A mídia e a educação superior em regime de cooptação; Por Paulo Elpídio de Menezes Neto

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A chamada “Grande Mídia” brasileira começou a ser construída nos anos 1930. Sustentada pelo Estado Novo, graças à censura explícita e ao financiamento público e privado de grupos de interesse, expandiu-se no pós-guerra até consolidar-se como um poderoso conjunto de lealdades recíprocas que perdura até hoje. Esses conglomerados mantiveram raízes regionais fortes no Rio Grande do Sul, São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia e Pará.

À frente do maior conglomerado de jornais, rádio e televisão, Assis Chateaubriand quebrou, em 1945, o monopólio de algumas grandes famílias tradicionais da imprensa. Hoje, em busca de sobrevivência e afirmação de poder, jornais eletrônicos e canais de televisão se articulam em um verdadeiro “consórcio”, dividido entre a sujeição ao governo e a dependência dos recursos do erário.

Com a ascensão dos governos populistas, autodenominados “progressistas”, a partir de 2002, dois movimentos significativos alteraram os mecanismos de promoção da educação e da cultura no Brasil. Contrários, ao menos no discurso, à educação privada, foram paradoxalmente esses governos que deram o passo decisivo para a privatização do ensino superior.

Os investimentos públicos, antes destinados à expansão do sistema de ensino, passaram a fomentar, direta ou indiretamente, a rede privada. Transferências na forma de empréstimos e bolsas estudantis alimentaram mantenedoras e alunos, criando um fluxo permanente de recursos. FIES e Prouni cumpriram esse papel. O resultado foi o surgimento de uma vasta rede em constante expansão, fruto da associação entre Estado e iniciativa privada.

Às mantenedoras couberam os lucros. Ao governo, o ônus dos custos, compensado pelo controle político sobre o projeto pedagógico das universidades, adequadamente aparelhadas. Uma fórmula de agenciamento político e cultural: as mantenedoras extraíam dividendos e o governo exercia poder decisório sobre questões essenciais. Não seria exagero presumir que muitas faculdades isoladas e universidades privadas fechariam sem o financiamento público.

A mídia, por sua vez, também se tornou dependente. Cooptada pelas transferências regulares de recursos a título de publicidade e matérias pagas, dificilmente sobreviveria sem o aporte estatal. Hoje, divide-se em dois blocos: alguns grupos independentes, ainda que pressionados por censura e desmonetização; e a mídia mercenária, somada a uma “rede” de hackers a soldo do governo.

Nas últimas duas décadas, em um verdadeiro assalto de características “gramscianas”, instalou-se no Brasil um sistema de controle que promoveu o enquadramento e a difusão do mais eficiente processo de persuasão ideológica já experimentado no país.

Agora, meia centena de projetos de regulamentação das redes sociais busca enquadrar os espaços da internet que ainda não foram devidamente disciplinados, completando esse processo de controle.

Paulo Elpídio de Menezes Neto é articulista do Focus, cientista político, membro da Academia Brasileira de Educação (Rio de Janeiro), ex-reitor da UFC, ex-secretário nacional da Educação superior do MEC, ex-secretário de Educação do Ceará.

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