Razão contra os grilhões do fanatismo; Por Walter Pinto Filho

COMPARTILHE A NOTÍCIA

“Não me façam crer à força — a violência é sempre uma confissão de fraqueza.” — Voltaire

Sempre que se discute a existência de Deus, ressurge a velha sentença — quase sempre entoada com reverência: “Se Deus não existe, tudo é permitido.” Atribuída (imprecisamente) a Dostoiévski, essa ideia virou dogma entre os que enxergam na fé a última barreira entre o homem e a barbárie. Trata-se de um raciocínio cômodo — e perigoso.

A convivência civilizada se apoia em leis, pactos morais, tradições seculares — e, sobretudo, no senso de responsabilidade compartilhada. Nenhuma dessas colunas exige fé religiosa como pré-requisito. A ética não pertence à religião. É perfeitamente possível ser bom sem crer — assim como é possível crer e continuar sendo um canalha. Muitos que creem o fazem com dignidade e vivem com decência, sem impor sua fé a ninguém.

A história escancara o que a fé cega é capaz de produzir: cruzadas, fogueiras, perseguições, degolas, atentados, linchamentos. Basta olhar para o passado — ou para o Oriente Médio de hoje. Quando a fé deixa de ser escolha e vira imposição, o altar se transforma em cadafalso. O que se chama “zelo espiritual” é, por vezes, apenas sede de controle. Matar em nome de Deus é a forma mais demoníaca da revelação de um fanático. Hilário, bispo de Poitiers, já advertia: “Uma ignorância total de Deus é melhor do que uma fé equivocada.”

Fanáticos, porém, odeiam o caminho. Querem um reduto de adoradores. Desprezam o cético, hostilizam o diferente e se sentem escolhidos. Mas, como sempre digo: fuja do fanático — ele se diz escolhido, mas não passa de um órfão da razão.

Nietzsche escreveu, com desdém contra a chantagem teológica: “Prometer o céu a uns e o inferno a outros” — eis a linguagem do medo, não da verdade. O filósofo não atacava a espiritualidade, mas o uso da fé como freio ao pensamento. Em nome da convivência, uma verdade se impõe: ninguém é obrigado a amar o próximo — mas o respeito é irrenunciável. E o respeito começa onde termina a imposição.

Países como Noruega, Suécia e Dinamarca — com população majoritariamente descrente ou de religiosidade branda — são seculares, livres e apresentam altos índices de desenvolvimento humano. Vivem em relativa paz, com ordem social e baixíssimos níveis de criminalidade. Provam, na prática, que a moralidade não depende do altar — mas da maturidade, do discernimento e da responsabilidade. Isso não torna a fé inútil, mas deixa claro: ela não é o único antídoto contra o caos.

Quando a fé é livre, a lucidez respira. Quando é imposta, sufoca.

A escolha é clara: ou caminhamos como pensadores racionais — com luz e liberdade — ou acorrentados por medos alheios.

Walter Pinto Filho é Promotor de Justiça em Fortaleza, autor dos livros CINEMA – A Lâmina que Corta e O Caso Cesare Battisti – A Confissão do Terrorista. www.filmesparasempre.com.br

 

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Atlas/Focus: Elmano avança entre os mais velhos e nas faixas de maior renda; Ciro concentra vantagem entre jovens

Atlas/Focus a seis dias da eleição: Elmano 49% x Ciro 47,6%

Coligação de Ciro Gomes tenta barrar pesquisa Atlas/Focus, mas TRE rejeita e impede censura

Atlasintel: A polícia e a confiança que ainda resiste

Atlas/Focus: Lula mantém vantagem larga no Ceará, mas avanço de Flávio reduz distância

Atlas + Focus: Cid lidera consolidado, Luizianne encosta e Wagner mantém disputa aberta entre os três primeiros

Focus/Atlas: O placar muda com Elmano 48,5% x Ciro 48% e disputa entra na reta final em claro empate técnico

Entenda a super sexta-feira: três pesquisas e três fotografias em uma disputa que continua aberta

O fundamento da crise se deu quando a política passou a pedir ao Supremo que resolvesse a política

Alerta: IA se organiza sozinha, forma uma “gangue” e ataca

Três pesquisas medem o mesmo Ceará e encontram distâncias diferentes entre Ciro e Elmano

Focus + Atlas para o Senado: Cid e Luizianne empatam na liderança; Wagner e Alcides travam disputa pela direita

MAIS LIDAS DO DIA

Ciro Gomes e o Ceará de hoje; Por Ricardo Alcântara

A banalidade do esquecimento e da recordação; Por Paulo Elpídio de Menezes Neto

Contrata+Brasil chega a Fortaleza com foco em pequenos negócios

Quaest: três medidas recentes de Lula, incluindo bets, têm apoio da maioria na reta final da eleição

Siará Tech Summit 2026 transforma o Centro de Eventos no Pavilhão da Inovação

Coligação de Ciro Gomes tenta barrar pesquisa Atlas/Focus, mas TRE rejeita e impede censura

TSE trava campanha de Roberto Cláudio e Wagner

Atlas/Focus a seis dias da eleição: Elmano 49% x Ciro 47,6%

Atlas/Focus: Elmano avança entre os mais velhos e nas faixas de maior renda; Ciro concentra vantagem entre jovens