Mister Smith e a seca de 1877; Por Angela Barros Leal

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Desenho de J. Well Champney

O naturalista americano Herbert Huntington Smith visitou o Ceará entre 1876 e 1878. Desembarcou aqui como desembarcavam todos: de um navio ancorado ao largo, saltando do tombadilho, ou de uma escada de cordas, para a sorte de ouvir o troar de suas botinas batendo sobre a oscilante superfície de uma jangada. Era isso, ou o abraço das águas do Atlântico.

Na primeira visita, em 1876, ele viu um Ceará verde, de céu fechado e chuvoso, florescendo após quatro décadas de bons invernos – invernos cearenses, é bom que se diga, tão diferentes da sua vivência invernal de frio e de neve. Ao retornar, um ano mais tarde, o quadro era outro: a chuva do caju não se dera no final do ano, e as chuvas de março e abril tinham sido substituídas por um céu limpo, pintado no mais doloroso azul.

Smith sabia tudo sobre as qualidades quase impermeáveis do solo da Província, sobre a ausência de rios perenes, navegáveis, sobre a vida regida pela expectativa da chuva, sem a qual o agricultor não teria alimento para o mês seguinte. E o pior aconteceu. Apesar das orações do povo e do Clero, ad pretendam pluvium, ou seja, pela intenção das chuvas, o ano de 1877 foi de seca, assim como os dois anos seguintes. O Ceará se transformaria em uma sucursal do Inferno.

Na derradeira visita, Herbert Smith permaneceu de 20 a 30 de dezembro de 1878. Apesar da surdez que o afligia, aprendera a falar nossa língua, mantinha a leitura dos jornais provinciais, e recebia correspondências dos amigos que por aqui fizera, informando sobre o sofrimento aterrador daquele triênio, no qual a fome estabelecera conluio com o beribéri, com a febre amarela, com o cólera, com as febres perniciosas e com a devastadora varíola (a bexiga, na voz popular). Suas observações quanto a essa viagem estão expostas no livro The Amazons and the Coast, impresso em 1879.

Havia retornado com olhos de cientista, para testemunhar a veracidade ou não do que se dizia, na Corte Imperial e no Norte, sobre a luta inglória de uma população faminta e desamparada no enfrentamento da mais terrível das epidemias, alastrando seu contágio como a conhecida imagem da chama a seguir um rastilho de pólvora.

Desenho de J. Well Champney

O que Smith viu nesses dez dias de dezembro confirmava a extensão da tragédia. Após ler nos jornais locais, ou nos lábios de interlocutores assombrados, as informações disponíveis, calculou o inacreditável total de 1.033 corpos sepultados em um único dia: “Em 10 de dezembro de 1878, 808 mortos por varíola foram sepultados no cemitério da Lagoa Funda. Pelo menos 75 no São João Batista, e provavelmente 150 no mato e no mar” – neste último caso, pelo despejo, na profundeza das águas, de corpos conduzidos em jangadas. 

O número calculado incidia sobre uma população já reduzida a 75 mil pessoas, na Capital e no seu entorno. Smith encontrou uma única comparação, em tempos não medievais: a chamada Grande Peste de Londres, acontecida no século XVII. Alcançara essa taxa de mortalidade, porém em uma população de 300 mil pessoas. 

A cifra de 1.033 sepultamentos quase coincide com a exposta pelo escritor e farmacêutico Rodolfo Teófilo, em seu livro Varíola e vacinação no Ceará, datado de 1904, fruto da observação presencial aos tristes eventos: “O atordoamento era geral” – escreveu o cearense. “A 10 do mês [dezembro de 1878] o cemitério da Lagoa Funda recebia mil e quatro cadáveres!!” –, número escrito por extenso, para que não pairassem dúvidas.

Qualquer que tenha sido a exata cifra final, após esse dia, como assegura Smith, “a mortalidade decresceu, mas apenas porque a doença não tinha mais com quem se alimentar.” Depois dess pico, a taxa de mortalidade reduziu-se (se for apropriado usar tal verbo) para 200 mortos por dia. O total de vítimas em dezembro foi próximo a 21 mil, contabilizando entre elas a própria esposa do Presidente da província, cujo corpo deixou o Palácio do Governo na noite do dia 30, para apressado sepultamento.

Quase certo ser Smith vacinado contra varíola e doenças tropicais. Daí seu destemor ao visitar as palhoças em que se abrigavam os retirantes, na ampla área entre Meireles e Jacarecanga; ao seguir para o Lazareto da Lagoa Funda, hoje bairro Carlito Pamplona, no qual um novo paciente era colocado no leito ainda quente pelo corpo do paciente anterior; ao tapar o nariz para observar as valas onde eram jogados, empilhados, os mortos pela varíola no cemitério da Lagoa Funda. 

Mais um ano de seca se seguiria após a partida de Herbert Smith, que se despediu de um Ceará devastado: “Uma província profundamente arruinada, uma população de 900 mil reduzida a 400 mil.” 

E eu fico pensando como conseguimos caminhar hoje, em um deslembramento edênico, sobre esse contexto primitivo de martírio, esse palimpsesto de dor que repousa ainda sob a indiferença dos nossos pés…


Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.

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