Análise Datafolha: sinalizações no buraco negro

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Por Fábio Campos
Vejam só a situação: o Brasil mergulhado numa crise política, administrativa e econômica desde 2014. Em meio ao mais confuso quadro desde a redemocratização, com menos de dez dias de campanha eleitoral aberta, o candidato de extrema direita lidera isolado a corrida presidencial e leva uma facada no abdome que lhe abre o intestino.
Foi nessas circunstâncias que o termômetro do Datafolha foi às ruas medir as condições momentâneas de temperatura e pressão. Havia uma expectativa comum de que Jair Bolsonaro (PSL), o esfaqueado, iria disparar nas intenções de voto. Qual nada.
Pelo visto, os eleitores entenderam que o episódio foi mais um entre os tantos dramáticos de nossa História republicana e presidencialista.
Este é um dos pontos cruciais apontados pelo Datafolha. Os outros são os seguintes: Marina Silva (Rede) esvazia, Ciro Gomes (PDT) mostra fôlego e potencial, Geraldo Alckmin (PSDB) tem seu potente carro seguindo em lenta velocidade e derrapando na estrada íngreme e, por fim, Fenando Haddad (PT) agrega as intenções de voto do eleitorado tradicionalmente petista.
Na leitura fria dos números, Bolsonaro lidera isolado e os outros quatro candidatos estão embolados, tecnicamente empatados em segundo lugar. Nesse bloco, há o registro de dois movimentos fortes, fora da margem de erro e em sentidos opostos: Marina caiu cinco pontos e Haddad subiu outros cinco. Isso, antes de sua candidatura ser oficializada (fato que tende a ocorrer hoje).
Considere-se ainda que o crescimento de Ciro (três pontos) se deu além da margem de erro, que é de dois pontos. Isso o deixou numericamente isolado na segunda colocação. Um feito que pode virar tendência. Mais importante: o número arregimenta forças e energia para os 27 dias que restam.
Na leitura quente, a estocada que feriu Bolsonaro não retirou seu maior obstáculo: a rejeição ainda crescente, mesmo após a facada, que o torna presa fácil no segundo turno. O fato é que, no primeiro turno, a campanha se mantém completamente aberta.
Pelos números do Datafolha e de todas as outras pesquisas, a intenção de voto francamente majoritária no momento é de centro-direita. Bosonaro 24, Alckmin 10, Meirelles 3, Álvaro 3 e Amoedo 3. Só essa soma alcança 43%. Pela esquerda (centro-esquerda?), a soma Ciro, Marina, Haddad, Boulos e Vera chega a 35%.
Os dados acima mostram o quanto a campanha está aberta. Um conjunto de fatores atua concedendo à corrida presidencial características similares às disputas das capitais, tão usuais em movimentos repentinos e de última hora que mudam o jogo exatamente no dia da eleição. Até porque a maior parte desse eleitorado não se liga em questões ideológicas e sua grande preocupação é o cotidiano.
Notem o caso da centro-direita: parte desse eleitorado pode simplesmente se movimentar em silencio e, na urna, migrar para uma opção que considere mais segura. Sim, o chamado voto útil. Atrai para si essa possibilidade o candidato viável com menor rejeição.
Na esquerda já é mais difícil isso ocorrer. A cota do eleitorado lulo-petista, que não é pequena, tem características menos voláteis. Haddad vai crescer com a adesão da fatia que chamo “petista de carteirinha”. Esse eleitor, que age em bloco e de forma organizada, não vota útil em Marina ou Ciro.
O eleitor dos nove estados nordestinos tem um papel determinante no desenrolar da campanha. Lula tinha mais do que incríveis 60% das intenções de voto desse público. Vão para Haddad? Só uma pequena parte. Esse eleitor é lulista, mas não é petista. Está aí a grande aposta de Ciro. No caso, se inscrever como herdeiro do patrimônio eleitoral de Lula. Se conseguir, é fortíssimo candidato a chegar ao segundo turno.
E Bolsonaro? Pois é. O crime do qual foi vítima o tirou da campanha física. Foi um imenso prejuízo para a candidatura. A ebulição de seus seguidores na chagada a cada cidade era sempre o melhor momento de sua campanha. Pelo que se leu do último boletim médico, não haverá mais aeroportos. E já não havia tempo na TV.
Quanto às simulações de segundo turno, essas são mais voláteis. Vão mudando de acordo com o desenvolvimento das tendências do primeiro turno.
Ainda voltarei ao tema durante o dia.
PS. Houve um lamentável erro na construção da notícia inicial preparada pelo Focus acerca do Datafolha. Foi corrigida, mas trataremos do caso com mais foco.

Vamos aos números do Datafolha:

Bolsonaro (PSL): 24%
Ciro  (PDT): 13%
Marina (Rede): 11%
Alckmin (PSDB): 10%
Haddad (PT): 9%
Álvaro (Podemos): 3%
Amoedo (Novo): 3%
Meirelles (MDB): 3%
Boulos (PSOL): 1%
Vera (PSTU): 1%
Daciolo (Patriota): 1%
Goulart (PPL): 0%
Eymael (DC): 0%
Branco/nulos: 15%
Não sabe/não respondeu: 7%

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