Comprei pela internet um livro produzido em editora de Juazeiro do Norte. O livro parece dos mais interessantes: traz a história do afamado encontro entre os dois mais reconhecidos ícones nordestinos. De um lado o cangaceiro Lampião, com seu chapéu de couro enfeitado de estrelas, seus óculos redondos escondendo um olho perdido e o outro cobiçoso por valores materiais, os anéis cheios de dedos, o entrançado de munição cortando em X seu peito magro, aguardando ter em mãos a prometida patente de Capitão.
Do outro lado, o santo padrinho dos romeiros, Cícero Romão Batista, 82 anos, excomungado pela Igreja, carregando o peso das dores do mundo sobre os ombros, arreliado por precisar receber um notório perseguido pela Justiça humana, desquerendo entregar a ele o certificado do Batalhão Patriótico e o ambicionado título.
Qualquer interessado no tema desejaria ser uma mosca pousada na parede de alvenaria da casa, para saber como se deu a conversa entre duas criaturas tão diversas: o que um disse, o que o outro respondeu, que perguntas foram feitas, que tom de voz empregaram, que considerações foram debatidas naquele dia 3 de março do ano de 1926 na vila de Juazeiro do Norte.
São essas e outras as questões que o livro deve esclarecer, tão logo eu o receba.
A postagem se deu no terceiro dia do mês. A encomenda foi categorizada como mala direta básica, não urgente. O remetente fez o pacote em papel apropriado, escreveu meu endereço no papel, deixou o livro pronto para receber os carimbos de praxe e gastou algum valor para entregá-lo em uma agência dos Correios & Telégrafos (telégrafos?!) da terra do Padre Cícero.
Feito isso, cuidou de me enviar o código para o rastreamento da viagem. Da parte dele, missão cumprida. Diariamente desde então venho consultando o código para saber por quais paragens anda meu livro.
Uma semana se passou da postagem e a informação permanece com o mesmo laconismo: Objeto postado. Juazeiro do Norte.
Ou seja, sete dias se foram e o livro não saiu do lugar. Não avançou um centímetro. Para não ser injusta, é possível que tenha se movido qualquer coisa, entre encomendas semelhantes a ele, ombro a ombro com pacotes similares, abrigados como filhotes de gatos em salas, balcões ou escaninhos da agência dos Correios.
Aguardo mais dois dias e refaço a consulta. A expectativa é a de quem questiona a grande esfinge de Gisé: o silêncio. O livro se mantém imexível, intocado, na agência onde foi postado.
Faço um cálculo rápido: a distância entre as duas cidades é estimada em cerca de 500 quilômetros. Em termos de tempo, algo como oito ou dez horas de estrada, a depender do veículo e de suas paradas. Via aérea, o tempo encolhe para menos de uma hora de voo. Um portador gentil que houvesse surgido teria me entregue a encomenda em mãos no mesmo dia.
Meu livro não sabe disso. Aguarda paciente na agência de Juazeiro do Norte, como me informa o código de rastreamento dias depois, mantendo-se tão firme como a fé dos romeiros no Padim. Nada do aguardado texto: “Em trânsito”, ou “Saiu para a agência dos Correios em Fortaleza”, ou do sonhado “Em Fortaleza aguardando entrega”.
A cada vez que realizo o rastreio do livro lá se mantém ele em seu posto juazeirense, guardando em suas páginas o desdobrar do encontro histórico entre as duas figuras míticas.
Até que por fim ele chega, exatas duas semanas depois da postagem. No atual momento, em que tudo se recebe praticamente de um dia a outro, imagino a ansiedade com que nossos avós aguardavam o trajeto das malas postais despachadas em navios, ou sobre o lombo dos burros. Certas coisas parece que não mudam.
Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.






