Nostradamus e a pesquisa eleitoral no Brasil; Por Paulo Elpídio de Menezes Neto

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Nostradamus, profeta que escreveu sobre o futuro do mundo – Wikimedia Commons

“É feio perder eleição”, da sabedoria popular

Ná decada de 40/50, a aplicação de consultas de opinião limitava-se aos estudos de comunidade, então em moda, em algumas disciplinas das chamadas ciências sociais. Escolhiam-se amostras representativas de grupos sociais, objeto de “pesquisas de campo”, com o objetivo de conhecer crenças, valores, formas de comportamento e as relações praticadas “in group”.

A midia, enriquecida com as novas tecnologias de informação e comunicação, ao sair do papel impresso, abriu novos espaços pelo rádio e pela televisão. Hoje, acrescidos das redes sociais.

Com a aproximação das eleições deste ano, no Brasil, as pesquisas de opinião largaram a mão da academia, e transformaram-se em empresas com um portfolio aberto, passando a exibir suas múltiplas capacidade de negócio.

Abriu-se, pouco a pouco, ao longo de poucos anos, mercado propício, nos nichos da propaganda eleitoral dissimulada, ao preço de relações politicas incestuosas entre o poder do Estado, os ritos eleitorais e a mídia.

Antes, quando a questão cingia-se a questões éticas e metodológicas, a discussão ocupou lugar central sobre os limites desses procedimentos de investigação na universidade.

As metodologias e técnicas de pesquisa transformaram-se, então, em instrumentos essenciais de trabalho, do ponto científico, como também graças aos pressupostos éticos que envolviam, de uma perspectiva ética.

O que se viu, ontem, em longa reportagem, em horário nobre da tevê, mostrava a questão central da pesquisa de opinião politica — designada genericamente de “pesquisas eleitorais” — como a fidedignidade dos resultados indicados em relação ao desfecho final do processo eleitoral.

Mais de 20 empresas haviam sido convidadas para que opinassem sobre as novidades que o TSE tinha como surpresa para tornar mais previsieveis as eleiçoes deste ano.

O presidente da “Casa da Democracia” preocupava-se vivamente com que os resultados apurados de pesquisa contratada não ficassem tão distantes da realidade. Discorreu, em seguida, sobre a criação de um “selo de qualidade” que consignasse maior credibilidade aos resultados finais da pesquisa.

Data venia, parece inconcebivel que esse fosse o objetivo de uma pesquisa eleitoral. Não estamos, no caso, a lidar com um jogo, cujos jogadores devessem ser alimentados com palpites seguros sobre quem vence ou quem perde o pleito ou a corrida no balcão das apostas.

Esse tipo de preocupação mostra, com inaceitável indulgência, a possibilidade de uma pesquisa, assim construída e conduzida, influir sobre a intencionalidade do voto, o condicionamento para o “voto vencedor”.

O eleitor que vota em quem vai vencer [“é feio oerder eleição” e “faz-se de tudo oara fanhar uma eleição”], compara-se ao que diz votar nulo e aos que “não gostam de perder o voto”.

A “pesquisa eleitoral” é uma leitura instantânea, o retrato de um momento, sujeito a modificações, a influências, e pressoes ilegítimas, exercidas sobre eleitores e candidatos. Em uma democracia, não deveria ser vista como certificação prévia do vencedor.

Esse debate é antigo, não foi articulado agora. Devemos às omissões suscitadas até hoje por pessoas que passaram ao largo da academia.

Não podemos aceitar a redução do processo eleitoral aos rigores de uma urna eletrônica, de leis autoritárias e de contratos passados com empresas de pesquisa, cujos custos operacionais tenhamos que pagar com o “fundo partidário”.

Paulo Elpídio de Menezes Neto é articulista do Focus, cientista político, membro da Academia Brasileira de Educação (Rio de Janeiro), ex-reitor da UFC, ex-secretário nacional da Educação superior do MEC, ex-secretário de Educação do Ceará.

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