Quando ele entrou em casa, já um tanto tarde, e pisou no par de chinelos de veludo dela que estava sobre o tapete, entre o pé do sofá e a mesa de centro, esmagando-os como se esmagasse uma barata, ela suspeitou que aquela seria a noite. Ele foi para o quarto do casal, sem cumprimentos. Ela meteu-se no quarto da filha, com quem vinha repartindo a cama nas últimas semanas.
Depois que ele apagou as luzes da casa e passou a chave na porta do quarto dele, ela e a filha em perfeito silêncio jogaram alguns poucos objetos dentro de suas sacolas – os remédios diários, as chaves e os óculos dela, o uniforme e os livros escolares da menina –, abriram devagar a porta do quarto, a porta da casa, e fugiram na ponta dos pés.
A empregada doméstica que dormia na casa estava usufruindo dois dias de uma folga generosamente concedida por ele. Ela estava certa de que, naquela noite ou na seguinte, ele iria matá-la.
Sim, porque coisas desse tipo acontecem todos os dias, sem distinção de classe social e sem precisão de motivos.
Mãe e filha foram para um hotelzinho não muito distante, no carro dela. No dia seguinte, enquanto a menina estava na escola, ela conseguiu com o amigo de um amigo a escolta de um policial a paisana e voltou para casa.
Ele estava na sala, sentado na poltrona diante da TV desligada, como se a esperasse. Ela olhou em torno o que queria levar – que não era muita coisa. Estava disposta a abandonar o faqueiro, o conjunto de pratos e xícaras, as pratarias, os castiçais e os espelhos, os enfeites das prateleiras, os presentes de casamento. Deixaria também quase todas as suas roupas, bolsas e calçados.
Ia sair praticamente com a roupa do corpo – e com a vida. Mas insistiu em levar as roupas, os livros e os brinquedos da filha e, o mais importante, as joias que ganhara da própria mãe.
Eram brincos de pérola negra, de Fidji, como ouvira a mãe dizer, eram anéis coroados por pedras preciosas, pulseiras com minúsculos brilhantes incrustrados, colares e cordões de ouro e de prata, um verdadeiro tesouro que vinha passando de mãe para filha há muitas gerações.
Foram os três até o cofre, escondido atrás de um quadro no quarto principal. Assoviando uma música da moda, relaxado como se estivessem todos eles em uma situação corriqueira, ele girou com a ponta dos dedos grossos os discos numéricos da senha e abriu a porta do cofre com um movimento floreado. Estava inteiramente vazio.
Ela olhou para o rosto dele pela primeira vez desde que chegara e cobrou as joias. Que joias? – ele perguntou bem-humorado, a representação humana da mais pura inocência, como se ela estivesse brincando. Não tem joia nenhuma aqui dentro, vocês estão vendo!
Ela ficou transtornada, é evidente, sabendo que ele estava empunhando a porta de aço e a boca aberta do cofre como armas de vingança sobre ela. A ausência das joias não autorizava a presunção de que, alguma vez, teriam tido existência real dentro do cofre. Ela e o musculoso acompanhante que se fossem, de braços vazios.
Algumas décadas se passaram. Ela voltou à Faculdade, estudou, graduou-se no campo das leis e por muito tempo se ocupou em um escritório movimentado. A filha também se graduou, casou-se com um bom rapaz, e deram a ela uma neta e dois netos. Aliás, não só a ela: a ela e a ele, o ex-marido, que continuava morando na mesma cidade e de quem ela, vez ou outra, tinha notícias através de terceiros.
Parece que ele está doente – diziam a ela. Parece que se separou, ou que vai ser operado, ou está cheio de problemas – informavam, para desinteresse dela. A vida dele resumida tão pouco.
No primeiro aniversário da neta, o mais valioso presente que a menina recebeu foi o dele, do avô: um par de brincos de pérola negra de Fidji. No segundo aniversário, a menina ganhou uma pulseira com minúsculos brilhantes incrustrados, e assim se deu por muitos aniversários e datas comemorativas. A cada festa, voltava ao destino de origem uma peça do conjunto das joias que tinham sido guardadas dentro do cofre.
Quando ele faleceu, ela e a filha espalharam as joias da menina sobre a mesa e contabilizaram as peças devolvidas. Não faltava nenhuma delas. Ele foi justo – elas precisaram reconhecer, não sem uma ponta de ironia, antes de sepultar de vez o passado.
Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.







