Se você pudesse comer só uma comida até o fim da vida, o que você ia escolher? A pergunta vem do meu neto de 8 anos. Imagino que ele esteja testando a questão comigo, tendo em vista sua expectativa de que o meu fim da vida esteja mais próximo do que o dos seus pais e dos irmãos, tendo eu, portanto, uma resposta mais rápida a apresentar.
Não tenho resposta pronta para atender à curiosidade dele. Abro e fecho a boca feito um peixe na areia da praia e não encontro o que dizer.
Comida nunca foi meu forte. Fossem os meus depender de mim para definir o cardápio diário estariam sujeitos a ovos mexidos e sardinha em lata, ou algo igualmente sem imaginação. Quando sou consultada pela minha querida Maria a respeito do almoço do dia recorro a um apelo que julgo estimulante: Surpreenda-me! – é o que digo, sem maiores pudores.
E se eu realmente precisasse escolher um prato único para comer até o fim dos meus dias, como aguarda meu neto, os olhos fixos no meu rosto indeciso, o que eu escolheria?
Com certeza nada de carne bovina. Não sou vegetariana, mas não sou carnívora. Não existe em mim o desejo pelo ato quase antropofágico de mastigar a carne de um animal, de triturar entre os dentes aquela matéria emborrachada, esguichando sucos que foram vitais. A visão de um bife sangrento, de um bloco sólido de carne assada, de qualquer parte do que um dia constituiu o corpo de um boi, cortado em fatias sobre uma travessa na mesa, me traz definitivo mal-estar.
Frango me parece um tanto mais palatável, embora ainda não seja o que eu comeria até o final da vida. Carne branca, sem marcas explícitas do que deve ter vivido a pobre ave nos cercados da granja, sem sinais dos hormônios ingeridos, da engorda forçada, ainda assim tal sofrimento pesa menos no estômago e na consciência. O mesmo com peixe, especialmente se eu conseguir tirar do pensamento seus olhos em pânico, seu arfar de afogado no oxigênio que respiramos.
Elimino de antemão os mariscos e os frutos mais sofisticados da vida marinha. Nada de ostras, camarões, polvos, mexilhões ou lagostas: possuem suas qualidades, é certo, porém devem ser impossíveis de suportar a longo prazo. Ou pelo menos por mais uma, quiçá duas décadas.
Fala, vó! – meu neto insiste enquanto descarto as opções gastronômicas.
Ele, eles, meus netos, me tratam por você, ou mesmo por tu, sem as cerimônias que tínhamos nós para com os nossos avós. Não têm elas, as crianças de hoje, a mais vaga ideia do que era nosso dever, o de beijar o dorso da mão desprovida de colágeno dos avós, simular um beijo e tomar a bênção: Bença, vovô! Bença, vovó! Era sagrado, o procedimento.
Se descartei a carne de gado, do frango e do peixe, e se meu neto aguarda um retorno, resta-me o caminho dos laticínios, dos legumes e vegetais para compor meu prato usque ad mortem, como diriam os romanos, até à morte.
Queijo. Amo queijo, um amor vindo pelo DNA da minha avó Dolores, a mãe do meu pai, que quando criança se escondia na despensa da sua casa de muitos quartos, na serra de Guaramiranga, para roer os queijos de coalho recém-chegados. O que me leva à queixa de um amigo, que uma vez reclamou comigo: Você gosta de queijo, mas não sabe nada sobre a produção deles! Eu de fato não sabia, nem sei, como é feito o queijo prato, o mussarela, o roquefort, o gouda, o brie –, mas quem é que sabe explicar como é produzido o amor?
A impaciência do meu neto chegou ao limite. A mãe passa por perto e ele aproveita para trocar de interlocutor, perguntando que prato ela comeria até o fim da vida. Preparo-me para sair, deixando os dois empenhados na discussão. E por ter tratado tanto dos avós, na porta de saída lembro de um desejo da minha avó materna, Maria de Lourdes, a quem chamávamos Mãeoutra pois se negava a ser chamada de avó.
Vai chegar o dia em que não vamos precisar mais fazer almoço nem jantar – previa ela, pelos idos dos anos 1930. Um dia em que tudo que se precisa de alimentação vai estar concentrado em um comprimidinho que vamos engolir com água, dispensando a trabalheira de talheres, pratos, panelas, e a sugestão do que comer.
Ainda penso em dizer isso ao meu neto, que já sumiu da sala. Talvez ele veja esse dia, da comida em pílulas até o fim da vida. Por enquanto, basta a curiosidade de saber qual vai ser a surpresa do almoço de hoje.

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.







