Guerra Econômica – Segundo Round: Moedas, por Igor Macedo de Lucena

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Articulista do Focus, Igor Macedo de Lucena é economista e empresário. Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden; Fellow Associate of the Chatham House – the Royal Institute of International Affairs  e Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales.

A guerra comercial entre a China e os Estados Unidos continua e com um arsenal cada vez mais forte. No último mês o presidente Donald Trump anunciou mais 300 bilhões de dólares em novas tarifas aos produtos chineses. A resposta da China foi uma surpresa, até mesmo para o presidente americano, o início de uma desvalorização cambial.
Pela primeira em mais de 10 anos o yuan baixou a marca dos sete dólares, chegando ao valor de US$ 6,92. Essa medida pode não parecer muita coisa para o turista comum, mas para exportadores e empresários representa um estímulo as exportações, uma maneira de contrabalançar o aumento das tarifas norte-americanas, tornando os produtos chineses mais baratos em dólar.
Esse primeiro movimento serviu de alerta para os norte-americanos que a China não vai se dobrar as ameaças do presidente Donald Trump e que se for necessário ela poderá usar o arsenal que supera os 3 trilhões de dólares em reservas internacionais para defender sua economia e seus mercados externos.
O impacto da guerra comercial dos Estados Unidos contra a China também reflete na Europa, que vê uma queda nas exportações das nações como Alemanha e Holanda, altamente dependentes do setor externo. Por esse motivo o presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, já anunciou que deverá realizar novas ações de estímulos financeiros, o que deve desvalorizar o Euro e também impulsionar as exportações do bloco comercial.
Em resposta a China e aos europeus, o presidente Trump acusou essas nações de manipulação cambial, como se fosse uma concorrência desleal, prejudicando a economia americana.
O argumento de Trump de que a China está manipulando sua moeda é ainda mais fraco do que seu caso contra a Europa. Longe de reduzir o valor do yuan, o Banco Central da China vem combatendo as forças do mercado para impedir sua desvalorização. A China manteve a taxa de juros de referência de um ano em 4,35%, desde outubro de 2015, apesar da queda na atividade econômica que parece justificar um corte da taxa. Além disso, as reservas externas da China não aumentaram ao longo dos anos, como aconteceriam se a China estivesse tentando derrubar o yuan e comprando outras moedas.
Os chineses não querem uma moeda mais fraca, procuram valorizar o yuan no longo prazo para que possam alcançar mercados de mais valor agregado dentro da cadeia global de valor em produtos como automóveis, eletrônicos e softwares. Entretanto com os constantes ataques do governo norte-americanos, a desvalorização para obter ganhos de curto prazo se torna uma opção cada vez mais presente na mesa de Xi Jiping.
Para tentar melhorar o ambiente nos Estados Unidos a resposta óbvia seria uma diminuição na taxa de juros do Federal Reserve, o que impulsionaria as empresas e desvalorizaria o dólar em relação as outras moedas, tornando a economia americana mais uma vez competitiva.
Do ponto de vista econômico a guerra comercial passa a ganhar um novo campo de batalha, que em tese pode durar muito tempo, mas do ponto de vista político talvez o presidente Trump esteja em desvantagem.
Mês passado a Europa renovou seu parlamento e consequentemente os líderes do bloco, o que gera um certo processo de estabilidade e independência da autoridade monetária e de relações exteriores pelos próximos 5 anos, ou seja, os líderes europeus têm o aval da população para tocar as políticas econômicas e monetárias para defender suas empresas e sua economia conjunta.
A desaceleração chinesa começou a afetar toda uma cadeia de empresas e produtores, o que levou ao uso de novas ferramentas geoeconômicas para defender o crescimento do país em um cenário incerto, ainda longe de um novo acordo comercial. Contudo Xi Jiping e o Politburo (Comitê Executivo do Partido Comunista Chinês) não passam pelo crivo de eleições ou críticas de opositores políticos, o que os dá uma vantagem sobre momentos de pressão, os quais acompanhamos diariamente.
Nos Estados Unidos a situação é bem delicada, em 2020 ocorre a eleição para presidente e por mais que a economia esteja com taxas de crescimento na casa dos 2,3% ao ano e o desemprego em uma baixa histórica, os indicadores futuros da economia do país são alarmantes.  O índice de rendimentos dos títulos da dívida americana de 10 anos estão se aproximando de valores negativos e as bolsas de valores começam a apresentar fortes quedas. Esses são sinais de que uma recessão deve estar a caminho, o que não se sabe ao certo é quando.
Seria ingênuo achar que uma guerra comercial iniciada pelo presidente Donald Trump não iria afetar os Estados Unidos, a aposta da Casa Branca parecia ser um “all in” aonde em algum momento os chineses iriam “abrir” e negociar um acordo de tarifas mais benéfico para os americanos.
A realidade parece não estar sendo desenhada desta maneira. Os chineses prevendo uma desaceleração americana estão dobrando a aposta em cima do presidente Trump, mas com uma vantagem de não responderem ao povo por seus atos. Se chegarmos em 2020 sem um novo acordo comercial e um início de recessão nos Estados Unidos, a reeleição do presidente Trump pode ser destruída pela guerra comercial que ele mesmo começou.

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