Eu tinha 16 anos em 1977. Naquela Fortaleza ainda sem shopping centers, sem celulares e sem a pressa que hoje atropela as calçadas. A juventude daquela época vivia em turmas. A nossa turma era composta de seis amigos quase inseparáveis, montados em bicicletas de 10 marchas, percorrendo as ruas da Aldeota como quem desbravava um continente.
As noites começavam depois do jantar e terminavam quando o sono vencia a conversa. Pedalávamos sem destino definido, apenas pelo prazer de ocupar a cidade.
Foi numa dessas noites que aconteceu um pequeno desastre digno de comédia adolescente. Na esquina das ruas Padre Valdevino e Monsenhor Bruno, um dos companheiros freou bruscamente. O resultado foi um verdadeiro engavetamento de bicicletas: guidões entrelaçados, selins tortos, joelhos ralados e uma sequência de xingamentos que hoje provoca mais riso do que vergonha.
Enquanto ajudávamos a levantar as bicicletas, percebi uma cena do outro lado da rua. Uma pequena roda observava o espetáculo: quatro meninas e dois meninos, sendo um deles colega da minha turma no Colégio Militar de Fortaleza.
Mas quem realmente chamou minha atenção foi uma garota bochechuda que carregava uma boneca Amiguinha de 83 centímetros, quase do tamanho dela. Parecia, na minha imaginação de adolescente, uma boneca carregando outra boneca.
Passei a frequentar aquela rodinha. Vieram as conversas na calçada, os passeios e os encontros de fim de semana. Aquela “meninazinha da boneca” tornou-se minha namorada e, mais tarde, minha esposa — estamos casados até hoje.
Anos depois, compreendi melhor um verso que tocava no rádio ABC lá de casa, na voz de Luiz Gonzaga:
“Toda menina que enjoa da boneca
É sinal que o amor já chegou no coração.”
Sem saber, eu estava diante do meu próprio vaticínio.
O sabor do namoro
A trilha sonora do nosso namoro tinha gosto de sorvete.
Nos sábados à tarde, caminhávamos até a Sorveteria Juarez, a apenas três quadras da casa dela. Em outros dias, pegávamos ônibus para o Centro, assistíamos aos filmes dos Trapalhões no Cine Diogo e, depois da sessão, atravessávamos a rua para tomar sorvete na Tops.
Tenho a impressão de que muitos fortalezenses de várias gerações guardam lembranças semelhantes. As sorveterias faziam parte da doce rotina urbana da cidade. Eram pontos de encontro, confessionários de namoro, salas de espera da juventude e extensões afetivas das praças e cinemas.
A primeira sorveteria de Fortaleza surgiu em 1922; ficava no Palacete Ceará — a Rotisserie Spotsman. Em 1935, no edifício Granito, nasceu a Sorveteria Nice, inaugurando o costume de tomar um sorvetinho ao andar pelo centro da cidade.
Entre as décadas de 1940 e 1980, alguns nomes ajudam a contar a transformação da vida social de Fortaleza: Yanny, Cabana, Odeon, Jangadeiro, Kury, Tops, Juarez e Tropical. Cada uma representou uma fase distinta da cidade.
Yanny – A elegância da Praça do Ferreira
Assim como a Sorveteria Cabana, a Sorveteria Yanny pertence à Fortaleza em que o Centro era o coração absoluto da vida urbana. Instalada nas imediações da Praça do Ferreira, destacou-se especialmente nos anos 1940 e 1950.
Os frequentadores recordam os balcões reluzentes, os garçons de avental branco, as taças altas de milk-shake e as famílias que encerravam o passeio pela praça com um sorvete de creme, chocolate ou castanha. Ir à Yanny era quase um ritual dominical.
Odeon, Primavera e Jangadeiro – O requinte da praça
Na mesma época, existiam a Sorveteria Odeon e a Primavera, no lado sul da Praça do Ferreira. O estabelecimento era famoso pelo Sundae de Ameixa, considerado seu grande carro-chefe.
No lado leste da praça, funcionava o Jangadeiro, que reunia sorveteria, lanchonete e restaurante de categoria superior, sob o comando de Luiz Frota Passos. Era um endereço frequentado por famílias, comerciantes e visitantes que desejavam experimentar uma Fortaleza mais sofisticada.
Kury – O ponto de encontro estudantil
A Sorveteria Kury, ligada à família Khoury, de origem libanesa, marcou profundamente as décadas de 1950 a 1970. Mais do que uma sorveteria, era uma verdadeira lanchonete de convivência.
Estudantes do Liceu do Ceará, do Colégio Cearense, do Colégio Militar e de outras escolas do Centro transformavam a Kury em extensão natural da vida estudantil. Os sundaes, milk-shakes e sanduíches disputavam a preferência da clientela.
O movimento aumentava no fim da tarde, quando o Centro ainda era um espaço de convivência familiar, de namoro e de longas conversas nas calçadas. Existia também uma sorveteria do Kury no Náutico Atlético Cearense.
Tops – A modernidade em forma de sorvete
Se a Yanny representava o Centro tradicional e a Kury, a boemia estudantil do Centro, a Sorveteria Tops simbolizou a Fortaleza que avançava em direção à modernidade.
A Tops ficava estrategicamente em frente ao Cine Diogo, no Centro. Seu grande charme estava nas sobremesas exuberantes: banana split em taças gigantes; sundaes com chantilly e caldas coloridas; milk-shakes espessos e cremosos; combinações de frutas, castanhas e coberturas que pareciam sofisticadas para a época.
Para muitos adolescentes daquele período, frequentar a Tops era sentir-se participando de uma Fortaleza moderna e cosmopolita.
Juarez – O império das frutas regionais
Na Avenida Barão de Studart, a Sorveteria Juarez começou a funcionar nos anos 1970 e permanece como uma das mais antigas ainda em atividade.
O Sr. João Juarez de Albuquerque trouxe para Fortaleza a experiência iniciada no Piauí e apostou nos sabores regionais: cajá, cajarana, sapoti, graviola, murici, castanha e bacuri. O caráter artesanal da produção tornou-se sua principal marca e continua sendo preservado até hoje.
Tropical – A semente da 50 Sabores
Também nos anos 1970 surgiu a Sorveteria Tropical, inaugurada em 1975, na Avenida 13 de Maio, por Raimundo Vasconcelos e sua esposa, Neusa.
A sorveteria ganhou fama pela enorme variedade de sabores inspirados na cultura cearense, como cajá, caju, bacuri, siriguela, tamarindo, tapioca, murici, crocante de castanha, entre muitos outros. Com o tempo, essa experiência daria origem à tradicional 50 Sabores.
Hoje, quem atravessa apressado o Centro talvez nem imagine que aquelas ruas abrigaram alguns dos mais importantes pontos de encontro afetivos da história de Fortaleza.
A Yanny desapareceu como tantas instituições da velha Praça do Ferreira. A Kury sobrevive sobretudo na lembrança de quem associa juventude, amizade e descoberta da cidade ao sabor de um sorvete tomado depois da aula. A Tops, a Juarez e a Tropical marcaram a transição para uma Fortaleza mais espalhada, mais vertical e mais moderna.
Mas todas elas tiveram algo em comum: foram muito mais do que estabelecimentos comerciais. Foram cenários de primeiros namoros, amizades duradouras, encontros de estudantes, conversas intermináveis e pequenos acontecimentos que, vistos de longe, acabaram se transformando na própria memória da cidade.
Porque algumas Fortalezas realmente derreteram com o tempo. Mas há uma Fortaleza que não desapareceu — a que continua intacta dentro de quem ainda consegue sentir, no fundo da lembrança, o gosto de um sorvete tomado depois do cinema, numa noite quente de juventude cearense.
Você conhecia essa história?







