Por Fábio Campos
Ciro Gomes (PDT) voltou da Europa mantendo coerência com o que ele e o partido haviam anunciado antes da viagem de férias na semana após o primeiro turno: apoio crítico a Fernando Haddad (PT). É só.
Ainda não foi na noite de sexta-feira, 26, com a presença de milhares de apoiadores ciristas no aeroporto de Fortaleza, que a imensa expectativa sebastianista estimulada por parte do PT, da imprensa simpatizante e, principalmente, de Haddad, resultou em algo de prático a favor do candidato a presidente que concorre contra Bolsonaro.
Ciro não deu uma só palavra nova a respeito do segundo turno. Limitou-se a acompanhar o coro da entusiasmada massa que foi recebe-lo. No caso, um coro de curta duração entoando a palavra de ordem “ele não”. Ou seja, Ciro cumpriu à risca o figurino já estabelecido pelo PDT. Portanto, foi respeitada uma estratégia a ser seguida pelo partido.
Hoje, do ponto de vista do jogo político, o que importa ao PDT e a Ciro é o papel a ser desempenhado diante do muito provável governo de Jair Bolsonaro (PSL).
O ato político no aeroporto de Fortaleza, cuidadosamente organizado por Cid Gomes, não tinha e nem nunca teve a intenção de reforçar e enfatizar o voto em Haddad. O objetivo ali era criar movimento e dinâmica de massa em torno de Ciro. “Lula está preso, babaca”. Portanto, há um papel a ser desempenhado na oposição. E é nesse papel que se desenham as alternativas para a sucessão de 2022.
Os Ferreira Gomes são profissionais da política e sabem muito bem que tal espaço (de oposição) deve e precisa ser ocupado por eles e sua sigla e não pelo PT. Fora disso, já aprenderam, o papel que resta é de mero coadjuvante. Sim, coadjuvantes! Papéis que Ciro e seu grupo político exerceram em relação ao PT desde o segundo de 2002, que elegeu Lula. Nas circunstâncias de hoje, ser coadjuvante do PT equivale à função de gari do purgatório.
Considerem que o PDT é a sigla na qual o grupo político controlado por Ciro e Cid mais se sentiram bem desde que romperam com o PSDB em 1995. Depois de vagar por vários partidos, insignificâncias como o PROS, encontraram no PDT uma espécie de terra prometida. A herança brizolista parece ter sido muito bem assimilada.
A atitude de Carlos Lupi, o presidente pedetista forjado na praça da Cinelândia, no Rio de Janeiro, à época conhecida como Brizolândia, lhes foi confortável. Lupi tem sido um camarada. No Ceará, André Figueiredo, pedetista desde os tempos da faculdade de Economia da UFC, na década de 1980, tem pensamento e comportamento que se adéquam como uma luva ao modo Ferreira Gomes de ver o mundo e fazer política. Claro que são conveniências e afinidades eletivas. É assim na política.
Diante de tudo isso, por qual motivo brigar com moinhos de vento emoldurados com a estrela do PT, que golpeou com impiedosa dureza a construção de Ciro por uma aliança no primeiro turno?
A presidente do PT é Gleisi Hoffmann. Atentem: alguém por aí ouviu alguma súplica pública da senadora paranaense para que Ciro apoiasse Haddad? E da turma do PT do Ceará (Guimarães, Luizianne, Pimentel…), algum murmúrio por Ciro? Como certa vez disse Brizola, só se ouviu deles o rotundo silêncio. Haddad clama sozinho por Ciro. Ciro sabe.
Não esqueçam: após o rompante verbal de Cid Gomes diante da atônita platéia petista, o deputado federal José Guimarães, reeleito, espalhou nas redes sociais que a fala do novo senador do PDT significava um rompimento com o PT. Depois, Guimarães se recolheu para não atrapalhar ainda mais a campanha de Haddad. Mas, sim, é uma ruptura. Vamos assistir agora às tentativas de Camilo Santana de remendar.
Bom, o fato é que uma multidão de jornalistas esperou a palavra de Ciro no aeroporto. Nada a declarar. Nada foi declarado. Ok, ainda há o sábado. Ainda há o domingo. Ciro pode dizer algo. Mas, e se disser, que alcance terá?
Atentem bem para um ponto que certamente foi lido por Ciro: o percentual de votos que hoje Bolsonaro tem nas pesquisas do segundo turno equivale à soma do percentual de votos que os candidatos de centro-direita obtiveram no primeiro turno. No mesmo raciocínio, os votos de Haddad nas pesquisas equivalem aos votos somados dos candidatos de esquerda no primeiro turno.
Entendem? Aparentemente, a coisa toda já veio definida em 07 de outubro passado. Sendo assim, melhor mesmo cuidar do futuro.
Veja o vídeo com a chegada de Ciro no aeroporto Pinto Martins







