Quando os pobres desaparecem do discurso, são eliminados dos projetos de futuro; Por Cynthia Studart Albuquerque

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Há discursos que impressionam tanto pelo que dizem quanto pelo que deixam de dizer. A convenção que lançou Ciro Gomes candidato ao Governo do Ceará foi assim. Durante mais de quarenta minutos, falou-se de segurança pública, facções criminosas, corrupção, saúde, obras, alianças políticas e moralidade administrativa. Falou-se muito do passado, superficialmente do presente e bastante dos adversários. Entretanto, um sujeito histórico do pensamento de Ciro praticamente desapareceu: os pobres. Não apenas como categoria social, mas como sujeitos centrais de um projeto de desenvolvimento.

Essa ausência chama atenção porque não se trata de qualquer trajetória política. Durante décadas, Ciro construiu sua identidade pública defendendo um projeto nacional de desenvolvimento baseado na reindustrialização, na ciência, na tecnologia, na educação, no planejamento estatal e na soberania nacional. Seu ponto de partida era a convicção de que o atraso brasileiro não seria superado apenas pelo crescimento econômico, mas pela capacidade do Estado de produzir oportunidades, reduzir desigualdades e integrar milhões de brasileiros ao desenvolvimento.

Na convenção tucana, entretanto, essa agenda praticamente desaparece. O desenvolvimento cede lugar à ordem; a transformação social perde espaço para a centralidade do combate ao crime; a inclusão deixa de organizar o discurso, substituída por uma narrativa predominantemente centrada na segurança pública, na corrupção e na crítica ao governo.

Enquanto isso, na convenção do PT, afirmou-se outra concepção de futuro para o Ceará: um Estado que cresce porque cuida. O balanço do primeiro Governo Elmano e as diretrizes para o próximo ciclo sustentam que desenvolvimento econômico e justiça social não são agendas concorrentes, mas dimensões inseparáveis de um mesmo projeto. Crescimento do PIB, geração de empregos, atração de investimentos, infraestrutura, ciência, tecnologia, inovação e transição energética aparecem articulados ao Ceará Sem Fome, à proteção social, à redução da insegurança alimentar, ao fortalecimento da agricultura familiar, da educação e das políticas voltadas às populações mais vulneráveis. O desenvolvimento deixa de ser um fim em si mesmo para tornar-se instrumento de ampliação de oportunidades, redução das desigualdades e melhoria concreta da vida das pessoas.

Talvez essa seja a principal questão colocada ao Ceará em 2026. Não se trata apenas de escolher entre candidatos, mas entre projetos de desenvolvimento. O problema do novo discurso de Ciro não é que ele trate da segurança pública — esse é um desafio real e urgente. O que chama atenção é que a pobreza praticamente deixa de aparecer como questão estruturante do desenvolvimento. E, quando os pobres desaparecem do discurso, talvez deixem também de pertencer ao projeto de futuro. Resta, então, uma pergunta inevitável: a pobreza continua sendo compreendida como um desafio econômico, social e civilizatório ou volta, pouco a pouco, a ser tratada apenas como um problema de ordem pública?

No fundo, é essa a escolha que está posta. Enquanto Ciro propõe recuperar um Ceará do passado, o projeto liderado por Elmano e Gabriella propõe construir um Ceará do futuro por meio do desenvolvimento sustentável, da inovação, da geração de oportunidades e da redução das desigualdades. Porque um Estado verdadeiramente desenvolvido não é aquele que apenas cresce; é aquele que faz o crescimento chegar às pessoas. E, sobretudo, às que mais precisam.

Cynthia Studart Albuquerque é Assistente Social, Doutora em Serviço Social (UFRJ) e Secretária Executiva de Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SDHDS) de Fortaleza

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