Economia Azul do Ceará: Entre a vocação e a decisão; Por Rômulo Alexandre Soares

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Mar. Foto: Freepik

Tenho acompanhado o debate sobre economia do mar no Ceará há tempo suficiente para saber que ele não nasceu agora. Quando discutíamos Fortaleza 2040, Ceará 2050 e tantos outros exercícios de futuro, já aparecia ali uma intuição importante: o Ceará não poderia pensar seu desenvolvimento de costas para o mar. Hoje, a expressão “economia azul” ganhou espaço em eventos, relatórios, painéis e discursos. Isso é bom. Mas também traz um risco: o de transformar uma agenda estratégica em vocabulário elegante.

Por isso volto a uma pergunta que me parece decisiva: estamos reorganizando o desenvolvimento do Ceará a partir do oceano, da costa e das águas que estruturam o nosso território, ou apenas pintando de azul práticas antigas e fragmentadas? Falar de mar, inovação, sustentabilidade, portos, energia renovável, bioeconomia e turismo costeiro é necessário. Mas não basta. A questão central é saber se tudo isso se articula em uma visão de longo prazo ou se continuará disperso em iniciativas importantes, porém desconectadas.

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, em documento recente sobre a transição para uma economia azul sustentável, ajuda a separar discurso de compromisso. O PNUMA lembra que economia azul não é um selo bonito para projetos no litoral. É uma transição concreta, que envolve proteger e restaurar ecossistemas, reduzir poluição e desperdício, fortalecer a estabilidade climática e fazer com que os benefícios cheguem de modo mais justo à sociedade. Em outras palavras: exige método, direção e entrega.

Essa lente me parece especialmente útil para o Ceará. O trabalho liderado pelo Observatório da Indústria da FIEC, apresentado no recente Ocean Summit, mostra que há inteligência local sendo produzida. A agenda proposta organiza as prioridades em governança, ordenamento do espaço marítimo, transição ecológica, resiliência climática, cadeias produtivas azuis, digitalização, infraestrutura inteligente e bioeconomia marinha. Não é pouca coisa. É um esforço sério para pôr ordem em uma conversa que, por muito tempo, ficou dispersa.

Mas quem já participou de conselhos, câmaras setoriais, grupos de trabalho e planos estratégicos no Brasil sabe que o problema raramente está apenas no diagnóstico. O nosso gargalo costuma aparecer depois: na implementação. Não existe economia azul sustentável sem coerência institucional. Liderança, participação, financiamento, dados acessíveis e estruturas integradas não são enfeites administrativos. São condições para que a agenda saia do PowerPoint e chegue ao território.

Se portos, pesca, turismo, energia, ciência, meio ambiente e desenvolvimento regional continuarem em conversas paralelas, o Ceará terá setores dinâmicos, mas não terá uma estratégia azul. Terá peças de um mosaico que nunca se completa. E talvez essa seja a diferença entre ter vocação e tomar uma decisão histórica. Vocação o Ceará tem. A decisão ainda está em construção, e iniciativas como a Blue Ceará, que celebra neste mês seu primeiro ano, visam dar protagonismo a um ecossistema. Costumo dizer com frequência, que a resiliência de uma economia azul reside na força ecossistêmica.

Há outro ponto que considero essencial. A economia azul não pode virar apenas uma nova fronteira de crescimento, mais sofisticada no nome e parecida na lógica. O artigo recente do camarada (que tem o mesmo amor comum pelo mar) Célio Fernando Bezerra Melo sobre economia azul sustentável acerta ao lembrar que o termo “sustentável” não é adereço, mas correção de rumo. Essa observação é importante porque o Ceará tem, sim, razões legítimas para atrair investimentos, sofisticar cadeias produtivas, agregar valor e buscar inserção global. Mas se essa ambição não vier acompanhada de proteção dos ecossistemas, redução da poluição, resiliência climática e distribuição justa dos benefícios, estaremos apenas atualizando a velha lógica extrativa. Economia azul sem sustentabilidade é apenas economia sobre a água.

É aqui que o Ceará pode oferecer algo próprio ao debate nacional. A nossa economia azul não começa apenas na praia. Célio formulou bem essa ideia ao lembrar a conexão entre sertão, reservatórios, bacias e mar. Para mim, essa imagem tem força porque traduz o Ceará real. Somos litoral, mas também somos escassez hídrica, engenhosidade, convivência com o semiárido, rios, açudes, ventos, pesca, turismo, energia, indústria e comunidades que vivem numa relação direta com a água, mesmo quando ela falta.

Por isso, não deveríamos importar o conceito de economia azul de forma estreita. Precisamos tropicalizá-lo com a inteligência hídrica do nosso território. A pergunta deixa de ser apenas “o que podemos explorar no mar?” e passa a ser “como organizamos uma transição capaz de gerar riqueza, proteger a natureza e aumentar a resiliência do Ceará?”. Essa mudança altera tudo. Os dados deixam de ser adereço técnico e passam a ser infraestrutura de decisão. O financiamento deixa de buscar apenas expansão setorial e passa a exigir instrumentos alinhados à transição. As comunidades deixam de ser destinatárias passivas e passam a integrar a governança. A indústria deixa de ser apenas beneficiária e passa a ser cobrada como agente de inovação, de rastreabilidade, de circularidade e de descarbonização.

O maior risco para o Ceará não é a falta de potencial. É desperdiçar a oportunidade de transformar esse potencial em estratégia de Estado e de sociedade. O mundo mudou. Financiamento, comércio, regulação e reputação passam a ser cada vez mais regidos por critérios de sustentabilidade, impacto climático, rastreabilidade e governança. Quem se adianta ganha competitividade. Quem se atrasa vira um fornecedor de baixo valor em cadeias cada vez mais exigentes. O Ceará tem uma janela rara para se posicionar antes que a agenda lhe seja imposta de fora. Mas isso exige mais do que entusiasmo: exige coordenação pública, ambição privada e compromisso territorial.

Escrevo este artigo, portanto, menos para celebrar uma expressão nova e mais para defender uma decisão. O futuro azul do Ceará não será decidido pela beleza do nosso litoral, nem pela frequência com que repetirmos “economia azul” em eventos e relatórios. Será decidido pela capacidade de transformar vocação em governança, visão em execução e oportunidade em projeto duradouro de desenvolvimento.

Rômulo Alexandre Soares, advogado, sócio da firma APSV Advogados, co-fundador do Instituto Winds for Future e presidente da Presidente da Câmara Setorial de Economia Azul da ADECE

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