2026 Ceará: Fortes emoções; por Ricardo Alcântara

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Em sua campanha para governador de 2022, Elmano de Freitas venceu logo no primeiro turno em cima de uma oposição à época fragmentada, e reforçada por ex-aliados recentes. Tomado, com razão, como um caso de sucesso, o fato cobriu a centro esquerda cearense como que sob um manto de imunidade eleitoral.

Em 2024, as circunstâncias forçaram a centro esquerda a entrar na disputa pela prefeitura da capital mais distanciada de sua base orgânica, ao contrário da disputa anterior, e foi surpreendida por um duro recado da cidade: o fantasma do “anti sistema” chegou bem perto de entregar a chave da capital a André Fernandes como forma desesperada de protesto. Por muito pouco não temos hoje um bolsonarista raiz casando e batizando numa capital do Nordeste.

Agora, em 2026, as adversidades foram novamente subestimadas no início do processo de definição da aliança governista. Ciro Gomes era aquele político já meio demodè que, candidato a presidente, havia ficado na incômoda posição de terceiro colocado na sua própria cidade, Sobral – era comentário recorrente.

O sentido confiante do governismo – um certo determinismo de quem tem a vantagem final – se expressou no modo tardio e tensionado com que se deram as definições da chapa. O enredo noticioso do semestre pré-eleitoral foi o cabo de força entre as principais lideranças que apoiam o Abolição.

Aliás, a expressão mais contundente de todo esse desarranjo foi o resgate tardio de Luizianne Lins, nos minutos finais da prorrogação, quando nem mais filiada ao PT ela estava, já convencida que estava de que deveria levar sua cantoria para outros terreiros. Luizianne teve seu momento Neymar, convocada às vésperas do embarque e com pendências a superar.

Razão de fundo para o desarranjo, pesou muito a relutância do governador em assumir desde antes o protagonismo que só a ele cabia em cena. Agiu nos bastidores, e tudo indica que atuou bem, pois o desenho resultante é positivo,mas renunciou, inadvertidamente, ao esforço que somente a ele cabia: a tarefa de reforçar, na percepção pública, os melhores atributos de sua personalidade. Há coisas que sim, mas outras não se pode terceirizar: ninguém pode, por exemplo, sorrir por você – simples assim.

Pois bem. A campanha de fato, com claro apelo ao voto, começa agora e nesse porto de expectativas o governismo desembarca uma carga diversificada de “entregas”, como é atual dizer, com a marca de credibilidade de Lula selando os caixotes com a promessa de novas remessas.

Para a aliança de centro+esquerda, são estas as cartas à mesa: colocar na vitrine a cara do Lula para atrair a freguesia para dentro da loja e expor em suas prateleiras os bons serviços prestados. Há muito o que mostrar. Mas sempre resta o que explicar. A balança entre um e outro está na mente do eleitor e veremos.

Compreende-se a injeção de ânimo que as lideranças de esquerda aplicam nas veias de sua militância com base nas inúmeras vitórias seguidas, mas – ôpa! – é preciso perícia na dosagem e se há um benefício que pesquisas recentes ofereceram aos governistas é este: os números apresentados não indicam que a prosa “salto alto” seja mobilizadora.

Em três pesquisas recentes, a diferença apresentada entre os percentuais dos dois candidatos, Ciro e Elmano, varia bastante: entre 19% (DataFolha) e 5% (Atlas/Focus, que capta, pela metodologia aplicada, uma maior definição de “tendência”). Significa, não obstante as metodologias diversas, que o estado de consciência do eleitor sobre o processo ainda é muito líquido. As pessoas ainda não começaram a conversar sobre o assunto. E desde já as pesquisas citadas demarcam, de certa forma, que os limites de disputa estão alargados pela presença, desta feita, de uma oposição coesa – ao contrário do que se deu nas duas últimas disputas, citadas no início deste artigo.

Enfim, bola ao centro.

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