
A mais importante resposta à disputa estadual no Ceará foi dada hoje: Ciro Gomes (PSDB) assumiu, “por lealdade e gratidão”, disputar o governo do Ceará.
Em ato que reuniu históricos aliados (com destaque para Tasso Jereissati, Roberto Cláudio e Mauro Filho), e ex-desafetos e novos aliados (André e Alcides Fernandes, Capitão Wagner, Heitor Ferrer e o casal Silvana-Jaziel dentre eles), Ciro pôs fim à grande indagação acerca do pleito que se aproxima -se seria mesmo candidato -, dando início, de fato, ao que se vislumbra ser, segundo as pesquisas até aqui reveladas, uma campanha bastante competitiva (como aquela de 2002, em que o governo quase saiu derrotado, com Lúcio Alcântara, ou como a de 2006, em que a longa hegemonia do PSDB – vejam só! – foi derrotado por – vejam só! – Cid Gomes).
O ato teve um formato um tanto quanto diferente: embora estivessem presentes no evento, a lideranças escolhidas para discursar o fizeram por meio de vídeo gravado, não em discurso “no calor da hora”. Foi assim que Mauro Filho, Roberto Cláudio, Alcides Fernandes, Emília Pessoa, Cândido Albuquerque e Dayany Bittencourt declaram seu apoio ao tucano. O que sobrou de emoção no evento de Girão, com declarações dadas ao vivo e a cores (com destaque para a de Michelle Bolsonaro), faltou ao evento de Ciro que, por sinal, não contou com nenhuma liderança política nacional.
Somente Ciro e Tasso discursaram – este, dando mostras de seu cansaço físico, aquele tentando mostrar vitalidade e paixão nos interesses dos “irmãos cearenses“.
Não faltaram referências religiosas:
- seu jinlge diz querer ele “salvar o Ceará“;
- a “benção pessoal” recebida de Frei Damião;
- fez a cruz, “sinal de nossa fé em nosso Senhor Jesus Cristo“, o “sinal majoritário de nossa fé“.

Aquilo que as inserções partidárias do PSDB na TV durante esta semana indicavam deu o mote do ato e do discurso de Ciro (assim como o de Tasso): o domínio das facções no Ceará. Numa cena inusitada, bem ao gosto do tema, Ciro deu voz de prisão a um apoiador que fazia o “C“, confundindo-o com um gesto de apoio a uma facção.
Segurança e violência, num estado governado por um “magote de irresponsáveis e frouxos“.
Será esse o mote maior da campanha, legitimado pela presença fortemente simbólica de Wagner e do núcleo duro do bolsonarismo.
“O fraco líder faz fraca a forte gente“, disse, sabendo o quanto a persona de Elmano de Freitas é vista como fraca nas pesquisas até aqui publicizadas; daí a insistência em falar dos “frouxos” que governam o Ceará – no plural, a significar Elmano e Camilo Santana (?).
Uma possível chapa parecer já ter sido montada: Ciro, Roberto Claudio como vice, Alcides e Wagner como senadores.
Priscila Costa, que até agora não disse em quem votará para o governo, parece ter sobrado. Nesta manhã, a vereadora, de verde e amarelo (sinalizando estar do lado verdadeiramente “patriota”), preferiu estar num torneio de futebol bem longe do Conjunto Ceará, na cidade de Horizonte.
Nas muitas críticas que fez, Ciro recortou a temporalidade dos “desmandos” no Ceará: falou em “10” ou “12 anos”, ou seja, dos governos de Camilo Santana para cá. Proteção à memória de seu irmão, Cid Gomes?
Parecia ser, mas era Ciro a discursar. Assim sendo, em pelo menos três momentos não faltaram críticas, diretas ou indiretas, ao irmão:
- o “fanatismo“, depois nomeado como “lealdade” a seu irmão o levaram a ser “contra o Capitão sem nem saber o valor que ele tem“;
- ao tratar dos “senadores do lado de cá” (Wagner e Alcides), que seriam todos “ficha limpa“, opôs os senadores do “lado de lá“, que estariam “todos pendurados no STF por falcatrua“. Até Cid?
- lembrou da fala do irmão sobre Alcides ser “apenas pai do André“, puxando o coro festivo de “pai do André” e lembrando que Cid fora “apresentado como irmão do Ciro, depois é que virou importante“.
Ciro não deixou de antecipar-se à críticas que receberá durante a campanha, com destaque para a aproximação com seus antigos críticos: “com todas as contradições” que tem com o grupo político da direita, falou do “enxame que precisa vir” com ele, a começar “pelos dois candidatos a governador” em 2022, que foram adversários; falou do “jovem fenômeno” André, a quem definiu como “uma página em branco“, e cuja parceria irá apresentar “abertamente” ao povo do Ceará, fazendo um desafio: “Se quiser recuperar coisas que um andou dizendo do outro no passado, vai ser uma beleza para quem quer fazer sabotagem“, acrescentou. A aliança, disse ele, “é para libertar o Ceará do inimigo maior, do mal maior, da pobreza maior?. Eu estou com a consciência tranquila“.
Uma última palavra: Ciro encampará a campanha de Flávio Bolsonaro?
Bem, se do lado de fora material unindo as duas campanhas e imagens de Trump davam mostras dessa irrestrita aliança (com direito à postagem nas redes de Chagas Vieira, denunciando a união Ciro-Bolsonaro), o que se viu no ato não nos permitiu compreender como isso se dará.
Além de não ter havido discurso de nomes fortes do bolsonarismo local (nem André nem Silvana, por exemplo), uma declaração rápida de André ao grupo ANC Noticias aponta em outra direção: “o palanque de Flávio Bolsonaro é aqui no Ceará é Alcides Fernandes” (veja aqui: https://www.instagram.com/reel/DYZ_Koou708/?igsh=N3QzN2FmdWwweGpi).
Não vai ser, por agora, que veremos o bolscironismo. Para desespero, temporário, da base governista.







