
Nestes últimos tempos, pelas bandas de cá, bilhões parecem ter sofrido uma curiosa inflação semântica. Viraram tostões. Ou talvez confetes. A cada semana surge um novo anúncio triunfal: bilhões para isso, bilhões para aquilo, bilhões para transformar, revolucionar, impulsionar, modernizar e salvar. O vocabulário é sempre grandioso. O resultado, nem tanto.
O fenômeno é tão frequente que já perdeu a capacidade de impressionar. O que antes seria manchete histórica hoje disputa espaço com a previsão do tempo. Somados, os investimentos anunciados já flertam com cifras capazes de fazer inveja a economias inteiras. Em algum lugar entre o marketing político e a ficção contábil, aproximam-se do trilhão.
Enquanto isso, do lado de fora dos palácios e das coletivas cuidadosamente roteirizadas, a realidade insiste em não colaborar. As organizações criminosas ou terroristas, como queiram, ampliam territórios, desafiam instituições e transformam comunidades inteiras em reféns silenciosos. O cidadão comum continua enfrentando serviços precários, insegurança crescente e um custo de vida que não leu os discursos oficiais sobre prosperidade.
Há algo de fascinante nessa engenharia narrativa. O Estado é apresentado como um gigantesco canteiro de obras, mas o cearense continua procurando onde exatamente está a construção. Os números são monumentais. Os problemas, igualmente.
Naturalmente, alguns prosperam. Não faltam consultorias, institutos, entidades parceiras, amigos estratégicos, companheiros de jornada e especialistas em navegar as águas generosas do Estado. Para esses, os bilhões não perderam valor algum. Mantêm excelente poder de compra.
O povo, por sua vez, recebe a parte que lhe cabe nesse latifúndio estatístico: discursos, promessas, cerimônias e apresentações em PowerPoint. É uma modalidade peculiar de distribuição de riqueza. O dinheiro circula, os anúncios multiplicam-se, os aplausos acontecem, mas a prosperidade parece sempre desembarcar em outro endereço.
Nada exatamente novo. Trata-se apenas da versão atualizada de um método antigo. Primeiro anuncia-se o paraíso. Depois explicam-se os obstáculos. Em seguida culpam-se terceiros. E, quando os resultados não aparecem, anunciam-se novos bilhões.
Afinal, quando bilhões viram tostões, a propaganda passa a valer mais do que o dinheiro.







