“Terrorista morre em confronto com forças de segurança”; Por João de Paula

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Foi o que li certo dia de dezembro de 1972, na primeira página do Jornal do Brasil, no Rio de Janeiro, como abertura de um comunicado oficial sobre a morte de Lincoln Cordeiro Oest. O “terrorista”, de 63 anos de idade, não portava sequer um canivete quando foi preso. Aquela notícia era mais uma farsa das forças de repressão para dissimular seus assassinatos de opositores da ditadura. A verdade, descoberta pouco depois, é que Lincoln Oest fora morto sob tortura nas dependências do DOI-CODI, órgão do I Exército.

Lincoln Oest, ex-deputado estadual e dirigente do PCdoB, pessoa que — por indicação de Pedro Pomar, nosso elo com aquele partido — estava dando apoio à Ruth e a mim nos preparativos da nossa ida para o Chile, estranhamente faltara a um encontro que devíamos ter dois dias antes e, o que era ainda mais inusitado, ao encontro alternativo que, por regra, deveria ocorrer 24 horas depois que um primeiro falhasse.

Enquanto eu, ansioso, o aguardava em uma discreta esquina do Méier, ele estava na Tijuca, em uma unidade militar, sendo submetido aos mais atrozes sofrimentos que podem ser impostos a um ser humano. Lincoln Cordeiro Oest foi cruelmente assassinado, não entregando aos seus algozes segredos que colocariam em risco a vida de várias pessoas — incluindo a minha. Resguardou vidas às custas da sua.

Com a morte de Lincoln Oest, os preparativos da nossa viagem ao Chile tiveram um retrocesso. Perdida nossa conexão política, Ruth e eu decidimos buscar alternativas em outros terrenos. Para assegurar nossa sobrevivência, Ruth trabalhava como secretária em uma clínica, e eu dava aulas de reforço em matemática — evidentemente com nomes fictícios. Mas o que ganhávamos só bastava para nossa manutenção, nada sobrando para cobrir despesas de uma viagem ao exterior. Tivemos que recorrer à ajuda financeira de familiares que residiam há anos no Rio.

Além de dinheiro, precisávamos de documentos pessoais com autenticidade suficiente para passarem pelo controle policial na fronteira do Brasil. Para isso, o melhor caminho era a obtenção de uma carteira de identidade emitida pelo Instituto Félix Pacheco, do Rio de Janeiro, considerada de grande credibilidade. O ponto de partida era uma certidão de nascimento, e o Lincoln Oest já havia conseguido uma para mim. No caso de homens, havia também a necessidade de um certificado de alistamento militar. Para obtê-lo, tive que me alistar em uma unidade do Exército. Valeu o risco: consegui receber uma autêntica carteira de identidade… falsa.

O mais problemático é que a Ruth não tinha conseguido ainda uma certidão de nascimento. Então, um primo meu, o Oswaldo, que era da Marinha Mercante, encontrou uma solução por meio do Expedito, um ex-colega marinheiro que tinha ligação com um funcionário de cartório. A Ruth foi apresentada como se fosse filha do Expedito, tida anos antes fora do casamento e só reconhecida por ele naquela ocasião. Deu certo. Com uma certidão de nascimento autêntica — embora com outro nome — foi fácil para a Ruth tirar sua nova RG.

Um parêntese.
O Expedito, pretenso pai da Ruth, era uma figura humana muito especial. Além das tatuagens que, àquela época, ainda eram típicas de marinheiros, ele tinha cicatrizes de feridas de faca e bala por todo o corpo — registros inapagáveis de brigas em zonas portuárias nacionais e estrangeiras.

Quando, em uma conversa sobre nossos medos, lhe perguntamos se já tivera isso alguma vez, sua resposta foi:

“Sempre. Antes de começar qualquer briga, meu corpo tremia… até eu lhe perguntar se não estava reconhecendo o Expedito. Aí o tremelico parava — e o pau cantava.”

Este era o ex-marujo Expedito, que tinha coragem também para ser solidário — virtude que começava a escassear naquela que foi a fase mais repressora da ditadura militar.

Neste período de preparação da viagem para o exílio, dois casamentos de amigos tiveram grande relevância.

O primeiro foi o da Nazaré com o Antero. A convite dela, tomando os devidos cuidados, estávamos dispostos a participar de um evento que ela planejara para ser íntimo. Acontece que suas amigas de trabalho, sem seu conhecimento, prepararam uma cerimônia hippie, com todos os ingredientes para ter grande repercussão — articulando, inclusive, a cobertura por um jornal e um canal de TV.

Nossa sorte foi que uma das colegas de apartamento da Naza conseguiu nos avisar a tempo desse novo formato da celebração, nos livrando de uma filmagem ao vivo e em cores — que foi vista até em Fortaleza pela mãe da noiva.

Das bodas perigosas para foragidos como nós, a segunda foi a do Ananias, nosso vizinho na casa de aluguel de cômodos em que morávamos, perto do estádio do Maracanã. Natural do Rio Grande do Norte e vigia noturno da construção civil, ele ficou muito contente quando aceitamos o convite para sermos seus padrinhos de casamento.

Só que, depois de ouvir a aceitação do convite, perguntou quando poderíamos ir com ele ao Colégio Militar, ali pertinho, para nos cadastrarmos — pois, devido aos riscos de terrorismo, essa era uma exigência para que casamentos de civis pudessem ser realizados na capela da unidade militar.

O que fazer? A solução foi dizer-lhe, no dia seguinte, que nos mudaríamos para São Paulo, pois eu recebera um convite de um tio para trabalhar com ele em uma lojinha. Começamos imediatamente a procurar outro lugar para morar, e o que nos pareceu mais apropriado foi uma espécie de pousada popular de Sepetiba, que alugava quartos para veraneio.

Estávamos nos preparativos finais da viagem para o Chile, e a expectativa era de que não passaríamos ali mais do que um mês. E este mês foi muito tranquilo naquele bairro litorâneo da zona oeste, a quase 70 quilômetros do centro do Rio — exceto por um susto.

A Ruth e eu resolvemos parar no coreto de uma praça do centro de Sepetiba, onde estava sendo filmado pela TV Globo um capítulo da novela O Bem Amado, de Dias Gomes. Enquanto víamos os desempenhos magistrais de Paulo Gracindo, Lima Duarte, Emiliano Queiroz, Sandra Bréa e Ida Gomes, percebemos a chegada de alguns carros da PM. Discretamente, saímos dali.

Mais tarde, um hóspede da nossa pousada que permanecera na praça nos contou que fora feita uma batida policial, com fiscalização de documentos e prisão de várias pessoas para averiguação.

Finalmente, chegou o dia da partida para o Chile.
Mas amizades feitas na viagem de ônibus, uma dificuldade inesperada para entrar no país e o primeiro dia em Santiago… ficam para outra historieta.

De Maranguape
João de Paula

João de Paula Monteiro Ferreira, 79 anos, ex-presidente do DCE da UFC, ex-diretor da UNE, médico especialista em psicoterapia e psicologia organizacional, formado pela Medizinische Fakultæt der Universitæt zu Kœln, República Federal da Alemanha.

 

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