
Fui criada em um ambiente que sempre respirou política. Sempre gostei de ler, estudar, acompanhar análises, comparar fontes e procurar os fatos que sustentavam uma afirmação. Foi assim que aprendi a fundamentar minhas escolhas e posições. De uns tempos para cá, porém, tenho me sentido cansada, desesperançosa e quase envergonhada por não ter mais estômago para acompanhar tudo como acompanhava. Comecei a me perguntar: desisti?
Certamente, parte desse cansaço vem da dificuldade de reconhecer o que ainda pode sustentar uma discussão. Uma informação é apresentada, sua fonte é desqualificada, a fundamentação é tratada como disfarce de algum interesse. Por vezes, tenho a impressão de que nenhuma explicação será suficiente, porque a disposição de aceitá-la ou rejeitá-la já estava definida antes de conhecê-la.
Toda a movimentação no STF por conta daquele banco me trouxe de volta a esse incômodo. Além da apuração de responsabilidades individuais, o caso suscita uma questão sobre a confiança: como julgamos informações que atingem pessoas e instituições nas quais acreditamos? E o que acontece quando sucessivas suspeitas nos levam a desconfiar de qualquer instituição, argumento ou possibilidade de esclarecimento?
Documentos de uma investigação precisam ser examinados quanto à autenticidade, ao contexto e ao que efetivamente permitem concluir. Sua divulgação não transforma automaticamente suspeitas em fatos comprovados. Essa exigência de rigor, entretanto, precisa permanecer a mesma quando as informações contrariam nossas preferências. Quando cobramos provas apenas para proteger aqueles com quem nos identificamos, fazemos do próprio rigor um instrumento de conveniência.
Em Verdade e política, Hannah Arendt distingue a verdade factual das opiniões que formulamos sobre os acontecimentos. A pluralidade de opiniões depende de um mundo que possamos compartilhar: podemos interpretar um acontecimento de maneiras diferentes, mas precisamos preservar os fatos sobre os quais divergimos. Quando a própria realidade se torna subordinada à preferência, fica comprometida a possibilidade de discutir algo em comum.
Essa reflexão ajuda a compreender o perigo de uma desconfiança que deixa de ter limites. Questionar uma informação envolve procurar sua origem, confrontá-la com outras evidências e avaliar o que ela permite afirmar. Há, nesse exercício, uma abertura para descobrir algo. Quando toda fonte é considerada manipulada e toda justificativa é tomada como encenação, essa abertura se fecha. Nenhuma resposta pode esclarecer, porque qualquer resposta já nasce desacreditada.
Essa disposição pode parecer uma forma de proteção contra o engano. No entanto, se todas as fontes são consideradas igualmente indignas de confiança, perdemos critérios para distinguir uma apuração cuidadosa de uma acusação sem fundamento. Nesse terreno, a familiaridade, o pertencimento e a força de uma narrativa podem ocupar o lugar da evidência. Podemos acabar aceitando justamente aquilo que mais confirma nossas preferências.
Isso não significa que as instituições mereçam confiança incondicional. A desconfiança pode nascer de contradições reais, de falta de transparência e de experiências reiteradas de tratamento desigual. Por isso, a responsabilidade de reconstruir a credibilidade também pertence às instituições. Elas precisam oferecer razões que possam ser examinadas, responder a questionamentos e demonstrar capacidade de corrigir seus próprios erros.
No caso do STF, essa exigência tem um peso particular, dada sua responsabilidade na interpretação e na proteção da ordem constitucional. A confiança na instituição precisa encontrar apoio na coerência de seus procedimentos e na disposição de prestar contas. Quando seus compromissos parecem variar conforme as pessoas envolvidas, o desgaste pode alcançar a própria ideia de justiça que ela deve resguardar.
O mesmo problema atravessa o julgamento público. Se um comportamento é inaceitável quando praticado por alguém que rejeitamos, mas justificável quando atribuído a alguém que admiramos, precisamos explicar qual diferença relevante sustenta essa avaliação. Contextos distintos podem justificar conclusões distintas. A identidade de quem está envolvido, por si só, não deveria decidir o critério.
É aí que minha inquietação com o certo e o errado encontra a questão da confiança. Uma sociedade pode conviver com divergências profundas sobre o que é justo. Precisa, contudo, de condições para discutir essas divergências: fatos que não sejam descartados por conveniência, argumentos que possam ser contestados e critérios que também se apliquem a quem os defende.
Quando essas condições se enfraquecem, palavras como “justiça”, “verdade” e “responsabilidade” correm o risco de continuar presentes apenas como recursos de defesa ou acusação. Seu significado passa a acompanhar o interesse de cada ocasião. E quem tenta compreender o que acontece se vê diante de uma dificuldade crescente: como formar um julgamento quando até os meios de fundamentá-lo são permanentemente desacreditados?
Tenho certeza de que meu cansaço tem relação com essa dificuldade. A sensação de que nada merece confiança pode levar ao afastamento, mas também à entrega a alguma voz que ofereça certezas sem admitir perguntas. Ambas as respostas reduzem nossa capacidade de participar da vida pública com discernimento.
Quero preservar a possibilidade de uma confiança que possa ser cobrada, examinada e revista. Isso exige reconhecer o que sabemos, o que ainda não sabemos e quais evidências poderiam mudar nossa posição. Exige também que a cobrança dirigida aos outros alcance aqueles em quem preferimos acreditar.
Mais do que perguntar em quem ainda podemos confiar, precisamos perguntar quais critérios estamos dispostos a sustentar, inclusive quando eles nos contrariam. É desse compromisso que depende a possibilidade de questionar sem desistir de compreender.








