A Eleição do Parlamento Europeu – A vitória do Centro, por Igor de Lucena

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Articulista do Focus, Igor Macedo de Lucena é economista e empresário. Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden; Fellow Associate of the Chatham House – the Royal Institute of International Affairs  e Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales.

A Eleição do Parlamento Europeu – A vitória do Centro
A Europa viveu entre os dias 23 e 26 de maio a sua mais importante eleição para o Parlamento Europeu. Desde 1979 os cidadão europeus elegem um total de 751 membros do Parlamento Europeu (MPE) que representam mais de 512 milhões de pessoas dos 28 estados membros.
Os deputados do Parlamento Europeu são eleitos para mandatos de cinco anos e essa é a única assembleia transnacional eleita diretamente a nível mundial. O Parlamento Europeu representa os interesses dos cidadãos da UE a nível europeu, elege o Presidente da Comissão Europeia e nomeia os seus Comissários para os cargos executivos.
Os Eurodeputados são eleitos por cada país e são proporcionalmente distribuídos pela sua população. O maior número de representantes é da Alemanha com 96 deputados e o menor é de Malta com 6 assentos.  Os deputados do Parlamento Europeu participam de grupos políticos baseados em ideologias que são alinhadas aos seus partidos políticos dos Estados-Membros,  confirmando a sua “representatividade” a um grupo supranacional existente. Hoje existem oito grupos supranacionais no atual Parlamento Europeu.
Desde 2014 os partidos políticos foram encorajados a apresentar um candidato principal ou “spitzenkandidat” para liderar a sua campanha eleitoral em toda a UE e para ser o candidato oficial à presidência da Comissão Europeia. Com a vitória dos partidos S&D (Socialistas e Democratas), EPP (Partido dos Povos da Europa) e ALDE&R (Liberais e Democratas) os principais candidatos para o cargo de presidente da Comissão Europeia são Manfred Webber (EPP) pela centro-direita, Frans Timmersman (S&D) pela centro-esquerda e Guy Verhofstadt (ALDE) pelo Centro.
A grande maioria dos analistas políticos e das pesquisas de opinião apontavam um forte crescimento da extrema-direita e dos chamados eurocéticos, partidos políticos que defendem profundas reformas contra a integração da EU e em muitos casos defendendo o fim da União e da moeda única. As projeções iniciais indicavam em que esses grupos deveriam ter crescido com força nesta última eleição, entretanto esse não foi o caso. Eles efetivamente conseguiram mais assentos, mas os grandes vencedores desta eleição foram os membros do European Green Party que se tornaram a quarta maior força no parlamento com 67 assentos.
Juntos essas quatro forças (S&D, EPP, ALDE&R e Greens) representam o centro moderado na Europa e somam 504 dos 751 assentos do parlamento, o suficiente para implementar políticas necessárias como o Orçamento Europeu, o sistema comum de supervisão bancária e uma política migratória supranacional.
A primeira surpresa deste resultado ocorreu ainda na sexta-feira, dia 24, com as projeções na Holanda quando o PvdA (Partido Trabalhista Holandês) foi o grande vencedor de acordo com uma pesquisa do Instituto Ipsos. Enquanto isso o partido Forum voor Democratie de extrema-direita conquistou apenas três assentos, enquanto se esperava pelo menos seis.
A maior fronte anti-Europa ficou novamente na mão dos ingleses com uma grande vitória já esperada de Nigel Farage, do recente formado Brexit Party, e na Itália com a vitória da Lega Nord de Matteo Salvini. Do ponto de vista lógico parece irracional um partido formado com o objetivo de sair da União Europeia ser votado para o Parlamento Europeu, mas esse é um dos resultados práticos do Brexit.
De um modo geral, os três grupos eurocéticos ou de extrema direita do Parlamento Europeu aumentaram sua participação de 21% para 23%. Dificilmente esse resulta implica em uma onda transformadora, mesmo depois de cinco anos de embates com o estabilishment europeu sobre a crise de imigração, o voto do Brexit, os ataques terroristas e a fragmentação generalizada da política do continente.
Pode-se dizer que o resultado dessa eleição deu ao projeto europeu um novo voto de confiança do povo do velho continente, mas com uma ressalva que mudanças nas áreas de imigração, regulação bancária e acordos comerciais precisam avançar para melhorar a vida das pessoas.
A população também jogou um balde de água fria na extrema direita ao rejeitar o crescimento de movimentos políticos anti-Europa, pois o caos político e econômico que foi instalado no Reino Unido com o início do Brexit custa até hoje um preço muito alto para a população e para as empresas inglesas. Essas consequências afastaram do poder os eurocéticos em países como Portugal, França e Espanha. Em países como a Itália e a Áustria a extrema-direita está demonstrando dificuldades para governar e montar coalizões duradouras.
A União Europeia é uma união ainda imperfeita, mas continua sendo o maior mercado livre do mundo, um símbolo da paz, com uma diversidade cultural e histórica milenar que influencia até hoje os destinos políticos e econômicos das nações do Ocidente. Os partidos de centro, agora eleitos, devem aperfeiçoar a Europa para que o velho continente possa continuar a se apresentar como uma potência global.
 

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