
Unidade em Jaguaribara receberá R$ 52 milhões e poderá processar até 12 mil peles por dia; tecnologia desenvolvida pela UFC transforma resíduo da piscicultura em curativo biológico
O Ceará está prestes a transformar um resíduo da indústria de tilápia em uma tecnologia médica de escala inédita. Em Jaguaribara, no interior do Estado, será construída a primeira fábrica do mundo dedicada ao processamento em larga escala de pele de tilápia para uso médico.
O projeto terá investimento inicial de R$ 52 milhões e nasce de pesquisas desenvolvidas pela Universidade Federal do Ceará (UFC). A unidade será conduzida pelo Consórcio Biotec, por meio da Inova Medical, e poderá chegar a 12 mil peles processadas por dia.
O que muda
A pele do peixe, normalmente descartada pela indústria, passa por processos de preparação e esterilização até se transformar em um curativo biológico destinado ao tratamento de queimaduras e feridas de difícil cicatrização. O material pode ser utilizado em queimaduras de segundo e terceiro graus. A informação foi divulgada pelo O globo.
Hoje, o laboratório da UFC consegue preparar cerca de 600 peles por mês. A nova estrutura deverá alcançar 4,3 mil unidades por dia no primeiro ano de operação comercial e, posteriormente, chegar às 12 mil.
Menos dor, menor custo
Uma das principais vantagens da tecnologia é a possibilidade de reduzir a frequência das trocas de curativos. Em tratamentos convencionais, o procedimento pode ser doloroso e exigir medicamentos analgésicos e novos procedimentos médicos.
Segundo dados apresentados pela empresa responsável pelo projeto, a tecnologia pode reduzir em 52% o custo total do tratamento de queimaduras em comparação com métodos convencionais. Também há expectativa de diminuir o uso de opioides e a necessidade de levar pacientes repetidamente ao centro cirúrgico para a troca dos curativos.
A perspectiva é que a produção industrial permita ampliar o acesso à tecnologia, inclusive no Sistema Único de Saúde (SUS).
Sem refrigeração
Outro avanço previsto é a conservação do material. A fábrica deverá utilizar a liofilização, processo de desidratação que permitirá armazenar o curativo sem refrigeração.
A expectativa é de uma validade de até três anos em temperatura ambiente. Antes da aplicação, o material será reidratado pelo profissional de saúde com solução fisiológica.
A tecnologia poderá facilitar o transporte para regiões distantes dos centros de produção e abrir espaço para exportações. Segundo os responsáveis pelo projeto, México, Turquia e Portugal já demonstraram interesse em pesquisas e futuras aplicações.
Por que Jaguaribara
A localização não é casual. A fábrica ficará próxima ao Açude Castanhão, uma das principais áreas de produção de tilápia do Ceará. A proximidade garante acesso à matéria-prima e permite transformar um resíduo da piscicultura em um produto de maior valor agregado.
A previsão é de geração inicial de 200 empregos diretos, com parte dos trabalhadores recebendo capacitação técnica em parceria com a UFC e outras instituições.
Próximos passos
A construção deve começar em outubro de 2026, com prazo estimado entre 15 e 18 meses para obras, instalação dos equipamentos e validação dos lotes-piloto. Se o cronograma for mantido, a operação poderá começar em janeiro de 2028.
A utilização comercial da tecnologia, porém, ainda dependerá do cumprimento das exigências regulatórias e sanitárias da Anvisa.
Por que importa
O projeto reúne três dimensões estratégicas para o Ceará: inovação científica, aproveitamento de resíduos da cadeia produtiva da tilápia e produção de uma tecnologia médica com potencial de reduzir custos e ampliar o acesso ao tratamento de queimaduras.
Mais do que uma fábrica, o projeto representa a tentativa de transformar conhecimento produzido dentro da universidade em uma cadeia industrial capaz de gerar emprego, renda e um produto médico com potencial de mercado nacional e internacional.







