
Por Fábio Campos
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Foi uma dura semana para Ciro Gomes (PDT). Em poucos dias, saiu do estado de euforia para o risco de isolamento político com uma candidatura a presidente sem alianças. Entre segunda e quarta-feira passadas, a expectativa era de que os partidos que compõem o chamado “centrão” apoiariam a candidatura do primogênito dos Ferreira Gomes. No fim da tarde de quinta-feira, um balde água gelada.
Na noite de segunda-feira, Cid Gomes, o irmão que estava à frente de tratativas, se mostrava muito animado. “As coisas caminham muito bem”, disse ao Focus. Sim, pareciam de fato caminhar. O DEM e o PP, maiores partidos do grupo, verbalizavam indicativos de que Ciro seria o donatário do apoio que colocaria sua candidatura em situação privilegiada.
Na tarde do dia seguinte, Cid embarcou para Brasília ainda convencido do clima favorável. O projeto era construir no Brasil o que os Ferreira Gomes construíram primeiro em Sobral, depois no Ceará e em seguida em Fortaleza. A saber: alianças amplas, múltiplas, com leque que se estende da direita à esquerda, juntando alhos e bugalhos de todos os matizes, todos debaixo da “liderança moral” do grupo cirista.
Havia motivos apara o humor em alta. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, interlocutor mor das negociações pelo DEM, dava demonstrações de boa vontade. Maia era visto como o ponto de convergência capaz de arrastar as siglas do centrão para o palanque de Ciro, que, por sua vez, fazia atos de contrição buscando convencer o velho demismo-pefelismo de que era confiável aos anseios da sigla.
Outro Ciro, o Nogueira, controlador do PP, senador piauiense com relações familiares no Ceará, também se mostrava pró-Gomes. O Solidariedade não era um problema. Paulinho da Força já havia sido vice de Ciro em 2002. Para ele, bastava o argumento de que, na presidência, Ciro vitaminaria novamente sindicatos e suas centrais. O resto viria a reboque.
Faltava pouco. Muito pouco. Quase lá. A ideia do PDT era chegar na convenção desta sexta-feira, 20, se não com a aliança formalizada, pelo menos com a significativa presença dos tão desejados aliados na festa do partido que se mostrava coração de mãe. Porém, a dinâmica do processo político providenciou uma guinada de 180 graus.
Em meio às intensas articulações, Ciro entrou em jogo para combater Ciro. Seu incontrolável e conhecido gosto pelo arrebatamento verbal se fez presente e soltou um “filho da puta” em homenagem a uma promotora de justiça. Nunca é bom reforçar os defeitos quando se fazia necessário justamente o contrário.
Em paralelo, na ânsia de aparar arestas com o DEM, Ciro e Rodrigo ajeitaram uma conversa entre os economistas que representam um e outro. Parecia uma boa ideia. Não foi. O economista do DEM saiu do encontro com Mauro Benevides Filho cuspindo fogo e falando em “agendas inconciliáveis”. Entre outros adjetivos nada louváveis para Ciro.
No meio de tudo, a equipe de Ciro Gomes resolve divulgar as cartas enviadas à Embraer e à Boeing deixando claro o seu desgosto com o negócio próprio do capitalismo que as duas gigantes da aviação haviam firmado. Soou como uma estridente e ensurdecedora sirene no pé da orelha daquele que se convencionou chamar de “mercado”. O mau humor com Ciro se avolumava rapidamente.
Na sequência, o PR passou a compor o tal do “centrão”. A sigla nunca quis conversa com Ciro. Assim, as preferências que pareciam divididas com Geraldo Alckmin, o Santo, penderam desfavorável ao pedetista. Pior: o bloco viu em Josué Alencar, o empresário mineiro que todos querem atrair, o vice a ser apresentado ao candidato escolhido. O problema é que Josué é do PR.
Esses são os fatos que podiam ser vistos a olhos nus. E os que não podiam e que se davam na penumbra das relações políticas? Pois é. Estes fatos certamente atuaram de maneira decisiva. Um deles: o Palácio do Planalto mexeu seus pauzinhos. Nunca desdenhem de Michel Temer, está bem? É claro que o presidente usou de todas as suas prerrogativas para tirar o chocolate da boca do desafeto que lhe dirige impropérios.
Um desses atos do Planalto até que foi notado. Avisaram ao PP que o partido teria que devolver seus preciosos cargos no primeiro e segundo escalão do Governo se seguisse a ideia de compor com Ciro. Fácil, não?
Na outra frente de batalha, um já experiente tucano, come quieto, paciente como um monge, viu sua abertura para as conversas ganhar ávidos interlocutores. Geraldo Alckimin, confiável ao establishment, cirúrgico, parece ter sabido usar o poder da força de gravidade a seu favor.
Porém, a história está longe de ter chagado ao fim. Na verdade, é só o começo da continuação.







