Chegara da viagem na véspera. Vinha cheia de histórias para compartilhar com os interessados em ouvir as peculiaridades de um país tão diverso desse no qual habitam. Vinha pronta para discorrer sobre os hábitos e costumes dos nativos; sobre as pessoas com quem havia estabelecido contato; vinha preparada até mesmo para enumerar os dados oficiais do país visitado, enunciando com familiaridade os percentuais capazes de projetar um toque de seriedade ao que havia sido nada mais que um simples passeio turístico de uma semana.
Trazia para a reunião uma sacola com as lembrancinhas compradas ao longo da viagem, pensando em um e outro destinatário, os presentes miúdos enquadrados na categoria “Estive aqui e lembrei de você”: os ímãs de geladeira, os bonés e bolsas de pano com o nome de lugares que ela visitara – uma acumulação de objetos inevitavelmente Made in China, vindos na mala de cabine.
Não que ela estivesse interessada em apaziguar ânimos, fortalecer amizades ou receber a gratidão alheia – gratidão, esse substantivo feminino abstrato que tem empurrado para a lateral do campo linguístico o até então dominante obrigado, obrigada. Era o que gostava de fazer.
Quando ela chega, todos já se encontravam sentados em torno da mesa, meia dúzia de criaturas entretidas com o cardápio e com as conversas, e que a recebem com rotineira energia. Ela começa a distribuir as lembrancinhas e a contar sobre a viagem antes mesmo de sentar-se.
Vocês não acreditam como foi maravilhoso! – ela enuncia em voz alta, e é claro que todos eles acreditam. Haviam realizado viagens semelhantes, a destinos quase iguais, ou mais bem posicionados na categoria turística, e aproveitam a abertura para abrir o livro das suas próprias experiências.
Para o primeiro que se manifesta, com um entusiasmado vozeirão, tinha sido maravilhosa a viagem feita pela América do Norte, um tempo atrás. Maravilhosa também a experiência da segunda pessoa, a detalhar sua experiência nos vinhedos portugueses, no ano passado, e a voz da terceira, que percorrera com emoção, há quase dez anos, o mesmo destino sobre o qual ela trazia sua experiência recente.
Sabe-se que dentro da classificação hierárquica das amizades estão em grau ascendente os conhecidos, seguidos pelos colegas, os amigos, os bons amigos, os amigos próximos e os amigos íntimos. E existe uma categoria a parte, constituída pela família, em especial pelos irmãos – cada um deles ou delas dotados do mesmo código genético, o eu que nós não fomos.
Pois é isso que são eles e elas, os componentes do grupo em torno daquela mesa em um barulhento restaurante de shopping, repartindo o pão e bebendo o vinho. É essa comunhão da mais permanente amizade que dá a ela o desejo de silenciar e de se ocupar com o cardápio, esquecendo o catálogo de informações sobre sua viagem, disposta a escutar as prévias vivências alheias.
Verdade que em um primeiro momento ela ficara sentida, por não ter encontrado ouvidos ao discurso que trazia na ponta da língua sobre os 3 milhões de habitantes do destino visitado; sobre a segurança em que vivem os cidadãos de lá; sobre a ausência de patrulhamento ostensivo nas ruas; sobre a facilidade com que o grupo dela, meros turistas, havia entrado no Palácio governamental; sobre as ondas revoltas causadas pela ventania, as alvas cristas de espuma sobre um rio de prata, mais assemelhado a um mar; sobre a estranheza dos cinco dedos de concreto brotando da areia de uma praia assolada por um vendaval; sobre uma Casa Pueblo inventada em branco por um artista quase louco; por avenida com mais de 20 quilômetros de recortada extensão à beira mar/beira rio; sobre tanta coisa que ela nem cuida mais de relembrar.
Se quisesse, poderia erguer a voz e chamar atenção para suas histórias. Prefere silenciar e ouvir a voz deles, depois dos dias de ausência. É assim que são essas pessoas, há tantas décadas à sua volta: uma desinteressada audiência que nada disso faz por mal. Ela vai escrever sobre o que viu, e os que quiserem conhecer um pouco de suas lembranças que leiam (ou não…) o que for escrito.
Mais valioso para ela, acima de tudo, é reconhecer o sentimento de cumplicidade, de fraternidade e de sororidade que mantém juntas essa meia dúzia de criaturas, preservando íntegra a sacola imensa de lembranças que aperta desde sempre, com os laços do sangue, as memórias daquele pequeno grupo de irmãs e irmãos do qual ela tem imenso orgulho de ser parte.
Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.







