Um olhar liberal-conservador sobre os dias atuais, por Leopoldo Cavalcante

COMPARTILHE A NOTÍCIA

Leopoldo Cavalcante é criador/autor do @resenhador e articulista de cultura do Focus. Estuda Jornalismo na Cásper Líbero (SP) e Direito no Largo São Francisco (USP).

Em seu ensaio sobre o ensaio “O ensaio e seu tema”, César Aira define o gênero como a busca de um elo entre dois assuntos aparentemente desconexos com um estilo descontraído. Seria, portanto, traçar uma linha torta para conectar pontos distantes. A linha seria torta pela ausência de embasamento rigoroso de um trabalho científico, mas ainda seria uma linha pela necessidade de ter uma direção. Desta forma, não poderia entrar no âmbito da arte abstrata poética.
Outra característica fundamental do ensaio seria a escolha do tema antes da escrita. Em circunstâncias ideias, o ensaio já está pronto antes mesmo de se escrever. Na cabeça da ensaísta, já se sabe qual a tese e qual o caminho a se seguir. Só precisaria, portanto, ligar os pontos. Não é preciso ter citações ou referências, regras ABNT ou ceticismo científico, maior causador de mudanças de opinião durante um trabalho. No ensaio, nada separa a tese da hipótese.
Gosto da definição do César Aira principalmente na falta de rigor que ele a concede. O ensaio sobre o ensaio continua um ensaio, tendo todos os “defeitos” do rigor metodológico enriquecendo ou empobrecendo a tese final. Peço que me perdoem pela digressão, mas ela tem motivo de ser.
No seu novo livro “Um olhar liberal-conservador sobre os dias atuais”, Catarina Rochamonte nomeia o subtítulo de “ensaios políticos e morais”. O jogo dialético da ensaísta vai se pautar, portanto, no binômio política e moral. Mas já antes, no título, temos dois termos que, para o resenhista que vos fala, são distantes e, quiçá, contraditórios.
Liberalismo e conservadorismo, para os puristas como eu, têm significado muitas vezes díspares. Quando me deparo com ideias com as quais estou desacostumado – ou com as quais já tenho algum ressentimento quase irracional -, exercito abstrair julgamentos prévios e tentar entender o que o autor, ou a autora, quer contar. Em ensaios, essa abstração é paradoxalmente simples e complexa. A simplicidade pode estar na linguagem e no contato com o tema. Quando bem exposto, numa escrita aprazível e límpida, o confronto com o desconhecido é suavizado pelo deleite estético da linguagem. A complexidade, por outro lado, é de fugir do canto das sereias de uma escrita inebriante. Penso aqui em autores desde os marxistas – Marx era um grande escritor; Benjamin também. Adorno, nem tanto – até os liberais – Schumpeter junta teorias complexas com uma prosa elegante. Vargas Llosa, como propagador liberal, é hors-concours no manuseio da linguagem. Para o leitor, o deleite estético pode ser protagonista. Para o crítico, nem tanto.
Deve-se apontar para a beleza da forma no livro da Catarina Rochamonte. Uma graça similar vi em alguns textos do Olavo de Carvalho. Ao ter como objeto a tradição – e uma defesa dela -, nada mais adequado do que uma escrita densa, sem descambar para o simplista ou automático. Mas, ainda assim, fugindo do pernóstico e do truncado.
De certa maneira, alguns ensaios dão a impressão de obra panfletária. Nessas, a falta metodológica própria do ensaio permite uma a expansão dos binômios em conflito no texto com um caráter amigo x inimigo. Penso em “O ideal democrático do ocidente e a ameaça do marxismo”, “Papa comunista? ateísmo cristão?”, “O Brasil, os políticos e o espelho” etc. No primeiro dessa lista, a noção de justiça como algo transcendental (amigo) é diretamente contraposta a de justiça material, ideia classificada como marxista (inimigo). A mesma contraposição aparece no segundo texto, no qual o cristianismo (amigo) é posto contrário ao ateísmo (inimigo). O jogo de oposto repete-se na maior parte dos textos.
Essa escolha estilística de apontar um bom caminho contra um desvio é onde a verve conservadora-cristã da autora está mais presente. Todavia, onde estaria o liberalismo?
A primeira parte da divisão liberal-conservador aparece, principalmente, nas questões relativas ao Estado. Pede-se razoáveis limitações ao poder estatal em “O indivíduo e o Estado” ou “Paternalismo estatal x liberalismo”.
Em geral, a autora se foca no sentido econômico do liberalismo. Pontualmente, as discordâncias de gênero aparecem numa chave liberal. No texto “A instrumentalização da homossexualidade”. Catarina aponta a banalização do sexo, independente da vertente seguida pelo individuo, como corriqueira e banal. Para a autora, fazer alarde público por um desvio sexual é desnecessário. A relação que se deve ter é de aceitação dos homossexuais, seguindo a decisão tácita de nossa sociedade. Tendo em vista que o que importa é a atitude subjetiva do individuo, a autora critica a suposta propagação midiática e da homossexualidade com auxílio do Estado. Nessa chave liberal, o conjunto de homossexuais não existiria como todo coeso, tendo diferenças entre os membros (leia-se, indivíduos) e, por isso, sendo impossível de assumir um posicionamento único. Nessa base, quem é criticado são os movimentos ditos representantes de um gênero, mas não a sexualidade. Com algumas ressalvas, concordo com a autora quando ela afirma que tanto “o sacerdote que esbraveja contra a concessão de direitos aos homessexuais” quanto “o homessexual que cospe no mundo ao invés de tentar obter o respeito e a admiração dos seus amigos” são igualmente dignos de pena.
Como considerações finais, volto ao começo. Da forma como César Aira define um ensaio, podemos dar uma qualificação dele como bom ou ruim dependendo da maneira que aborda os binômios expostos. Nesse sentido, minha leitura foi guiada no sentido de entender o que a autora define como liberal-conservador. No caso específico desse livro, e posso estar equivocado, o liberal tem sentido político (relação com o Estado, polis) e o conservadorismo é da ordem moral, priorizando a ética transcendental e cristã. Só que, quando se juntam, os dois pedem uma ação militante. Deve-se ir ao Estado para diminui-lo e precisa-se tomar a mídia para “desesquerdizá-la”. E, assim, combate-se o mal.
Bem, no plano das ideias, tenho diversas discordâncias com a autora. Digo isto não para desvalorizar a obra, mas, pelo contrário, realçar que ela entrega o que promete. No final do livro, o leitor consegue apreender as lentes liberal-conservadoras e tem a percepção de como a filosofa vê o mundo, desde os detalhes da organização social e econômica até a busca pela justiça transcendental.
 

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Atlas/Focus: dobradinha Cid-Luizianne soma 59,6% dos votos válidos para o Senado

Atlas/Focus: Elmano 49,9% x Ciro 49,6% dos votos válidos; Ceará chega à urna separado por um fio

Focus/Atlas: Aprovação de Elmano vira a favor; Avaliação do governo melhora, mas continua dividida

Atlas/Focus: Cid e Luizianne nas duas primeiras posições no Senado; dupla abre vantagem sobre Wagner e Alcides

Atlas/Focus: Elmano avança entre os mais velhos e nas faixas de maior renda; Ciro concentra vantagem entre jovens

Atlas/Focus a seis dias da eleição: Elmano 49% x Ciro 47,6%

Coligação de Ciro Gomes tenta barrar pesquisa Atlas/Focus, mas TRE rejeita e impede censura

Atlasintel: A polícia e a confiança que ainda resiste

Atlas/Focus: Lula mantém vantagem larga no Ceará, mas avanço de Flávio reduz distância

Atlas + Focus: Cid lidera consolidado, Luizianne encosta e Wagner mantém disputa aberta entre os três primeiros

Focus/Atlas: O placar muda com Elmano 48,5% x Ciro 48% e disputa entra na reta final em claro empate técnico

Entenda a super sexta-feira: três pesquisas e três fotografias em uma disputa que continua aberta

MAIS LIDAS DO DIA

Ceará registra maior crescimento da votação bolsonarista no Nordeste desde 2018

Bancada feminina no Congresso será a maior da história

Uece lidera indicadores de ensino e pesquisa entre estaduais do Norte, Nordeste e Centro-Oeste

Bets começam a sair do ar nesta terça-feira após proibição de operações no Brasil

Professor. Foto: Divulgação/Governo do Estado

Ceará tem melhor avaliação da rede pública de ensino entre estados, aponta pesquisa

Emplacamentos de veículos batem recorde para setembro, com 509,7 mil unidades

A sede de mudança; Por Assis de Mesquita Ciríaco

Lavareda vê “ilusão de ótica” no 1º turno: Lula perdeu para a abstenção

Ciro Gomes não reconhece derrota e acusa: “Fomos roubados”