“Vale quanto parece”: marketing político em tempos de internet; Por Justino Barros

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Por Justino Barros

Sou profissional de marketing há mais de 30 anos. Ruim falar isso porque entrega logo a idade do sujeito. Bom, lá atrás, nos primeiros cursos na área, fomos advertidos pelos mestres com frases dizendo assim: “o cliente tem sempre razão”, “não adianta melhorar o produto se o cliente não perceber”, culminando com uma frase muito bem cunhada por um diretor com quem trabalhei, o Eugenio Pontes, que repetia quase como um mantra: “Qualidade que o cliente não percebe, não é qualidade, é custo”. Conseguem perceber a sutileza desta afirmação?

Mas o que isso tem a ver com o Marketing político? É a pergunta que não quer calar. Para responder precisamos entender alguns princípios do trato com clientes. Um dos pontos importantes é saber que o cliente, quando busca consumir um produto, ele tem uma necessidade, um desejo, uma ansiedade que o trouxe até este momento.

Há uma motivação que o levou ao momento de compra, e quando uma loja, um site ou qualquer player não consegue atender essa necessidade, não consegue vender, precisa ter uma solução satisfatória. Mas é só isso? Ter a solução resolve o processo de vendas? A história das empresas responde que não.

Muitas empresas têm soluções fantásticas que, por inúmeros motivos, acabam nem chegando ao consumidor, seja pela falta de comunicação, seja por campanhas de marketing ineficientes, seja porque um dirigente internamente disse que não acreditava na ideia, ou seja, porque o consumidor simplesmente não percebeu os benefícios que aquela solução traz.

Agora sim, estamos prontos para trazer isso para o universo do marketing político, que se baseia em 3 pilares fundamentais:

  1. PODER FINANCEIRO – hoje é praticamente impossível encarar qualquer tipo de campanha sem um bom orçamento. Por isso a briga ferrenha pelo aumento das cotas eleitorais para os partidos – mas como esse tópico não é objetivo deste texto, não vou me deter muito.
  2. ENTENDIMENTO DE NECESSIDADES – o eleitor se alimenta, dorme, trabalha, namora, se diverte e enfim vive um dia a dia repleto de situações diferentes. Nesse dia a dia, enfrenta uma série de problemas, desejos e paixões, cabendo ao mkt eleitoral entender e formular um discurso, uma estratégia que de alguma forma ofereça uma solução para esses problemas.
  3. PERCEPÇÃO DO ELEITOR – por fim, o mais importante dos três. Não adianta ter dinheiro, ter a solução, se o eleitor não perceber que essa solução é a melhor para a sua vida, essa é chave de tudo.

Digo tudo isso porque estamos vivendo um momento em que as percepções sobre o que é melhor não estão correspondendo as melhores soluções. A internet, como todo mundo já sabe, trouxe a possibilidade da comunicação direta, onde os filtros sociais desenvolvidos ao longo dos tempos, como checagem de fatos e curadorias, foram todos jogados no lixo.

O que vemos é a construção de uma nova ordem de conhecimento e de informação. Um movimento de “contra racionalidade”, por um lado uma ordem de políticos intelectualizados, preocupados de alguma forma com a qualidade do discurso e das soluções, independente do matiz de pensamento, de esquerda ou de direita. Mas que, de um modo geral, sobrevivem de uma parcela mais esclarecida dos eleitores, parcela que não é majoritária da população e de outro lado um discurso antenado com os anseios populares, mas que de forma oportunista apresentam soluções rasas de senso comum, mas que trabalham de forma muito eficiente a percepção da população.

O fiel da balança, para entender o que estou relatando, é o desejo da população, expresso de forma muito clara nas pesquisas de opinião e representada na classe política por esse movimento crescente de extrema direita no Brasil e no mundo.

Na Europa, nas recentes eleições do parlamento europeu, o discurso anti-imigração, nacionalista, racista, misógino e anti-ambientalismo cresceu. O discurso que não questiona a transferência de renda dos países periféricos para o primeiro mundo, que não questiona as raízes históricas do preconceito contra as mulheres e os negros, que não acredita no aquecimento global, ou seja, o discurso das soluções simples ineficazes, mas de fácil percepção que se associa diretamente ao senso comum.

O discurso do “bandido bom é bandido morto”, que diz que “feministas são lésbicas de axila peluda”. Perderam as soluções eficazes, mesmo de implantação complexa, as que tratam os problemas para que sejam resolvidos, e não postergado ou amortecidos, as que, independentemente de serem de esquerda ou direita, propõem a discussão, o diálogo como base para construção de alternativas,

No Brasil, caminhamos na mesma trilha, no mesmo mote, e na batalha pela percepção dos eleitores. O bom senso está perdendo para o senso comum, e esse discurso está se tornando tão forte que as pessoas, para ouvir o que lhes agrada, estão deixando de olhar a prática do dia a dia dos oradores.

Falsos defensores da liberdade clamam por intervenção militar, o falso respeito às mulheres, que condenam mulheres como Maria da Penha a andar com forte segurança, inclusive fornecida pelo estado, e aí vão muitos exemplos que se acumulam na nossa forte, porém bombardeada democracia.

Justino Barros, Formado em economia, especialista em marketing e trade marketing, Diretor da Vibe de Vendas e Sócio da Prodados Pesquisa.

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