A muralha do Meireles; Por Angela Barros Leal

COMPARTILHE A NOTÍCIA

Não vou tratar do perfil escarpado de Fortaleza na região do Meireles, com o eriçado de prédios surgindo por todos os lados qual uma sólida muralha, mas sim de algo mais antigo, acontecido no final da década de 1850, quando Dom Pedro II demonstrou um interesse especial pelo Ceará enviando engenheiros especializados em serviços portuários. A missão era resolver o antigo problema de ausência de um Porto em uma província cuja costa era inteira voltada para fora, sem as reentrâncias adequadas a ancoragens seguras.

Assim chegaria o engenheiro francês Pierre Florent Berthot. Instalado na pequena vila da Fortaleza desde 1858, o engenheiro aprofundou-se no estudo das condições naturais para a construção de um Porto, ou pelo menos para a qualificação do local de embarque e desembarque já existente, nas proximidades do edifício de pedra que abrigava a Alfândega. Ao fim dos estudos, identificou a causa do assoreamento incessante das águas daquele simulacro de Porto, utilizado sem condições de segurança por passageiros e cargas.

Assim, apresentou ao Presidente da província o problema e as soluções que a ele pareceram evidentes. A culpa, deve ter discursado o engenheiro, a culpa recaía sobre as areias finas vindas das praias do lado Leste, uma chuva horizontal de areia, agulhadas de grãos de areia soprados dia e noite pelo vento, depositando-se e avolumando-se no fundo das águas.

Duas soluções resolveriam o problema, é possível que tenha dito Berthot na sala de reuniões do Palácio presidencial, o dedo apontando desenhos e mapas. Uma solução era fácil, outra não tanto. O plantio de espécies vegetais nativas na encosta das dunas, restringindo o movimento delas, era a solução fácil. A solução difícil, desafiadora, seria a construção de uma muralha em plena praia, capaz de barrar fisicamente o caminhar das areias na direção do Porto.

Em novembro de 1859 ambas as soluções foram aprovadas pelo Presidente e pelo Imperador, que abriu os cofres da Fazenda Real para a execução das obras, iniciadas logo em 1860. Não deve ter sido complicado o plantio de verde nas curvas dos morros, fixando as areias. Já a muralha – essa daria um pouco mais de trabalho.

Cumprindo com o traçado de dois engenheiros, Berthot e o Coronel Jardim, a muralha de alvenaria do Meireles media mais de 400m de comprimento (204 braças), uns 3m de altura (14 palmos) com espessura de 30cm (1 ½ palmo). Pelo menos é o que registra o jornalista e historiador cearense João Brígido sobre esse portento plantado na praia semideserta.

Do alto mar, devia ser um assombro para os jangadeiros verem a tal muralha sendo erguida no meio das dunas, próximo das ondas. Um muro com 3 metros de altura feito na unha, no meio do nada, os trabalhadores fazendo uso de caixões, canecos de flandres, urupemas, baldes, tinas e barris, pisando inseguros sobre os caibros de carnaúba, sobre os paus para andaime, chicoteados pelo vento, massacrados pelo sol.

Em 1861 a muralha estava concluída, de acordo com documentos oficiais. Estendia-se em posição diagonal barrando a direção do sopro do vento, uma extremidade tocando a franja das ondas, na direção do primeiro farol do Mucuripe, a outra voltada a algum matagal de coqueiros e cajueiros. Ali espreguiçava seu comprimento, equivalente a quatro dos nossos quarteirões. É mostrada nessa forma no mapa traçado por Berthot, com anotações em francês apresentando os detalhes de situação.

Entre a Village de Meirelles e a Ville de Ceara estava a visão que deveria se assemelhar a um artefato estranho, pousado sobre a superfície lunar, lançando sombra sobre o areal quase de todo desabitado. E não surpreenderia que, diante das condições ambientais, a muralha tivesse vida curta.

Três anos depois de concluída o jornal O Sol já anotava: “Levantaram um paredão na praia do Meireles para impedir o movimento das areias ao sul do porto, que se não servir para esbarrar os camaleões de areia, aproveitou aos que lá puseram aquela muralha.” Em setembro de 1870 o jornal Pedro II lamentava: “Existe na praia do Meireles um muro já inteiramente coberto pelas areias, que nada produziu em bem do porto, e que foi obra do engenheiro mandado vir por esta província, e que apesar do que se despendeu nenhum melhoramento fez.”

A areia e o vento haviam vencido a batalha.

Sem trabalho de conservação ou de manutenção a muralha findou-se, caída por terra, carregada pela força das águas. Dela nada restou além do que foi escrito na fragilidade do papel. A vegetação nas encostas das dunas resistiu um pouco mais, tendo, porém, igual destino. Um século mais tarde novos paredões iam ser erguidos na praia do Meireles, esses dotados de maiores ambições de permanência.

É o que nos resta ver.

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Selo do TSE divide institutos; AtlasIntel apoia iniciativa e acende debate sobre precisão das pesquisas

Aval de Lula consolida Cid Gomes como candidato ao Senado e aproxima definição da chapa governista no Ceará

O Duplo Twist Carpado de Mauro Filho

Obtuário: Cid Carvalho, uma voz que atravessou gerações da comunicação e da política cearense

A chapa dos sonhos do governismo no Ceará

Jogando na defesa e no ataque, Romeu Aldigueri se torna referência no enfrentamento com a oposição

Ceará como um dos elos da nova cadeia automotiva mundial e a bad trip da nossa política

O silêncio de Cid Gomes não é dúvida. É método.

Carta a Trump: Mais um grave erro político de Flávio Bolsonaro

Camilo e Luizianne reabrem canal político após anos de distanciamento

A aposta do Ibmec no capital humano cearense

Fortaleza domina Enem 2025: capital ocupa as 3 primeiras posições do BR e tem 4 escolas entre as 10 melhores

MAIS LIDAS DO DIA

PL sela estratégia com Ciro no Ceará e trata apoio presidencial como pauta separada

Estudo projeta impacto de R$ 8,8 bilhões da Copa do Mundo Feminina na economia brasileira

Ceará concentra três das 10 cidades mais violentas do Brasil; Maranguape lidera pelo 2º ano seguido

Governo anuncia nova etapa do Brasil Soberano com R$ 13,5 bilhões para empresas afetadas por tarifa dos EUA

Seu Leite; Por Augustino Chaves

CNJ cria filtro para extinguir execuções bancárias abaixo de R$ 10 mil

STJ permite que pais saquem indenização de filhos menores

Cid Gomes aposta em reeleição de Elmano e vê vitória no 1º turno

A muralha do Meireles; Por Angela Barros Leal