Visita à velha senhora. Por Angela Barros Leal

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Por Angela Barros Leal
Articulista do Focus

A velha senhora usa um vestido caseiro longo, de um tecido macio como seda, com mangas que quase encobrem as mãos. Um colar de pérolas de volta única, junto ao pescoço, um anel luzindo em cada dedo e um broche em desenho de pavão, fechando a gola do vestido. A velha senhora não aprecia mostrar a própria pele, no que dou a ela inteira razão.

Ela parece alguém que mora na torre de um castelo, no qual as janelas estremecem com o sopro do vento, vindo de mares encapelados. De lá, ela consegue enxergar o que se passa no resto do mundo. 

(O que acontece de verdade: ela mora no último andar de um edifício de apartamentos, um desses tantos de perfil altivo, contornando nossa orla. Realmente, o vento marinho, trazendo no fim do dia o retorno das jangadas, com sua safra de pescados, extrai tremores dos vidros que protegem a varanda. Lá ela senta toda noite, em uma poltrona de veludo azul, usando seus vestidos de quase seda, suas sandálias rasteiras, de prata, seus anéis e seu colarzinho de pérolas, para assistir televisão).

A velha senhora aprecia programas educativos, nas áreas de História e Ciências, ou privilegia atividades culturais, dando preferência a danças clássicas, violinos e pianos. Nada vê de notícias de batalhas, de exércitos conflagrados, de pessoas refugiadas ou em conflito. É mais importante exercitar a mente, ela me diz, o que confirmo ao ver um jornal do Sul, impresso em papel, sobre a mesinha de centro. 

(Apesar de sua longa e conceituada formação científica, não houve como a senhora aceitar a mudança de plataforma para os meios de leitura digital.)

Daqui, do alto de sua torre que escurece aos poucos, enquanto desaparece o sol e o seu cabelo branco reassume tons dourados, ela confessa que mal escuta o bramido fumegante dos dragões soltos nas ruas, muito menos o silvo das serpentes de olhos brancos e vermelhos, que travessam a os caminhos urbanos, muitos metros sob seus pés.

(Sei que ela não ouve mais as buzinas, os freios, o alarido das aglomerações, os sons da cidade. Não por alguma deficiência auditiva, fez questão de esclarecer. Escuta até o pisar macio dos pombos, fazendo ninho nas caixas do ar condicionado, mas habituou-se ao barulho vindo do rés-do-chão).

A velha senhora agita uma campainha sobre a mesa e à nossa frente se materializa um breve lanche. Café, leite, geleia de goiaba, biscoito caseiro. Ela aprova alimentos tradicionais, que mantenham o estômago tranquilo, e faz questão de preservar a silhueta com a qual casou, no tempo em que os dinossauros dominavam a Terra.

(Isso ela comenta em tom de brincadeira, enquanto limpa com o guardanapo de linho o semicírculo rosado de batom, deixado na borda da xícara).

A velha senhora sabe muito, sobre muitas coisas. Ainda que use a ponta dos dedos para tocar sua testa, minimizando seu poder de memória, sabe contar durante horas histórias que remontam aos primeiros impérios, ao tempo das Cruzadas, à Idade Média, lendas sobre reis, palácios e castelos assemelhados a esse, onde ela mora.

Venha ver meus livros, ela convida, e sigo nos passos dela sobre tapetes macios, enquanto a luz se faz à sua frente, nos corredores e aposentos que percorremos, ladeadas por tocheiros de 40 velas macias. O quarto dos convidados. O quarto de vestir. O quarto dos sonhos. O quarto das leituras.

(Colunas de estantes se enfileiram, ao longo das paredes, do piso ao teto. Segurança estrutural, ela adverte, ciente dos riscos do excesso de peso de sua bagagem literária sobre a estrutura do prédio).

Não há limites para sua leitura, que cobre assuntos inesperados, além daquele voltados à sua especialidade. De cada um ela recorda a procedência: onde e quando foram adquiridos, os que ela vira expostos em vitrines, e não pudera deixar de comprar, ou de quem ganhara como presente.

Abro um deles. As páginas estão marcadas de alto a baixo em marca texto amarelo, pó de ouro tocando letras e frases. Abro outro, em outra prateleira, e vejo iguais traçados. Li todos, ela esclarece, olhos saudosos percorrendo as estantes em volta. O que mais eu poderia fazer, suspira, Rainha sem Rei, ausentes os Príncipes, uma solitária dama de companhia substituindo seus súditos e sua extinta Corte. 

(Vou embora com certa tristeza. Ela retornará a seu trono de veludo, diante da TV, rodeada por peças procedentes de habitações antigas e por lembranças de viagem, solitária como uma Imperatriz no exílio, reinando sozinha sobre seu passado). 

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus.jor.

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