Liberar cerveja nos estádios é ação social, por Pedro Mapurunga Azevedo

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Pedro Mapurunga Azevedo é empresário.

O mundo já foi testemunha do poder destruidor que uma lei seca pode causar. Os Estados Unidos proibiram a comercialização de bebidas alcoólicas nos anos de 1920 e, justamente após essa intervenção utopicamente puritana, que nasceram os maiores gangsters daquele país, entre eles, Al Capone.  O estado americano tentou por anos coibir o comércio, entretanto, o efeito não foi o esperado, centenas de inocentes morreram, as cadeias ficaram superlotadas e milhões de dólares dos pagadores de impostos foram torrados em uma guerra que jamais poderia haver vencedores.
Problemas de saúde pública surgiram, bebidas alcoólicas de péssima qualidade eram fabricadas em locais insalubres e clandestinos, não havia controle de qualidade, atestados de originalidade e os consumidores se tornavam alcoólatras com maior facilidade.
Após todos esses problemas, os burocratas americanos perceberam que as más consequências (não intencionais) relacionadas a proibição da comercialização e consumo das bebidas eram superiores aos problemas vividos em tempos de liberdade.  Os congressistas sabiamente recuaram e voltaram a liberar, os crimes diminuíram e o resto da história é conhecida pelos nossos contemporâneos.
Voltemos ao presente e ao estado do Ceará. O que deveria ser óbvio, não é. Opiniões passionais de pessoas poderosas que nada entendem de futebol e de comportamento humano são levadas em consideração.
Entre os anos de 1999 e 2015 só frequentei o setor mais popular dos estádios, garanto que fui a boa parte dos jogos do Ceará nesse período. Só abandonei o local do povão, quando recebi uma ligação de Robinson de Castro com um convite para ingressar a diretoria executiva do clube. Depois de muitos anos convivendo nas arquibancadas dos estádios, posso garantir que tenho conhecimento de causa.
Sinto-me frustrado ao ver pessoas que se dizem defensores das liberdades individuais terem posicionamentos contrários a liberação da venda de cerveja nos estádios cearenses. Figuras como o Senador Eduardo Girão e a Secretária Dra. Mayra defendendo uma proibição hipócrita e ineficiente. Conheci Dra. Mayra nos encontros do movimento Livres aqui no Ceará, defender esta proibição certamente não é uma posição liberal e quero acreditar que trata-se de um acerto político.
Quem frequenta os locais mais populares dos estádios de futebol no Brasil sabe que é possível encontrar álcool  dentro dos eventos. A fiscalização eficiente é quase impraticável, uma vez que são milhares de torcedores e não é possível que a polícia consiga revistar todos sem causar transtornos incalculáveis ao evento. A polícia não tem a responsabilidade moral com o que passa, pois a culpa é da proibição e não de uma fiscalização impossível de ser realizada. Ao redor do estádio e assim como em toda a cidade, a venda de bebidas segue liberada.
Como não é possível consumir cerveja dentro das arenas desportivas, os torcedores ficam do lado de fora confraternizando até minutos antes da partida, decidindo adentrar ao estádio em cima da hora. Não há estrutura que suporte milhares de pessoas entrando ao mesmo tempo no estádio. Muitos transtornos são causadas por esse comportamento, só quem vive a realidade dos jogos é testemunha de tais episódios. Para quem teve a oportunidade ir a um jogo da Copa do Mundo, lembra que o processo de entrada é lento e gradual, tudo pelo conforto.
Torcedores sofrem, a polícia sofre, os organizadores do evento sofrem. Sair de casa para acompanhar seu time do coração se torna uma aventura e afasta torcedores das partidas, uma vez que não há conforto e a qualidade do serviço é precário, devido a impossibilidade de controlar milhares de pessoas entrando em poucos minutos.
O estado do Ceará investiu muitos milhões em um equipamento que é subutilizado. A arena tem restaurante, bares e toda uma infraestrutura que simplesmente não são usados e quem arca com tudo isso são os pagadores de impostos. Se não é possível almoçar e tomar sua cerveja antes do início da partida, muitas pessoas simplesmente não vão. Não adianta investir na divulgação da partida e nem menos aproveitar a bela esplanada existente no local, se os amantes do esporte bretão não puderem consumir uma bebida de baixo teor alcoólico de forma consciente e aproveitar o evento como um todo.
Acredito que muitos que são contrários a liberação não devem conhecer a realidade futebolística, mesmo se tratando do ex-presidente e senador tricolor, que costumeiramente misturava futebol e religião. Aqueles que frequentam e conhecem o esporte, mesmo os mais religiosos, sabem que não há relação entre a violência e o consumo de cerveja. Há diversos atores da cena do futebol, se posicionando contra, cedendo a pressões alheias ao que realmente importa.
Analisando pragmaticamente como é a realidade ignorada pelos defensores da proibição, pode-se definir que:

  • Os pagadores de impostos cearenses, ou seja, todos nós, pagamos para a construção de um equipamento de altíssima qualidade, porém subutilizado, uma vez que a proibição do consumo de cerveja nas dependências da arena, coíbe a entrada dos torcedores horas antes do início da partida, ignorando todas as opções de lazer que poderiam ser oferecidas pelo mandante do jogo. Esquece-se que a arena é multiuso e voltamos aos tradicionais estádios da década de 1990.
  • Os torcedores que decidem ir, costumam consumir cerveja em dias de jogos permanecem do lado de fora da arena, bebendo até minutos antes do início da partida, já que dentro não conseguirão. Milhares de pessoas decidem fazer o mesmo, tornando impossível a boa operação do evento, uma vez que uma multidão decide adentrar ao mesmo tempo. Mesmo com todos os portões abertos, o equipamento não foi projeto para isso.
  • Muitos decidem entrar ao estádio com sua própria bebida, por motivos óbvios, é inviável tentar consumir cerveja. Logo, centenas de aguardentes entram escondidos pelo corpo e roupa das pessoas.
  • Não é possível culpar a fiscalização dos seguranças e nem da polícia, uma vez que é impraticável fazer uma revista eficiente sem causar transtornos ao evento. A ansiedade dos torcedores de entrarem antes do início da partida faz muitos perderem a paciência.
  • É impossível relacionar paz ou briga de torcida com o consumo de cerveja dentro dos estádios, já que muitos entram alcoolizados e outros tantos consomem cachaça que levaram escondido. Esta relação é impossível de ser associada, pois na prática, muitos já  não estão sóbrios. E como não há regulamentação, não há dados factíveis que comprovem a relação, achomêtro não vale.

Com a liberação, os dois maiores clubes do Estado na primeira divisão nacional terão mais recursos diretos e indiretos, certamente muitas pessoas serão empregadas, em um momento tão delicado do país.
Defender a proibição é antes de tudo, prejudicar os mais pobres, os clubes seguirão sendo apoiados por seus torcedores, os dirigentes dos clubes seguirão com suas vidas e os torcedores mais aficionados continuarão acompanhando seus times. Mas manter fechado um novo mercado pulsante por faturamento, baseado em dados que não são verídicos, é abrir mão que pessoas desempregadas tenham oportunidade de trabalho.
Defender a proibição, seja por ignorância ou por facciosismo, é empurrar a poeira para debaixo do tapete.
Defender a proibição é saber que todos perdem, especialmente os que mais precisam.
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