Quanto a eleição vira o assunto principal; Por Ricardo Alcântara

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Cena interna. Dia.
Dentro do elevador, escuto a conversa de duas vizinhas:
“Quando é mesmo a eleição?” – perguntou, alheia às notícias.
A amiga respondeu: “Depois desse domingo, no outro”.
E ela, surpresa: “Já?”
A outra riu e confirmou: “Pois é…Já!”
“Nossa, passou rápido…” – a de saia azul comentou, quase pensando em voz alta.
A porta do elevador abriu e se foram, conversando pelo corredor.
…..

É a vibe da hora: as pessoas, enfim, passam a pensar a eleição como fato concreto, que demanda uma atitude, e o processo eleitoral deixa de ser apenas uma comunicação entre candidatos e eleitores e começa a ser também mais frequentemente uma comunicação horizontal, entre os próprios eleitores que buscam informações confiáveis em seus núcleos de relacionamento para uma escolha consciente.

O processo, então, adquire maior autonomia. A soberania popular que caracteriza uma eleição adquire materialidade. O eleitor se apropria das informações circulantes e metaboliza as controvérsias do embate num esforço pragmático de uma escolha comparativa do qual nem sempre extrai uma sensação de contentamento. Não. Nem sempre se trata de optar com entusiasmo. Às vezes, trata-se de evitar o pior.

No Ceará de hoje (21/9), é razoável supor que os candidatos ao governo estadual se encontrem empatados em intenções de votos ou separados por uma pequena margem. Ciro Gomes se mostrou resiliente, lastreado numa biografia que, malgrado seus percalços, a população respeita, e conseguiu atenuar o impacto das contradições políticas de sua candidatura. Elmano de Freitas fez valer cada argumento multiplicado em sua defesa: apresentou-se como um homem sério, trabalhador e comprometido com um projeto de inspiração popular.

Em suma, a narrativa eleitoral está concluída. Em termos simples: tudo já foi dito. E o que alcançará os segmentos ainda não envolvidos com o processo será o que já está posto. Não parece haver, em nenhum dos lados, “bala de prata” que possa reverter severamente o quadro. A disputa é apertada. O Ceará tem um governo acreditado, isento de escândalos ou desmantelos, mas a oposição, agora mais coesa, se fortalece no caudal dos déficits crônicos – de segurança, de atenção e de oportunidades.

Contudo, para abreviar a ocupação de seu tempo, leitor, recorro a uma metáfora, já em busca de uma conclusão: os adversários chegam empatados ao jogo final da disputa, é verdade, mas o candidato que já é ocupante do governo joga essa última partida em casa. Ele conta, em seu favor, com a posse do recurso final de campanha: capilaridade, um potencial muito maior de se fazer presente nos territórios no exato momento em que intenções se transformam em decisão de voto e os indecisos buscam informações que possam orientar seu voto.

Com um governo bem avaliado, em torno de 60% de aprovação, e uma base ampla de apoio nos municípios, seus braços são mais longos e mais fortes. Ciro Gomes é o mais experiente político cearense em atividade e certamente vai concordar comigo, embora não deva dizê-lo: como candidato de oposição, ele precisará chegar às últimas 72 horas da campanha portando um excedente de votos em torno de 5% de vantagem sobre seu adversário porque, naquele momento, um número muito maior de pessoas estará mobilizado ordenadamente para levar ao eleitor, como estímulo final, o nome do governador Elmano, seu adversário – Ciro bem o sabe.

O que o candidato da oposição fará para abrir a banda de segurança dessa vantagem, não sei. Mas este é o momento em que não se pode errar. Uma palavra fora de lugar, uma frase perdida pode colocar tudo a perder. É isso é pau que dá em Chico e dá em Francisco. Ao fim, o eleitorado vai decidir se arrisca um prometido “up grade” ou se, prudentemente, aceita que as coisas continuem melhorando num ritmo inferior às suas urgências.

Ricardo Alcântara é escritor, publicitário, profissional do marketing político e articulista do Focus.

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