
Por Dimas de Oliveira Costa
- No primeiro debate entre os candidatos ao Governo do Ceará, Elmano de Freitas e Ciro Gomes, entraram no estúdio levando mais do que programas, assessores e números. Carregavam dois passados que, embora hoje colocados em campos opostos, durante muito tempo se confundiram na mesma experiência política gerencial, atravessando governos, alianças, rupturas e uma extensa disputa sobre a paternidade dos avanços alcançados pelo Estado.
- Elmano, naturalmente, procurou defender a administração, enumerando policiais contratados, equipamentos adquiridos, investimentos realizados e estruturas entregues. Ciro, igualmente fiel ao papel reservado à oposição, concentrou-se nas deficiências, nos projetos inconclusos e, principalmente, na segurança pública, tema que se impôs ao debate com a gravidade de algo que já não pode ser contornado apenas pela comparação entre estatísticas.
- À primeira vista, nada mais previsível. Governos apresentam realizações; adversários apontam fracassos. Ocorre que a eleição guarda uma delicada e quase sempre subestimada relação com o tempo. O passado pode ser examinado, medido e até reconhecido. O futuro, inversamente, precisa ser imaginado e, sobretudo, acreditado. É exatamente nessa passagem entre o que já foi feito e aquilo que ainda poderá existir que o voto se movimenta.
- A recente pesquisa Datafolha revelou uma aparente contradição: Elmano tem 54% de aprovação, mas aparece com 33% das intenções de voto, enquanto Ciro alcança 52%. A pesquisa Atlas/Focus, embora apresente uma distância bem menor, registra, na prática, um empate técnico.
- Não importa aqui reconciliar metodologias ou transformar fotografias eleitorais em sentenças definitivas. O dado politicamente mais revelador é outro: reconhecimento administrativo e escolha eleitoral não constituem a mesma coisa.
- Um eleitor pode aprovar um governo e, ainda assim, desejar outro. Pode reconhecer uma obra sem entender que ela garanta a seguinte. Pode agradecer pelo que recebeu e reservar o voto para quem consiga representar melhor aquilo que espera. A aprovação olha para trás; o voto, mesmo quando mobilizado pela memória, procura adiante.
- Surge daí um equívoco recorrente nas campanhas de reeleição: falar demasiadamente sobre o que foi realizado, como se a quantidade de feitos apresentados obrigasse o eleitor a concluir, quase por uma operação lógica, que o futuro será a repetição ampliada do passado. A prestação de contas, necessária e republicana, passa então a ocupar o centro da narrativa. As propostas, que deveriam organizar a campanha, aparecem apenas no final, reduzidas a uma mera insinuação, como se coubesse ao eleitor deduzi-las do inventário governamental.
- É uma inversão perigosa. O passado deve entrar na campanha como prova, não como programa. Deve servir de fiador silencioso da capacidade de realizar, enquanto o futuro ocupa o espaço principal da fala. Se as entregas foram concretas, elas já existem na experiência das pessoas, na escola frequentada, na estrada percorrida, no hospital procurado ou na renda obtida. Um governo não precisa recitar-se interminavelmente. Precisa demonstrar para onde pretende conduzir o que construiu.
- No Ceará, o problema se torna ainda mais complexo. Desde o ciclo iniciado em 1986, governos diferentes conservaram, apesar de mudanças ideológicas e políticas, uma linha de profissionalização administrativa, equilíbrio fiscal e busca por resultados que passou a integrar a própria imagem do Estado. Ciro foi um dos personagens centrais dessa construção. Elmano apresenta-se como continuador e atualizador de uma experiência que recebeu outras contribuições decisivas, principalmente de Cid Gomes, Camilo Santana e da máquina política organizada em torno do PT.
- Consequentemente, ambos disputam não apenas o Governo, mas o direito de narrar uma história da qual participaram, direta ou indiretamente. Ciro lembra a origem, Elmano exibe a continuidade. Ciro procura demonstrar que o modelo perdeu impulso; Elmano tenta provar que o projeto avançou. Caso permaneçam presos a esse litígio sobre a herança, poderão transformar a eleição numa longa ação de reconhecimento de autoria, deixando o eleitor diante de duas versões do passado e de nenhuma imagem suficientemente nítida do futuro.

- Para Elmano, a enumeração das realizações oferece segurança, mas também denuncia uma posição ainda defensiva. Responder a cada crítica com uma obra, uma contratação ou um indicador pode ser eficaz para impedir a desconstrução do governo, porém insuficiente para produzir expectativa. A campanha precisará dizer o que um novo mandato representará de qualitativamente diferente, principalmente na segurança, apontada pelo Datafolha como o maior problema do Estado, mas também na saúde, no emprego, na infraestrutura e no desenvolvimento econômico.
- Não bastará afirmar que haverá mais investimentos, mais equipamentos ou mais serviços. O advérbio de quantidade não substitui uma ideia de futuro. Será necessário organizar essas ações numa visão capaz de explicar qual Ceará poderá surgir ao final de mais quatro anos e por que a continuidade não significará apenas a administração do que já existe.
- Ciro enfrenta o problema inverso, embora igualmente preso ao passado. A sua biografia administrativa constitui uma forte credencial. Poucos candidatos podem recorrer a uma experiência tão extensa ou reivindicar participação tão decisiva na modernização do Estado. Mas a experiência, quando convocada excessivamente, pode transformar-se numa moradia. E ninguém regressa ao Governo apenas para restaurar o tempo em que governou.
- Soma-se aqui um agravante programático: convocar o passado como exemplo e, logo após, inserir no futuro forças sociais sobre as quais o próprio passado reivindicado tratou de escoimar, justamente porque impeditivas a um devir de bases sociais.
- A crítica produz dúvida sobre o presente, mas não fabrica, por si, confiança no amanhã. Apontar falhas na segurança, atrasos na infraestrutura ou insuficiências na saúde ajuda a justificar a mudança. Resta explicar, com a mesma precisão, que nova arquitetura de governo substituirá o que se condena. O eleitor precisará perceber que o retorno de Ciro, agora com aliados distintos do passado, não corresponderá à repetição de uma antiga experiência, mas à capacidade de interpretar problemas que não existiam quando ele ocupou o Palácio da Abolição.
- Em épocas eleitorais, em momentos de tensionamentos, as contradições se acirram e revelam traços da natureza de todos os personagens. Ao abraçar o campo conservador e os quadros locais do bolsonarismo, Ciro criou, contraditoriamente, um movimento inverso, em que Elmano, com uma história forjada na luta dos camponeses pobres e não na estrutura universitária ou fabril, distinguindo-se de vários quadros do PT, serviria de elemento catalisador para a reconstituição do DNA do próprio PT, onde a chegada de Luiziane foi a cabal explicitação do fato.
- Nesse aspecto, a campanha dos dois candidatos corre riscos semelhantes. Elmano pode supor que as realizações do governo e a força de Lula e Camilo completarão aquilo que ele não disser sobre o futuro. Ciro pode acreditar que a memória da sua gestão, a contundência das críticas e a concentração do voto oposicionista preencherão o espaço ainda vazio de um projeto suficientemente visível. Em ambos os casos, transfere-se ao eleitor uma tarefa que pertence aos candidatos.
- O primeiro debate mostrou como as disputas sobre responsabilidade facilmente consomem o tempo destinado às soluções. Na segurança, discute-se em que momento as facções chegaram, quem permitiu seu crescimento, quantos criminosos foram presos ou quantas viaturas foram compradas. Tudo relevante. Mas o Ceará que votará em outubro quer saber, essencialmente, qual será a capacidade do Estado de enfrentar o crime nos próximos anos, como reorganizará sua inteligência, sua presença territorial, a prevenção, a investigação e a relação com uma juventude cada vez mais recrutada pelas organizações criminosas.
- O mesmo vale para as demais áreas. Hospitais já construídos ou inconclusos importam na medida em que ajudam a explicar a rede de saúde que se pretende organizar. Obras antigas ou atuais interessam quando oferecem alguma compreensão sobre a infraestrutura que será necessária para o novo ciclo econômico. Os bons resultados da educação somente adquirem força eleitoral plena quando projetados sobre os desafios do trabalho, da tecnologia e das novas desigualdades.
- Campanhas vitoriosas não apagam a memória. Apenas mudam sua função. Em vez de transformar o passado no personagem principal, deixam que ele apareça discretamente, como evidência de que a promessa não é vazia. O feito anterior deve sustentar a proposta seguinte sem sufocá-la. O eleitor não precisa ser convencido de que ontem existiu; precisa acreditar que amanhã poderá ser realizado.
- O futuro, nesse caso, não pode tornar-se uma meta-insinuação, não chegando a ser verdadeiramente formulado, permanecendo escondido atrás da prestação de contas de um passado longínquo, no caso de Ciro, ou de um passado recente, no caso de Elmano, como se bastasse demonstrar que muito foi feito para convencer a sociedade de que muito ainda poderá ser realizado.
- Elmano terá de fazer de seu governo uma prova de capacidade, e não o assunto quase exclusivo da campanha. Ciro terá de fazer de sua experiência um fundamento, e não um lugar para onde o Ceará deva retornar. Um precisará mostrar que continuar significa avançar; o outro, que voltar significa começar algo novo.
- Cabe realçar que um programa, diferente do que possamos perceber, não se exaure em propostas escritas, por melhores que sejam, mas deve guardar profunda coerência com outro programa maior, real, absorvido já pela consciência coletiva, aquele que se constitui já na própria história de cada candidato. Ou seja, todo candidato já é, por si só, um programa.
- Porque, numa eleição, o passado pode até absolver um governo. Só o futuro é capaz de elegê-lo.

Dimas de Oliveira Costa é advogado.
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