A desistência da disputa presidencial, por questões pessoalíssimas, do governador Ratinho Jr. (PSD) pareceu ser a pá de cal na rastejante expectativa de uma tal terceira via nas eleições deste ano.
Desde que as eleições presidenciais de 2018 produziram um resultado distante daquilo que sonhavam importantes setores da opinião pública brasileira (sobretudo a “ilustrada” e a “produtiva”) e da classe política (que sonhava em receber o poder do volta depois da queda de Dilma Rousseff), pondo o jogo eleitoral sob a batuta de Jair Bolsonaro (PL) e de Lula (PT), há uma só termo para caracterizar o campo político: polarização.
Não há mais nada ocorrendo, não há mais viés de análise que não recaia, ao fim e ao cabo, na dita “polarização”. Ela serve como explicação e lamento para tudo.
Vemos, em especial, líderes políticos o tempo todo a dela falar. De Sergio Moro (PL), passando por Ronaldo Caiado (PSD) e Luciano Huck até chegar, por exemplo, em Ciro Gomes (PSDB), que gostava de falar, até bem pouco tempo, da “odienta polarização“.
Vocalizando essas e outras lideranças, a grande imprensa se junta ao coro e repete: precisamos sair da polarização!
Por isso que chamam de polarização, por certo, há o fenômeno das lideranças plebiscitárias em democracias de massa, conceito bem trabalhado por Max Weber. Democracias em nações continentais, e em condições de visibilidade via meios de comunicação de massa (e das redes), lideranças são forjadas e mantidas no páreo à medida em que conseguem se comunicar com grandes fatias do eleitorado. É o caso, e ao que parece somente o caso, de Bolsonaro e Lula (a qualidade da comunicação são outros 500).
Mas, no encalço da discursividade anti-polarização vem outra: precisamos de uma terceira via! Onde estará ela?
Terceira via, aqui, por certo não tem o sentido dado, classicamente, pelo sociólogo britânico Anthony Giddens, menos ainda ao “caminho do meio” de Aristóteles.
Para Giddens, em livro intitulado “Terceira Via”, esta se constituiria como uma corrente política de centro que conciliaria medidas de centro-direita e de centro-esquerda, ou seja, ortodoxia econômica com politicas de assistência e liberdade civil (tem governo que fez isso por aqui, correto?). Em outras palavras, na origem terceira via rima como social democracia.
Contudo, entre nós virou sinônimo de outra coisa.
No palco, significa “superação do lulobolsonarismo“, como dizem tantos e tantas por aí; editoriais sem fim assim o dizem. Detrás do palco, significa outra coisa, bastando para tal constatação parar para ouvir o que dizem seus porta vozes.
Neste sábado (28/03), dois textos publicados na grande imprensa revelaram, novamente, o fetiche em torno da tal terceira via; publicados, ambos, em dois veículos que, na história política recente do país, fizeram coro á ideia da “escolha difícil” em torno da polarização.
A revista Veja não podia ser mais límpida, em se tratando de chamada de capa de sua edição semanal:

Tendo o presidente do PSD, Gilberto Kassab, ao centro, representando um sacerdote celebrando as exéquias (rito católico que antecede o sepultamento), vêem-se Ratinho Jr, de um lado (por ter deixado a disputa presidencial em nome de seus interesses políticos no Paraná, afim de assegurar a posteridade de seu grupo no poder), e Ronaldo Caiado e Eduardo Leite de outro, como que a esperaram a sua “hora” – todos diante do caixão onde jaz o morto, o “centro”.
Ora, o que legitima considerar PSD, Kassab, Ratinho, Caiado e Leite como sujeitos de “centro“?
Podemos dizer, sem medo, que todos aí são antipetistas; isso os põe no centro político? Sendo antipetistas estão, também, como antibolsonaristas? Onde e quando atacam, firmemente, o bolsonarismo? Terceira via, então, é a suavização, e uma mera substituição, ao termo antipetismo (ou antilulismo)?
Na matéria, a Veja sugere que o candidato de terceira “deveria priorizar a defesa da democracia, a reorganização dos programas sociais e um plano de desenvolvimento centrado nas novas tecnologias e nas novas relações de trabalho” – essa, ao que me lembro, foi a agenda discursiva de … Lula. Seu slogan de governo falava de “reconstrução” e seu vice fez carreira na direita.
Mas, só será terceira via quem for, antes de tudo, antipetista. Num segundo turno, todos esses postados, hoje, como opções deste espectro terceirista (Caiado, Ratinho, Kassab, para ficar só no PSD) declarariam voto em Flávio Bolsonaro. Voto, este, já anunciado nas “prévias”.
Também neste sábado, em editorial, o Jornal Estadão clamou “a urgência de um projeto nacional sólido“.
Lamentando a saída de Ratinho da disputa presidencial, o texto afirma que “qualquer candidatura alternativa de centro precisa se diferenciar decisivamente de Lula e Bolsonaro, que não disputam a eleição senão para satisfazer seus projetos pessoais de poder”.
Os adversários, por certo, o fazem por doação à humanidade.
Para o jornal, O Brasil precisa de “uma alternativa que se descole tanto do populismo da esquerda quanto da vassalagem ao bolsonarismo, à qual nomes de centro e de direita ainda se mostram atados”.
Aqui está o ponto chave: a vassalagem da direita ao bolsonarismo. É aqui que mora a razão de ser da inexistência de candidatos fortes de direita, da direita democrática, que escolheu estreitar relações com o bolsonarismo Brasil à fora, mesmo como a intentona golpista e com os atos do 08 de janeiro de 2023. Era esse o momento de separar-se, e mostrar-se como “opção” de centro (terceira via) ao eleitorado.
Contudo, no Congresso e nos estados, a direita democrática escolheu um dos “polos”, dando vigor a este, enquanto, estranhamente, criticava a polarização.
Lamentavelmente, o fetiche continuará a dar a tônica dos discursos, enquanto a prática orientará os terceiristas rumo ao colo de Flávio, numa escolha sempre muito difícil.







