Enquanto o país discute quais empregos a inteligência artificial vai extinguir, o dado mais duro é outro: só uma minoria dos brasileiros tem habilidade digital básica para disputar as vagas que a tecnologia cria.
Existe uma pergunta que aparece em toda conversa sobre inteligência artificial, e ela é sempre a errada. A pergunta é “a IA vai roubar meu emprego?”. A pergunta certa é “eu tenho as condições mínimas de operar as ferramentas que vão redefinir o meu emprego?”. E a resposta brasileira para essa segunda pergunta é desconfortável.
O estudo “IA no Mercado de Trabalho: Quem Ganha, Quem Perde — e Quem Fica para Depois”, do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro em parceria com a Fundação Grupo Volkswagen e a Fundação Arymax, revisou cerca de cem pesquisas nacionais e internacionais e chegou a um número que deveria estar em toda pauta de política pública: até 37% dos postos de trabalho no Brasil podem ser impactados pela tecnologia, o equivalente a aproximadamente 37 milhões de trabalhadores.
Impactado não é sinônimo de extinto. A literatura econômica séria trabalha com tarefas, não com profissões inteiras: a IA absorve pedaços de um trabalho, e o que sobra é recomposto. O advogado que redigia contratos passa a revisar contratos redigidos por máquina. O analista que montava planilhas passa a interrogar bases de dados. O atendente que digitava respostas passa a supervisionar um sistema que responde. Em todos esses casos, o emprego não desaparece — ele muda de exigência.
E é exatamente aí que o Brasil tropeça. O mesmo levantamento aponta, com base em dados da Anatel, que apenas 21,3% da população brasileira possui nível agregado básico de habilidades digitais. Leia de novo: pouco mais de um em cada cinco. Não estamos falando de programar em Python ou de treinar um modelo de linguagem. Estamos falando de habilidades básicas — navegar, avaliar informação, usar ferramentas digitais com autonomia.
Quando você cruza os dois números, a conclusão é inevitável: a maior parte da população exposta à transformação não tem a base para atravessá-la. E o mesmo estudo estima que cerca de 2 milhões de trabalhadores podem enfrentar risco de substituição total de suas ocupações nos próximos anos. Na América Latina, a exposição varia entre 26% e 38% dos empregos — o desafio é regional, mas nossas desigualdades estruturais o tornam mais pesado aqui.
O discurso corporativo já entendeu parte do problema. Pesquisas de mercado mostram que o gargalo das empresas brasileiras que tentam adotar IA não é orçamento nem tecnologia disponível: é gente que saiba usar. Contratar profissional “pronto” em áreas de altíssima demanda ficou caro e, em muitos casos, inviável. A única estratégia sustentável é desenvolver a força de trabalho que já está dentro de casa.
Só que empresa treina quem já está empregada. E a conta pública — a de quem está fora, subempregada ou em ocupações de baixa complexidade — não tem dono. É aqui que uma política de letramento em IA precisa entrar, e ela não pode ser confundida com “curso de prompt”. Letramento em IA tem três camadas: a instrumental, aprender a operar as ferramentas; a crítica, entender que o sistema erra, inventa e reproduz vieses; e a cívica, saber que existe decisão automatizada sendo tomada sobre você e que a lei brasileira já dá direito a explicação e contestação.
A terceira camada é a mais negligenciada e a mais urgente. Um trabalhador que não sabe que foi um algoritmo que reprovou seu crédito, definiu sua escala ou filtrou seu currículo não tem como reclamar. Letramento, nesse caso, não é empregabilidade — é cidadania.
Há um caminho concreto e ele não depende de nenhuma tecnologia nova: colocar letramento digital e em IA no currículo do ensino médio e da educação técnica com carga horária real, não como tema transversal decorativo; usar a rede de institutos federais e do Sistema S, que já tem capilaridade nacional, como infraestrutura de requalificação de adultos; e condicionar parte dos incentivos fiscais que o país oferece à economia digital a contrapartidas verificáveis de formação de pessoas.
O Brasil está prestes a receber uma onda bilionária de investimento em infraestrutura digital. Se a contrapartida for apenas concreto, energia e servidor, teremos construído a rodovia sem ensinar ninguém a dirigir. O ativo escasso da próxima década não é GPU. É gente capaz de fazer a pergunta certa para a máquina — e de duvidar da resposta.







