
Uma pesquisa com 1.800 brasileiros revelou que 91% consideram importantes a mudança climática e a adoção de políticas de preservação ambiental. No entanto, quando convidados a apontar os problemas mais relevantes do país, os entrevistados colocaram a mudança climática apenas na nona posição, mencionada por 19% dos participantes.
Essa aparente contradição sobre a percepção da crise climática levanta uma questão importante para o segundo turno, em 25 de outubro: o que explica a diferença entre reconhecer a relevância do tema e considerá-lo uma prioridade imediata na agenda dos políticos eleitos?
As enchentes devastadoras de 2024 no Rio Grande do Sul demonstraram como a mudança climática produz efeitos concretos no Brasil. Atingiram cerca de 2,4 milhões de pessoas, causaram 183 mortes e provocaram prejuízos bilionários à economia brasileira. Um estudo de atribuição climática concluiu que o aquecimento provocado pela ação humana dobrou a probabilidade de ocorrência de chuvas dessa magnitude e aumentou sua intensidade entre 6% e 9%.
Um artigo do Banco Mundial estimou que eventos climáticos extremos provocam perdas médias de R$ 13 bilhões por ano e podem empurrar entre 800 mil e 3 milhões de brasileiros adicionais para a pobreza extrema.
A mudança climática, porém, enfrenta um problema de visibilidade. Seus efeitos nem sempre são reconhecidos como consequências da crise climática. Danos à infraestrutura podem ser percebidos apenas como problemas econômicos ou urbanos, enquanto os riscos associados ao calor extremo e à expansão de doenças, como a malária, podem ser tratados exclusivamente como questões de saúde pública.
Além disso, um estudo conduzido por Guilherme Borba Lefévre (foto) e outros pesquisadores indicou um aumento expressivo da atenção pública após um desastre, seguido de uma queda significativa em aproximadamente 30 dias. Essa dinâmica cria uma janela de oportunidade relativamente curta para o avanço de políticas públicas, ao contrário do que ocorre com problemas mais imediatos ou constantemente visíveis.
Uma análise do Observatório do Clima sobre as propostas dos dois candidatos mais bem posicionados na disputa presidencial brasileira identificou diferenças importantes em relação à agenda ambiental. Enquanto o programa de Lula reúne 16 compromissos classificados pela organização como positivos e detalhados, o de Flávio Bolsonaro apresenta apenas um, além de sete propostas classificadas como antiambientais.
Ainda assim, Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente de Lula. O resultado sugere que, embora a população reconheça a importância da questão climática, ela nem sempre a coloca entre os problemas mais urgentes a serem enfrentados pelo país.
Os dados apresentados no início deste artigo, entretanto, indicam que existe espaço para transformar essa preocupação em mobilização política. Segundo a diretora de Opinião Pública da Ipsos no Brasil, Priscila Branco (foto), “os cidadãos estão, cada vez mais, buscando a liderança dos governos e das empresas, por entenderem que o peso da ação não pode recair apenas sobre os indivíduos”.
Nesse contexto, a mudança climática pode ajudar a mobilizar eleitores indecisos, especialmente em estados historicamente atingidos por eventos climáticos extremos, como Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Bahia e Paraíba.
O relatório People and Climate Change 2026, da Ipsos, porém, revela um sinal de alerta: a proporção de entrevistados que concordam com a urgência de agir contra a mudança climática caiu de 77% para 70%. A redução pode indicar uma perda de intensidade da preocupação com o tema, mesmo que o reconhecimento de sua importância continue elevado.
Não se pode ignorar, portanto, que a sociedade reconhece o valor de mitigar os efeitos da mudança climática e de se adaptar a eles. Por suas características, entretanto, o tema nem sempre se converte em prioridade política. Enfrentá-lo de forma consistente poderia gerar ganhos econômicos expressivos, reduzir riscos à saúde e à vida e minimizar pressões econômicas e sociais no longo prazo.
A questão central, portanto, é saber se os candidatos conseguirão transformar uma preocupação amplamente reconhecida pela sociedade em uma verdadeira prioridade eleitoral — e se os eleitores considerarão essa agenda relevante o suficiente para influenciar seu voto.
Observação editorial: mantive os dados, as referências e as citações conforme apresentados no original, sem fazer uma checagem independente. Antes da publicação, recomendo confirmar as fontes da pesquisa com 1.800 brasileiros, do estudo de atribuição climática, do artigo do Banco Mundial e do relatório da Ipsos. Também vale conferir a metodologia da análise do Observatório do Clima e a identificação completa do estudo de Guilherme Borba Lefévre.
Há ainda um cuidado importante: a posição de Flávio Bolsonaro no primeiro turno, isoladamente, não demonstra que a agenda climática teve pouca influência no voto. Por isso, ajustei esse trecho para apresentar o resultado como um indício, e não como uma relação causal comprovada.








