Uma missa para os vencidos; por Ricardo Alcântara

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Hieronymus Bosch, A Nave dos Loucos, óleo sobre madeira, 58 cmx 33 cm, 1503-1504.

Nem caberia discutir os aspectos estritamente políticos das concentrações públicas em frente aos quartéis, em que apelam por uma intervenção militar e, por óbvio, o colapso da democracia, porque tais atos significam uma descarada confissão de hipocrisia: quando um cidadão comparece à urna eleitoral, ele assina um pacto com o resultado geral, a menos que se comprove qualquer tipo de irregularidade que o comprometa.​

O precedente histórico mais recente é um manual de conduta: em 2018, esses que agora se alegram com a vitória perderam a eleição para os que se mostram inconformados e, ao contrário deles, acataram a vontade soberana da maioria. Ali, nenhum eleitor do adversário sofreu ameaças. Nenhum poste em cidade nenhuma do país teve uma lâmpada apedrejada. Nenhuma estrada teve seu fluxo interrompido.

Perdemos e fomos para casa lamber nossas feridas, refletir sobre as causas da derrota. Demo-nos as mãos, superamos divergências, entramos no modo Resistência e nos preparamos para recuperar a crença dos mais pobres de que não: pobreza não é destino, pode ser vencida no país que mais produz alimentos em todo o planeta. Vencemos. A Terra voltou a ser redonda e a vacinação deixou de ser uma manobra diabólica para extinguir a humanidade.

O flagelo daquelas reações foi avalizado em nota emitida pelas Forças Armadas que nos fez outra vez constatar que o ano que realmente nunca acabou para os generais brasileiros foi 1964 – um texto com indisfarçável objetivo de preservar o capital político da instituição, já por si inadequado. Foi um afago naquela gente que ocupa a calçada das guarnições militares quando deveria acampar na porta dos manicômios em busca de amparo psiquiátrico.

A nota faz menção equivocada ao preceito constitucional que garante aos cidadãos o direito de criticar os poderes da República. Ora, criticar os poderes não significa defender a abolição dos mesmos. Pior do que a interpretação primária, foi a omissão deliberada do artigo do Código Penal que, substituto da Lei de Segurança Nacional da ditadura militar, prevê como crime defender o confronto do poder militar contra os termos do regime democrático.

Aos senhores generais recomendaria uma boa missa, covidando para o esforço litúrgico de transcendência a legião de corações atormentados que cercam os quartéis. Afinal, foi o próprio presidente, uma alma siderada, que, ao fim, colaborou com seu providencial fracasso ao cometer todos os erros que lhe foi aconselhado evitar, permitindo que minguados 1,8 milhões de votos decidissem encomendar sua alma ao barqueiro do ostracismo.

Enfim, recuperem a serenidade e tratem de cuidar de seus afazeres profissionais: guarnecer os 16.886 quilômetros de fronteira do Brasil ao qual não se cansam de confessar amor sublime. Deixem que da política cuidaremos nós, os civis, preservando esse regime, a Democracia, que só tem uma virtude: ser melhor do que todas as outras alternativas, como costuma ser exaustivamente lembrado.

E continuem vestindo verde e amarelo porque a copa do mundo já vai começar.

Ricardo Alcântara é publicitário e escritor

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