiam representar uma vantagem decisiva.

Do jornal impresso às redes sociais

A carreira de Sônia atravessou diferentes fases da imprensa. Sua atuação no Diário do Nordeste está documentada desde o início dos anos 1990. Mais tarde, esteve ligada ao O POVO, onde assinou coluna social e participou da revista O POVO People Luxo, publicação voltada a temas como estilo de vida, arte, viagens e consumo.

Com a transformação dos meios de comunicação, manteve presença por meio de perfis próprios nas redes sociais, preservando seu canal direto com os leitores.

Essa trajetória acompanhou uma mudança profunda no ambiente jornalístico. A internet multiplicou os meios de divulgação de informações, reduziu o intervalo entre o acontecimento e sua publicação e alterou a relação entre jornalistas, fontes e público. O espaço privilegiado que os jornais impressos concediam às colunas sociais deixou de existir na mesma dimensão.

Ainda assim, a experiência acumulada por profissionais como Sônia permanece relevante para entender a história da imprensa cearense. O conhecimento dos personagens, a leitura dos ambientes e a capacidade de perceber o significado de uma movimentação continuaram sendo elementos importantes do ofício, mesmo quando os suportes e os hábitos dos leitores mudaram.

Uma página na memória do Ceará

A morte de Sônia Pinheiro é a despedida de uma jornalista que participou de uma tradição muito particular da imprensa do Estado. Sua trajetória está associada a uma geração que fez das colunas sociais um espaço de visibilidade, registro de costumes e acompanhamento da vida pública.

No caso de Sônia, há um traço adicional: a disposição de levar para esse espaço informações políticas e econômicas, muitas vezes com antecipações que davam à coluna uma função propriamente noticiosa.

O legado de uma colunista não se mede apenas pelo número de eventos registrados ou pela quantidade de personalidades citadas. Está também na memória que deixa de uma época, nos acontecimentos que documenta e na capacidade de revelar como uma sociedade se organizava e se transformava.

Sônia Pinheiro marcou época porque fez parte de uma geração que deu identidade ao colunismo social cearense e porque imprimiu à própria coluna uma vocação informativa que ultrapassava o circuito social.

Sua partida deixa saudade entre leitores, amigos e pessoas que acompanharam sua trajetória. Deixa também um acervo de registros que merece ser revisitado para que a história do colunismo social no Ceará seja contada em toda a sua dimensão — como crônica de costumes, espaço de relações e, em determinados momentos, fonte de informação política e econômica.

A história de Sônia é, nesse sentido, parte da história de Fortaleza e de uma imprensa que encontrou nas colunas sociais uma de suas expressões mais características.

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