O joio e o trigo, por Ricardo Alcântara

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Ricardo Alcântara é publicitário e escritor.

Não é de todo improcedente a queixa de Jair Bolsonaro: a democracia é o pior regime, à exceção dos demais – alguém já disse. Frequentemente, é refém de interesses que os filhos jamais confessam às mães. É óbvio? Sim, mas precisa ser dito todo dia: lidar com a classe política brasileira é atividade com elevadas taxas de insalubridade.
Mas não deixa de ser uma confissão de fraqueza quando um presidente, com apenas cinco meses de mandato, declara o país “ingovernável” e, a seguir, recorre às ruas para não fechar as portas. À parte a conjuntura difícil, parte dos problemas são de sua própria lavra: ele não consegue levar sequer seu próprio partido, PSL, a agir em bloco em votações decisivas para seu governo, a toda manhã decide algo do qual recuará ao cair da tarde e, populista irredutível, não parece sustentar o ônus político da reforma que propõe, a todo instante acenando com recuos.
Gilmar Mendes não chamou os professores de “idiotas”. Não é do Centrão a proposta de dar posse de fuzis automáticos para cidadãos comuns. A imprensa não nomeou a irmã de milicianos para a tesouraria do PSL do Rio. E o Queiroz não está escondido no apartamento do Chico Buarque em Paris! Foi Jair Bolsonaro quem, com trinta anos de parlamento, vendeu a ideia de que controlaria aquilo tudo com seis generais no primeiro escalão. Apontar soluções simples para problemas complexos é ingenuidade ou má fé (ao benefício da primeira, por experiência, ele não tem direito).
O presidente fez sua aposta no domingo. Se o nível de adesão às manifestações não foi suficiente para emparedar as instituições, tampouco corresponde à imagem de um presidente mergulhado na solidão de seu palácio à espera da terrível visita. O bolsonarismo raiz mandou recado: ainda estão rolando os dados.
Defender os termos da Reforma da Previdência e do pacote Anticrime proposto pelo governo é um ato legítimo e as medidas não conflitam com as propostas eleitorais do escolhido. Contudo, há grande diferença entre investigar a conduta de ministros do Supremo Tribunal, pois não estão acima da lei, e sugerir o fechamento da instituição cuja missão é zelar pela Constituição. Igualmente distinto é condenar a conduta ética de lideranças dos partidos e, por outro lado, como se observou, exigir o fechamento do congresso mediante uma exótica “intervenção militar constitucional”, eufemismo fajuto para golpe militar.
Defendo uma democracia forte, munida de mecanismos de contenção sobre atos que tenham por objetivo explícito a abolição de seus termos. Gente que defende aquilo deveria ser identificada e recolhida às delegacias de polícia. A quem deseja amordaçar as instituições, sugiro que dê o exemplo: comece por interditar, inicialmente, sua própria liberdade, se a considera um bem acessório, descartável ou indesejável ao desenvolvimento equilibrado de uma nação. É mais coerente.

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