Minha filha me liga de tão longe. Vejo dela apenas a testa e o risco da haste superior dos óculos. O rosto está encoberto por duas sombras ondulantes que eu já conheço de outras ligações: um gato gordo, puro pé-duro australiano, e uma gata cinza, de estirpe russa, cujo olho verde se aproxima da câmera com a mesma curiosidade do primeiro hominídeo que viu o fogo. Transformou-se, minha filha, em mais uma cat lover.
Já cheguei a ter oito gatos em casa. Hoje resta apenas uma, que ultimamente deu para se deitar no chão da cozinha, ao pé da geladeira, aproveitando a saída do calor emitido pelo motor. Faz isso à noite. Durante o dia, prefere o piso quente da varanda, como se não percebesse o ardor do sol do meio-dia, um sol para cada cabeça. Deve andar com os ossos gelados, eu penso.
Quando ela chegou às minhas mãos, exatos 21 anos atrás, era um filhote minúsculo, colocada com folga dentro de uma caixa de sapato infantil. Vinha com uma coleira feita de retalhos coloridos, amarrada no pescoço magro. A pessoa que me trouxe o presente explicou a razão: a gata era mantida presa em casa, atada ao pé da mesa da cozinha, porque alguém da vizinhança andava envenenando os animais da rua. Aquela era a única sobrevivente da hecatombe que havia levado, de uma só vez, a mãe e toda a irmandade dela.
Na época, por alguma razão inexplicável, eu hospedava os desabrigados, os órfãos, os abandonados, recebidos de bom grado. A chegada dela não fez diferença, muito embora eu tenha percebido ciúme de alguns residentes, talvez pela beleza especial dela, com o formato triangular do seu rosto, seus olhos claros, oblíquos como os de Capitu. Ganhou de nós o pouco criativo nome de Pequena.
Ela não dava importância a nada. Era tranquila, e se não fazia questão de briga, também não era atraída pela oferta de colo. Não mendigava carinho, apesar de ficar por perto, em volta das pessoas, mantendo a indiferença diante de qualquer tentativa de aproximação.
Com o tempo, foram-se todos eles, um a um. Somente ela restou da malta de felinos.
Depois de tantos anos, o pelo dela, tricolor – branco, amarelo e marrom – arrepiou-se e encheu-se de nós, impossíveis de serem desfeitos. Outro dia, perguntei ao rapaz que dá banhos semanais no meu cachorro se ele conseguiria banhar também a gata, ou pelo menos desfazer os nós. Ele me olhou com um jeito de espanto: nunca tinha visto gato tomar banho. Também nunca presenciei tal cena, mas acredito que não seja tão incomum assim.
Enfim. Vinte e um anos se passaram para ela, o que em idade humana deve significar um século de vida, ou até mais. O andar dela perdeu a elegância com que colocava uma pata atrás da outra, o catwalk das passarelas substituído por passos lentos da cozinha para a varanda, de um calor a outro. A visão não é mais a mesma, os olhos opacos diante da luz. A audição praticamente inexiste. Até o olfato está atingido pela idade, os cinco sentidos se desligando pouco a pouco, as portas das sensações sendo fechadas, como acontece também entre nós, humanos.
Por outro lado, alimenta-se bem, dorme sossegada o dia inteiro, não se pauta por calendários, desconhece relógios outros que não o do seu estômago, e não demonstra a menor preocupação com seu próprio futuro.
À noite, acredito que a escuridão desperte a sua essência felina. Emite miados lancinantes no corredor, como se fosse um bebê chorando alto, ou a sirene de um navio deixando o porto. Talvez recorde as perseguições sofridas por sua espécie, em outros países e outros tempos. Talvez relembre o drama sofrido em sua primeira infância.
Para atender minha curiosidade, consultei o Guiness, o livro de recordes mundiais. O gato mais velho registrado pelos investigadores viveu no Texas, por 38 anos e 3 dias. Hoje, o título se encontra nas patas de uma gata londrina, que comemorou 30 anos em 2025.
Se a minha gata vai viver todo esse tempo, quem há de saber. E se fiz questão de contar ou relembrar essa simples história, em especial para minha filha, foi apenas para antecipar o registro do epitáfio a caminho. Das sete vidas que aos gatos são atribuídas por direito, acredito que ainda resta à Pequena pelo menos uma ou duas delas, capazes de mantê-la por aqui por mais alguns anos, sempre bem-vinda na sua nobre e felina indiferença.

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.







