Povo – democracia = democracia – povo. Ou de como poucos podem falar em nome de muitos e muitos podem seguir a “des-razão” da retórica de tão poucos.

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Paulo Elpídio de Menezes Neto, é articulista do Focus, cientista político, membro da Academia Brasileira de Educação, Rio de Janeiro; ex-reitor da UFC, ex-secretário nacional da Educação superior do MEC; ex-secretário de educação do Ceará.

Paulo Elpídio de Menezes Neto
Cientista Político
Giovanni Sartori (1924/2017) construiu brilhante teoria da democracia, nela transparece o seu compromisso com as liberdades em uma sociedade aberta. Notabilizou-se o grande pensador pelo empenho na defesa do equilíbrio indispensável entre os diversos poderes nas sociedades democráticas. Sartori confessou, certa feita, em conversa com jornalistas, ter procurado “a vida inteira, observar bem a política, com toda a honradez possível, e fazê-la compreendida pelos cidadãos”. Poucos pensadores, intelectuais, jornalistas, formadores de opinião pela imposição do ofício, poderiam valer-se de confissão tão singela quanto honesta — e repetí-la sem corar.
Interrompi a leitura de “Homo videns, la sociedad teledirigida”, dominado pelo medo, sobressaltado pelas amargas dúvidas diante do desafio de aviar juízos e certezas, a que nos entregamos na afoita tentativa de sobreviver às armadilhas dos debates que nos aprisionam, dentro e fora da academia. É que, sem nos darmos conta dessa atitude intelectualmente suspeita ou quando temos consciência de tê-lo feito, deixamo-nos conduzir pelas lealdades ideológicas ou pela vaidade que vence a prudência e o bom senso crítico. A arte do convencimento dá seus passos iniciais com o convencimento de quem pretende convencer os outros, empurrando-os dominados pela crença firme em suas ideias e na sua indiscutível honestidade intelectual. As boas intenções de que somos imbuídos justificam as nossas ações “redentoras”.
Tentei fugir à sedução das provocações que nos amarraram, nós brasileiros incautos, a enganosas questões provisórias, nestas últimas semanas. Vivemos por esses dias tumultuados ao longo dos quais a razão perdeu de 7×0 e a lógica foi afogada pela audácia de mentes indigentes de ideais, porém graves na armação da suade esperteza.
Repetidos e usados, os propósitos verbais e retóricos fizeram-se enigmas, gastos de tão repetidos, porém muito vivos e recalcitrantes, indiferentes aos nossos humílimos instrumentos de lógica e racionalidade. Essas virtudes, que afirmam os entendidos serem atributos humanos, reconhecidamente humanos.
Que assim seja: comecemos por uma reflexão apropriada de um poeta-filósofo mexicano de limitada audiência, Julio Hubard (“Presentes sucesiones”): “A democracia não é uma estrutura de pedras, mas de palavras”; e não apenas de conceitos, acrescentaríamos, porém de consensos e dissensos, de ideias e propósitos. Não se levanta o edifício democrático com a singularidade da régua e do compasso, a construção dessa morada coletiva não é a projeção simplória de cálculo e esbatimento de planos.
Mesmo que não seja feita de “tijolo com tijolo num desenho mágico”, a democracia não pode ser, entretanto, um edifício levantado apenas com regras e conceitos jurídicos, qual biscoitos adocicados molhados em brocardos e velhas citações Latinas. A democracia é a matriz de desejos e aspirações comuns, é ideal cultivado com tenacidade. O ethos democrático traduz-se na expressão real, escoteira de expectativas múltiplas, não cabe na caixinha de segredos de formulações jurídicas retóricas, não pode, assim, ser aprisionado na visão canhestra dos pretórios excelsos ou reduzido a sentenças monocráticas em cuidada fala barroca. A democracia não há de ser sequestrada pela esperteza dos construtores da governabilidade de gabinete que medra e se expande ao alento de anseios pacificadores suspeitos, irrigada pelos favores, benesses e indulgências cúmplices dos atores do poder do Estado.
Democracia é povo, são votos, expressão da vontade dos cidadãos, instância de base de onde se extrairiam mandatários conscientes de sua representação. O povo é o genérico da cidadania, resulta do conjunto de pessoas supostamente organizadas, conscientes de suas responsabilidades políticas, pagadores recalcitrantes de impostos que mantêm vivas as utopias republicanas, tolerantes com os mecanismos que as justificam e governam, indiferentes, muitas vezes, à força do papel que lhe confere legitimidade na defesa dos ideais coletivos. Se dos acertos e dos pactos sociais envolventes não se criarem relações estáveis e respeitadas, despontará, a seu tempo, o risco de um trágico desencontro na sociedade, com a quebra incontornável da unidade simbólica do povo. Improvável que essa ruptura não se dê, em situação assim extrema, com o rompimento do equilíbrio do poder no Estado. Desse conflito — não são poucos os exemplos que a História nos traz–, nascem, do poder político esvaziado de seus protagonistas, a ameaça, sempre renovada na sociedade dos homens, de que parte do conjunto pretenda funcionar como a totalidade da comunidade, cenário figurado por Ernesto Laclau, (teórico político argentino, 1935/2014), com a plebs reclamando a condição de populus único, legítimo.
Não por acaso, Gramcsi enxergou no papel estratégico conferido aos intelectuais “orgânicos” a mediação capaz de alterar as regras do jogo democrático, com o recurso de ações culturais e relatos políticos que alterem as mentalidades e operem a redefinição de identidades coletivas.
Afinal, os regimes políticos, lembra Murilo de Carvalho, buscam a sua legitimação na construção do imaginário que criam e manipulam.  É de Mirabeau a lição reveladora: é preciso que o povo conheça os desígnios dos governantes, que o povo neles acredite e os ame, é imperioso apoderar-se da imaginação do povo. Ocorre-me, a propósito, referência irônica feita por Javier Marías às novas formas de manipulação das pessoas, hoje em dia, exercidas pela mídia e pelas redes sociais. E perguntava-se, entre divertido e surpreso: “Pense o que Goebbels teria feito com o Twitter…”. As armas da sedução, no plano político, multiplicaram-se nas palavras e nos símbolos, nos mecanismos da “contra-realidade” que modelam o consciente e o inconsciente coletivos. A aparelhagem “orgânica” das ideologias e das múltiplas formas de militância em nível da ação política, mediante a palavra de agentes da opinião, substituem os fatos, a razão e a lógica. A realidade “real” é aquela que se constrói a partir do domínio da imaginação, atribuída, outrora, ao “povo”, essa entidade surrealista que persiste, com perfil mítico, nas figuras do discurso político.
A opinião pública é gerada em nossa civilização virtual pelas “fake news” e as “post-true”, senhoras modeladoras do passado e anunciadoras do futuro.
 

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