
— Pai, quero te contar algo fascinante. Acho que o senhor nem imagina o quanto estou feliz.
— Cuidado, filho. Nem tudo o que fascina ilumina; às vezes, apenas assusta.
— É que me apresentaram o “céu”, pai. O senhor acredita que ele existe?
— Eu acredito que cada um constrói o próprio céu, filho.
— Pois é… Mas a minha geração é diferente da sua. A gente precisa de coisas novas, de sonhos rápidos, de atalhos. Somos mais carentes, eu acho. O mundo de vocês era menor, mais fechado, meio careta. Até pensei em falar com a mamãe primeiro, mas ela viria com aquelas amarras religiosas e travas sociais de sempre.
— Seja direto, meu filho. Eu não nasci ontem e não me quebro fácil. O que aconteceu?
— Fui apresentado às drogas, pai. Achei um caminho mais fácil.
— Tudo é caminho, filho. A questão é onde você quer chegar. Você busca um paraíso, mas pode acabar emparedado em um quarto escuro e sombrio. Um lugar onde eu não consiga te ver e, mesmo que você me chame, talvez eu não consiga ouvir. Vamos ficar em patamares tão diferentes que o afeto deixará de nos atravessar. Nossos pensamentos serão mundos divergentes.
— Não, pai! Não é um quarto escuro. É como um rio de águas transparentes e perfumadas!
— E qual é a cor dessa clareza? Qual é o cheiro desse perfume? Não te avisaram que nesse rio mora um crocodilo faminto, pronto para devorar quem vive de sonhos rasos?
— O senhor é muito pessimista… Não acredita em nenhuma promessa moderna?
— Filho, a única certeza que cultivo é que esse caminho que te mostraram raramente tem volta. O céu que você espera pode se transformar em uma tormenta eterna. Na minha geração, buscávamos o sagrado, mas mantínhamos os pés no chão. Não trocávamos a voz dos pais pelos conselhos de “influenciadores”. Tínhamos fé, mas também razão e personalidade.







