O reverso da conquista e a poética do Avôhai; Por Por Helder Ferreira de Moura

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Por Helder Ferreira de Moura

Ao longo da história da humanidade, muito se discutiu sobre a condição do idoso. Inúmeras teorias foram elaboradas e, em diferentes culturas e civilizações, encontramos profundas divergências na forma de compreender e tratar a velhice.

Na cultura cigana, por exemplo, o idoso ocupa uma posição de elevadíssimo respeito. É visto como guardião da sabedoria, da memória e da identidade do clã. Os mais velhos formam o conselho da comunidade e participam das decisões familiares e coletivas. O abandono é moralmente inaceitável, e o cuidado com os idosos constitui um dever que se estende naturalmente às crianças e a toda a família.

No Brasil, a Constituição Federal e o Estatuto da Pessoa Idosa tipificam como crime a negligência, o abandono e as diversas formas de violência — física, psicológica, patrimonial ou financeira — praticadas contra os idosos.

O educador Paulo Freire defendia que o ser humano está em permanente processo de formação, conceito que denominava de “inacabamento”. Para ele, aprender é uma tarefa para toda a vida. Rejeitava o etarismo e afirmava que a velhice não se resume à idade cronológica: somos jovens ou velhos, sobretudo, pela maneira como pensamos o mundo e pela disposição de permanecermos curiosos diante do conhecimento. Sua pedagogia valoriza a troca de experiências, fortalece o protagonismo do idoso, promove sua integração na sociedade e resgata sua autoestima e motivação.

Sob a ótica da psicanálise, Freud compreendia o envelhecimento como um processo contínuo de elaboração de perdas. Envelhecer significa adaptar-se às limitações físicas, às perdas simbólicas e à constante reconstrução da própria identidade. Cada indivíduo vivencia esse percurso de maneira singular, confrontando-se com o declínio natural e com a finitude da existência.

Apresentei essas três perspectivas — a cultura cigana, Paulo Freire e Freud — antes de voltar o olhar para uma realidade profundamente brasileira e, talvez, ainda mais nordestina.

Em 1963, o governo João Goulart sancionou o Estatuto do Trabalhador Rural, lançando as bases da previdência social no campo. Em 1971, durante o governo Emílio Garrastazu Médici, o sistema de aposentadoria rural foi efetivamente implantado e ampliado.

É preciso recordar a realidade anterior. Dou um exemplo.

Na Fazenda Santelmo havia uma casa ocupada por quatro idosos, todos com mais de 85 anos. Necessitavam de medicamentos, roupas e alimentação. Aninha, Madalena e Manoel eram solteiros. Dona Raimunda havia sido abandonada pelo marido e tinha dois filhos igualmente incapazes de ajudá-la. Como sobreviveriam? Dependiam quase exclusivamente da generosidade dos proprietários da fazenda.

Esse exemplo ilustra a importância da aposentadoria rural, apesar das críticas de que seus beneficiários não haviam contribuído para a Previdência. Na verdade, não podiam contribuir. O sistema simplesmente não existia, e o trabalho rural era exercido em condições que sequer permitiam remuneração regular. Negar-lhes proteção social significaria perpetuar uma grave injustiça.

A aposentadoria transformou essa realidade. A princípio, representou um avanço civilizatório incontestável. Ninguém imaginava, entretanto, que esse benefício acabaria produzindo, em muitos casos, um efeito colateral perverso: o surgimento de filhos e netos avessos ao trabalho, que passaram a sobreviver às custas dos aposentados. São verdadeiros sanguessugas familiares, capazes de privar os idosos até mesmo de suas necessidades básicas para financiar despesas supérfluas, como motocicletas, telefones celulares e, não raro, a cachaça.

Com o passar dos anos, surgiu uma nova geração: os filhos desses sanguessugas, que também passaram a transferir para os avós a responsabilidade pela criação dos próprios filhos. Multiplicam-se crianças sustentadas quase exclusivamente pela renda dos aposentados.

Nas minhas inquietas observações pelo sertão, conheci inúmeros casos — alguns verdadeiramente revoltantes. Filhos sem compaixão pelos próprios pais, consumistas irresponsáveis, criadores de uma nova categoria social que ouso denominar avôhai: o avô que, além de avô, é obrigado a assumir o papel de pai, provedor e, muitas vezes, único responsável pelo sustento da família.

Trata-se de um fenômeno silencioso, mas de profundas consequências sociais. Enquanto essa realidade se expande, as autoridades parecem ainda não enxergar um problema que cresce dentro dos próprios lares brasileiros.

A ironia trágica da história recente do sertão é que a caneta que libertou o idoso da dependência humilhante dos coronéis e patrões, décadas atrás, acabou por acorrentá-lo à dependência predatória da sua própria descendência. O benefício que deveria ser o descanso do guerreiro virou o banquete de quem se recusa a guerrear. O idoso rural, que passou a vida cavando a terra seca sob o sol escaldante, hoje cava, no silêncio de sua dignidade, o sustento de filhos e netos que escolheram o ceticismo do ócio, embalados pelo motor das motos financiadas e pelo torpor da cachaça.

O Avôhai é, afinal, o retrato de um Brasil que resiste não por causa do sistema, mas apesar dele. Um herói trágico vestindo sandálias de couro, cuja maior riqueza não é o salário que lhe roubam no fim do mês, mas a grandeza inabalável de um peito que ainda sabe ser abrigo.

Nota: O termo Avôhai (avô e pai) é uma criação do cantor Zé Ramalho em alusão ao avô que o criou com a morte do pai.

Helder Moura é Cirurgião Dentista, especialista em saúde pública, prótese dentária e ortodontia e ortopedia dos maxilares. Membro Fundador da Academia de artes e letras de Cajazeiras.

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