Os laços de sangue; Por Angela Barros Leal

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Chegara da viagem
na véspera. Vinha cheia de histórias para compartilhar com os interessados em ouvir as peculiaridades de um país tão diverso daquele em que habitam. Vinha pronta para discorrer sobre hábitos e costumes dos nativos; sobre as pessoas com quem estabelecera contato; vinha preparada até mesmo para enumerar dados oficiais do país visitado, enunciando com familiaridade percentuais capazes de projetar um toque de seriedade ao que havia sido nada mais do que um simples passeio turístico de uma semana.

Trazia para a reunião uma sacola com as lembrancinhas compradas ao longo da viagem, pensando em um e outro destinatário — presentes miúdos enquadrados na categoria “Estive aqui e lembrei de você”: ímãs de geladeira, bonés e bolsas de pano estampando o nome dos lugares visitados. Uma acumulação de objetos inevitavelmente Made in China, vindos na mala de cabine.

Não que estivesse interessada em apaziguar ânimos, fortalecer amizades ou receber a gratidão alheia — gratidão, esse substantivo feminino abstrato que vem empurrando para a lateral do campo linguístico o até então dominante “obrigado”, “obrigada”. Era simplesmente o que gostava de fazer.

Quando ela chega, todos já se encontram sentados ao redor da mesa: meia dúzia de criaturas entretidas com o cardápio e com as conversas, recebendo-a com a energia rotineira de sempre. Ela começa a distribuir as lembrancinhas e a contar sobre a viagem antes mesmo de se sentar.

— Vocês não imaginam como foi maravilhoso! — anuncia em voz alta.

E é claro que todos acreditam. Haviam realizado viagens semelhantes, para destinos quase iguais — ou mais bem posicionados na hierarquia turística — e aproveitam a abertura para desfiar o livro das próprias experiências.

Para o primeiro que se manifesta, em um entusiasmado vozeirão, maravilhosa havia sido a viagem feita pela América do Norte, algum tempo atrás. Maravilhosa também a experiência da segunda pessoa, a detalhar sua temporada nos vinhedos portugueses no ano anterior. E surge ainda a voz da terceira, que percorrera, há quase dez anos, o mesmo destino sobre o qual ela agora trazia suas impressões recentes.

Sabe-se que, dentro da classificação hierárquica das amizades, estão, em grau ascendente, os conhecidos, seguidos pelos colegas, os amigos, os bons amigos, os amigos próximos e os amigos íntimos. E existe uma categoria à parte, constituída pela família — especialmente pelos irmãos —, cada um deles dotado do mesmo código genético: o eu que nós não fomos.

Pois é isso que são eles e elas, os componentes daquele grupo reunido em torno da mesa de um restaurante barulhento de shopping, repartindo o pão e bebendo o vinho. É essa comunhão da amizade mais permanente que desperta nela o desejo de silenciar e se ocupar do cardápio, esquecendo o catálogo de informações sobre sua viagem, disposta agora a ouvir as vivências alheias.

É verdade que, em um primeiro momento, ela se sentira frustrada por não encontrar ouvidos para o discurso que trazia na ponta da língua: os três milhões de habitantes do destino visitado; a segurança em que vivem os cidadãos de lá; a ausência de patrulhamento ostensivo nas ruas; a facilidade com que seu grupo, meros turistas, entrara no palácio governamental; as ondas revoltas causadas pela ventania, com alvas cristas de espuma sobre um rio de prata mais semelhante ao mar; a estranheza dos cinco dedos de concreto brotando da areia de uma praia assolada pelo vendaval; a Casa Pueblo, inventada em branco por um artista quase louco; a avenida de mais de vinte quilômetros de extensão recortando a beira-mar, a beira-rio; tantas coisas que ela já nem se preocupa mais em relembrar.

Se quisesse, poderia erguer a voz e chamar atenção para suas histórias. Prefere silenciar e ouvir a voz deles, depois dos dias de ausência. É assim que são essas pessoas, há tantas décadas ao seu redor: uma audiência desinteressada, embora nada disso seja feito por mal. Ela escreverá sobre o que viu, e os que quiserem conhecer um pouco de suas lembranças poderão ler — ou não — o que for escrito.

Mais valioso para ela, acima de tudo, é reconhecer o sentimento de cumplicidade, fraternidade e sororidade que mantém unidas aquelas meia dúzia de criaturas, preservando intacta a imensa sacola de lembranças que aperta, desde sempre, pelos laços do sangue, as memórias daquele pequeno grupo de irmãs e irmãos do qual sente imenso orgulho de fazer parte.

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.

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