Bilhões de faz de conta; Por Gera Teixeira

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Nestes últimos tempos, pelas bandas de cá, bilhões parecem ter sofrido uma curiosa inflação semântica. Viraram tostões. Ou talvez confetes. A cada semana surge um novo anúncio triunfal: bilhões para isso, bilhões para aquilo, bilhões para transformar, revolucionar, impulsionar, modernizar e salvar. O vocabulário é sempre grandioso. O resultado, nem tanto.

O fenômeno é tão frequente que já perdeu a capacidade de impressionar. O que antes seria manchete histórica hoje disputa espaço com a previsão do tempo. Somados, os investimentos anunciados já flertam com cifras capazes de fazer inveja a economias inteiras. Em algum lugar entre o marketing político e a ficção contábil, aproximam-se do trilhão.

Enquanto isso, do lado de fora dos palácios e das coletivas cuidadosamente roteirizadas, a realidade insiste em não colaborar. As organizações criminosas ou terroristas, como queiram, ampliam territórios, desafiam instituições e transformam comunidades inteiras em reféns silenciosos. O cidadão comum continua enfrentando serviços precários, insegurança crescente e um custo de vida que não leu os discursos oficiais sobre prosperidade.

Há algo de fascinante nessa engenharia narrativa. O Estado é apresentado como um gigantesco canteiro de obras, mas o cearense continua procurando onde exatamente está a construção. Os números são monumentais. Os problemas, igualmente.

Naturalmente, alguns prosperam. Não faltam consultorias, institutos, entidades parceiras, amigos estratégicos, companheiros de jornada e especialistas em navegar as águas generosas do Estado. Para esses, os bilhões não perderam valor algum. Mantêm excelente poder de compra.

O povo, por sua vez, recebe a parte que lhe cabe nesse latifúndio estatístico: discursos, promessas, cerimônias e apresentações em PowerPoint. É uma modalidade peculiar de distribuição de riqueza. O dinheiro circula, os anúncios multiplicam-se, os aplausos acontecem, mas a prosperidade parece sempre desembarcar em outro endereço.

Nada exatamente novo. Trata-se apenas da versão atualizada de um método antigo. Primeiro anuncia-se o paraíso. Depois explicam-se os obstáculos. Em seguida culpam-se terceiros. E, quando os resultados não aparecem, anunciam-se novos bilhões.

Afinal, quando bilhões viram tostões, a propaganda passa a valer mais do que o dinheiro.

Gera Teixeira é empresário ítalo-brasileiro com atuação nos setores de construção civil e engenharia de telecomunicações. Graduado em Marketing, com formação executiva pela Fundação Dom Cabral e curso em Inovação pela Wharton School (EUA). Atualmente cursa Pós-graduação em Psicanálise e Contemporaneidade pela PUC. Atuou como jornalista colaborador em veículos de grande circulação no Ceará. Integrou o Comites Italiano Nordeste, órgão representativo vinculado ao Ministério das Relações Exteriores da Itália. Tem participação ativa no associativismo empresarial e sindical.

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